sábado, 29 de agosto de 2026
TEMPO, CICLO E PESSOAS — REFLEXÕES
domingo, 9 de agosto de 2026
É OITO OU OITENTA: MEMÓRIAS DO PAPAI (SR. LUIZ CLÁUDIO DA SILVA ROSA)
sexta-feira, 7 de agosto de 2026
O RESSOAR DO ÚLTIMO ACORDE - Homenagem póstuma ao amigo Carlos Guimarães Neto
O RESSOAR DO ÚLTIMO ACORDE
Por: Rafael Victor Ribeiro
Há pessoas que passam pela nossa
vida fazendo barulho, já outras passam em silêncio, mas deixam uma presença tão
profunda e marcante que quando partem, caímos em si do tamanho do espaço que
ocupavam em nós.
Neto era assim. Homem de poucas
palavras, reservado, silencioso, exigente consigo e com os outros, zeloso com
tudo o que fazia e quase sempre obstinado a buscar perfeição das coisas. Mas,
bastava um pouco mais de intimidade para perceber que, por trás daquele
semblante sério e intimidador, havia um homem de coração imenso. Neto não fazia
parte oficialmente do Coral Regina Caeli – muito embora o regente não se
cansasse de convidá-lo – mas, de alguma forma, Neto pertencia a este coral.
Pertencia porque acreditava no
grupo, porque apoiava, porque servia... Era ele quem preparava deliciosos
jantares para os aniversariantes, quem abria as portas do seu sítio para
receber os paroquianos, quem se alegrava quando a casa estava cheia. Neto
gostava de ver gente, de ver alegria, de ver pessoas reunidas celebrando a
vida. E, quando demorávamos a aparecer, ele cobrava:
– “Você está sumido, não aparece
mais, não senta pra tomar café, não almoça mais com a gente!” Esse era o jeito
dele dizer: “Vocês fazem falta aqui!”
Hoje entendemos melhor o significado
daquela cobrança, era a despedida que não aconteceu.
Seu sítio no bairro Santa Lucrécia
era mais do que um lugar para o Neto, era a extensão da sua alma. Ali estavam
sua sensibilidade, seu gosto pela beleza, seu cuidado em cada detalhe, sua
paixão pela natureza, pela decoração e pela boa mesa posta e farta. Ali ele
cozinhava, organizava, recebia, cuidava. Ali ele servia.
E, talvez essa seja uma das palavras
que melhor definiram sua vida: Serviço e cuidado.
Neto
cuidou dos pais até o fim. Cuidou dos amigos de longa data. Cuidou dos espaços.
Cuidou dos encontros. Cuidou daquilo que amava. Era também um homem de fé,
devoto de Santa Edwiges, quis que sua própria casa no campo tivesse uma capela
dedicada a ela. E aquele espaço, que poderia ter sido apenas seu, tornou-se
lugar de encontro, de orações, de partilha e espiritualidade que uniu tantas
pessoas.
Seu sítio tornou-se, de certa
maneira, uma casa aberta. E talvez seja justamente isso que mais doa agora:
saber que aquela porta continua existindo, mas que quem tantas vezes a abriu
não está ali para nos receber.
Neto cumpriu sua Páscoa no dia 20 de
junho, e nós, seus amigos do Coral Regina Caeli, carregamos também uma pequena
dor: por circunstâncias da vida, muitos de nós não conseguiram estar presentes
na sua despedida para lhe prestar a homenagem que gostaríamos.
Por isso estamos aqui. porque
existem despedidas que não acontecem no momento exato em que a morte chega,
algumas precisam de tempo. Precisam que a saudade amadureça. Precisam que o
silêncio encontre um lugar para repousar para que, finalmente, encontremos
palavras capazes de dizer aquilo que a ausência ensinou.
Rubem Alves, certa vez escreveu que:
“a saudade só floresce na ausência”, e talvez seja o que estamos
experimentando. A ausência do Neto fez florescer a saudade. Saudade da mesa
cheia, saudade das cobranças, saudade daquela presença discreta, silenciosa,
saudade daquele último olhar...
As Sagradas Escrituras nos recordam,
que: “Tudo tem
o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu: tempo
de nascer e tempo de morrer [Eclesiastes 3,1-2].
Nós sabemos disso, sabemos
racionalmente. Sabemos que a vida tem um começo e que, um dia, inevitavelmente,
encontrará seu fim. Sabemos que somos peregrinos em terra estrangeira, e que o
coração não aprende a finitude da vida como do mesmo ponto de vista da razão. Por
outro lado, a fé nos ensina que a morte não é a última palavra. E São Paulo nos
recorda por meio da sua carta aos I Coríntios 13,8 que o “amor jamais acaba”, o
amor venceu a dor, e a própria morte foi vencida.
Rubem Alves, refletindo sobre a
morte, escreveu: “A morte é o último acorde que diz está completo!” Talvez
nossa vida seja mesmo como uma grande composição musical: Há notas que muitas
vezes não entendemos enquanto tocadas, não compreendemos sua harmonia complexa;
há pausas; momentos de tensão e outros de relaxamento, e um dia, daqueles em
que não espera o óbvio, o último acorde chega. Mas é porque a música termina
que cada nota ganha sua importância dentro da estrutura harmônica chamada vida.
Neto foi assim, compôs a própria
vida no seu ritmo, com suas particularidades, fazendo da arte de reunir pessoas
uma maneira de harmonizar a própria alma.
No ano passado, durante um dos
ensaios preparatórios do recital do Coral, Neto interceptou nosso regente,
Rafael, e comentou sobre uma música que havia acabado de ouvir. Era o “Ave
Maria”, de Julio Caccini. Neto disse que aquela música o transportava aos céus.
Contou que nunca havia escutado uma melodia tão linda antes. Talvez ele não
soubesse, que naquele momento estava deixando para nós uma espécie de última
mensagem. Porque hoje somos nós que ouvimos essa música e nos lembramos dele.
Nesta noite, queremos fazer dessa
canção, uma oração por um amigo que encontrou beleza na vida através do seu
amor pela natureza, pela mesa cheia, pela amizade fraterna, pela fé e,
sobretudo, pela presença das pessoas.
Gostamos de pensar que a música que
tanto o emocionou seja justamente uma oração dirigida a Maria, que a tradição
cristã invoca como Mãe da misericórdia. Aquela que esteve junto à cruz, que
conheceu de perto a dor da perda, aquela que aprendeu que amar é, muitas vezes,
permanecer diante de um mistério sem ter todas as respostas.
Neto não foi perfeito, ele foi
humano. Com suas virtudes e seus limites, com suas exigências e convicções e
sua maneira de demonstrar afeto. Mas foi também alguém que, dentro de sua
humanidade, procurou oferecer o melhor aqueles que amava, e isso basta. Neto
fez isso muitas vezes: servindo, recebendo, cozinhando, cuidando.
Hoje, nos queremos dizer obrigado.
Obrigado, Neto, por cada porta aberta. Por cada refeição preparada, por cada
encontro, por cada gesto de carinho e cuidado. Por cada cobrança que hoje virou
saudade. Obrigado por ter acreditado no nosso coral, mesmo sem jamais ter
vestido oficialmente nossas cores.
Que Santa Edwiges, a quem você
dedicou um lugar tão especial nesta terra, interceda por você diante daquele
que venceu a morte e que é a própria Vida: Jesus.
Ave
Maria, cheia de graça...
quarta-feira, 5 de agosto de 2026
SOBRE A GRAÇA DE ENCONTRAR UMA IRMÃ PELO CAMINHO
sábado, 1 de agosto de 2026
DA HUMANIDADE IMPERFEITA DO SER A MEMÓRIA DIGNA DE SER PRESERVADA - BIOGRAFIA DE PEDRO SENNE LEITE
1 Samuel 16:7
Pedro Senne Leite nasceu em Guaratinguetá, São Paulo, em 8 de março de 1938, e faleceu em 15 de setembro de 2008, aos 70 anos. Homem de personalidade forte e temperamento marcante, jamais passou despercebido por onde esteve. Era conhecido pelo jeito direto de falar, pela língua afiada e pelo humor irreverente. Daqueles que, como costumava dizer quem o conhecia, "perde a amizade, mas não perde a piada".
Sua história de amor com Leonídia começou de maneira curiosa e inesquecível. Durante a tradicional Festa de São Benedito, em Piquete, avistou Leonídia caminhando ao lado da mãe e da irmã em direção à Igreja Metodista. Encantado, seguiu discretamente o caminho até o templo e aguardou pacientemente o término do culto para se apresentar e acompanhá-la até sua casa. Daquele encontro nasceu uma união que atravessou décadas e da qual vieram cinco filhos: Sandra, Flodoaldo, Pedro, Silvana e Alessandro.
Mais tarde, a família cresceria com a chegada de onze netos — Rafael, Bruna, Camila, Luiz Cláudio, Jéssica, Lucas, Bianca, Thiago, David (in memoriam), Vinícius e Matheus —, que, à sua maneira, ocupavam um lugar especial em seu coração. Pedro nem sempre demonstrava carinho com palavras ou gestos, mas fazia questão da presença de todos. Para ele, qualquer data comemorativa era motivo suficiente para reunir a família ao redor da mesa que estava sempre farta. Estar cercado pelos filhos e netos era uma das formas mais sinceras de felicidade que conhecia.
Profissionalmente, construiu uma sólida trajetória no Banco Mercantil, onde trabalhou durante muitos anos como bancário. Era um homem disciplinado, sistemático, organizado e extremamente meticuloso com suas responsabilidades e funções, além de deter uma inteligência lógico-matemática para além da média.
Fora do trabalho, cultivava duas grandes paixões: o Corinthians e os automóveis que conquistou durante sua caminhada terrena. Corintiano até o último dia de vida, acompanhava seu time com grande entusiasmo. Já pelo seu inseparável Fiat Uno, nutria um amor incontrolável, motivo inclusive de inúmeras brincadeiras dentro da família.
Outro grande amor era a cidade de Ubatuba. As férias da família tinham destino praticamente certo: o litoral norte paulista. Ali foram construídas muitas das lembranças mais felizes dos filhos e netos. Contudo, no ano de 2008, pela primeira vez, quando um dos filhos perguntou se levaria novamente todos os netos para Ubatuba, Pedro respondeu apenas: "Eu vou descansar." Na época, ninguém compreendeu o peso daquela frase. Mais tarde, ela seria lembrada como uma despedida silenciosa.
Pedro Senne Leite não foi um homem fácil, muito pelo contrário, era extremamente exigente com tudo e com todos. Sua história está longe de ser a mais perfeita. Vovô era controlador, desconfiado, meticuloso, machista e, por vezes, excessivamente centrado em suas próprias convicções. Trazia consigo marcas profundas da geração em que foi formado. Conviver com ele exigia paciência, firmeza, embates e muita compreensão. Ainda assim, possuía um senso de responsabilidade admirável, era generoso quando alguém precisava de ajuda e colocava a família no centro de sua existência, ainda que não expressa em palavras. Seu amor nem sempre era delicado, mas quase sempre se expressava por meio do cuidado, da provisão e da presença.
Embora tenha convivido durante toda a vida com a fé metodista de sua esposa e de boa parte dos filhos e netos, permaneceu fiel às suas raízes católicas. Era devoto de Nossa Senhora Aparecida, ainda que não fosse um praticante assíduo. Frequentava a Igreja principalmente nas grandes celebrações do calendário cristão, como o Natal, a Páscoa, o Dia de Nossa Senhora Aparecida e às missas em intenção de familiares e amigos falecidos. E, tinha um detalhe curioso nessa história toda: no começo não gostava de protestantes, mas foi obrigado a aceitar ao longo da vida. Em seus últimos anos de vida, porém, algo pareceu mudar em seu interior. Tornou-se mais silencioso, contemplativo e aberto às questões espirituais. Demonstrava uma serenidade pouco comum em comparação aos anos anteriores. Em 2008, pediu perdão a alguns irmãos, reconciliou-se com amigos e organizou cuidadosamente toda a documentação da família, entregando-a aos cuidados de Leonídia, sua esposa "caso alguma coisa acontecesse com ele". Tais gestos revelaram uma consciência da finitude que impressionou todos os que conviveram com ele.
Pouco tempo depois, numa tarde de sábado, subiu à laje de casa para cortar os galhos de um pé de abacate. Durante o trabalho sofreu um mal súbito, caiu e teve um grave traumatismo craniano. Permaneceu internado em Unidade de Terapia Intensiva por quinze dias, até que, em 15 de setembro de 2008, teve sua morte confirmada após o diagnóstico de morte encefálica.
Pedro Senne Leite deixou muito mais do que lembranças. Deixou uma família numerosa, que entre filhos, netos, bisnetos e agregados já somam pouco mais de 45 pessoas, um legado de trabalho, responsabilidade e perseverança. Sua personalidade firme produziu amores, conflitos, aprendizados e memórias que permanecem vivas naqueles que o conheceram. Sua vida recorda que ninguém é feito apenas de virtudes ou apenas de defeitos. Somos, todos, uma combinação de luzes e sombras. E talvez seja justamente essa humanidade imperfeita que torna sua memória tão verdadeira, tão próxima e tão digna de ser preservada.
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