sábado, 29 de agosto de 2026

TEMPO, CICLO E PESSOAS — REFLEXÕES


"Las dos Fridas" (As Duas Fridas), Frida Kahlo | Óleo sobre tela, 173,5 × 173 cm (1939). 
 Museo de Arte Moderna, Cidade do México, México. 

Aristóteles, em sua obra clássica Ética a Nicômaco, dividiu a amizade em três tipos: a amizade baseada na utilidade, a amizade baseada no prazer e a amizade verdadeira, fundada no bem e na virtude.

Recentemente, comecei a constatar que algumas pessoas do meu ciclo social se aproximavam de mim pensando no que eu poderia oferecer a elas, algo que Aristóteles compreendia como uma amizade baseada na utilidade, na lógica da troca. Já em relação a outras, senti um leve afastamento, quase imperceptível, mas bem visível para quem já aprendeu a ler a vida de outra forma.

Sei que existem amizades que nos conectam com a nossa essência, e o tempo e a distância não rompem as barreiras que um dia foram criadas a partir do laço e do vínculo estabelecidos anteriormente. Nessas horas, você realmente entende o sentido do que é o amor e da constância.

Já em outras relações, a gente entende que a vida é feita de fases e que a energia das pessoas sempre muda. Talvez a minha tenha mudado e, com isso, naturalmente, tenha ocorrido a finalização de um ciclo, e algumas pessoas tenham seguido um curso natural, por caminhos diferentes dos meus.

Mas, nessa reflexão, quero chamar a atenção para aquele tipo de amizade que nasceu de um interesse específico, sustentado pela ideia de utilidade ou de um prazer instável e inconstante.

Nos últimos dias, tenho passado por um processo de metamorfose, e dizem que, a cada cinco anos, ocorre um encerramento de ciclo na vida do homem. E, junto desse encerramento, como a fênix da mitologia grega, nasce uma nova etapa da vida. Ou seja, da morte de um ser para a vida. Ou, como descrito no livro de Eclesiastes: “Há um tempo para todo propósito de Deus debaixo do céu.”

Quando o ciclo de amizades muda, a gente acolhe, respeita, agradece pelo tempo que se passou e deixa ir aquilo que um dia fez total diferença na nossa vida, fosse essa diferença boa ou ruim.

Afinal, ninguém aparece por acaso. A vida, às vezes, exige circunstâncias adversas que são atravessadas por pessoas forjadas na luz e na sombra, para fazer de nós pessoas mais maduras e, de certo modo, mais fortes e resilientes.

Nesse meu processo de mudança estética, de uma nova vida gerada por meio do ingresso em um curso importante, percebi o afastamento de certas pessoas. Talvez porque essas pessoas tenham se aproximado por algum interesse específico, ou porque querem nos ver bem, mas nunca, em hipótese alguma, melhor do que elas.

Esta reflexão não é para fazer alusão à ideia de um lamento em si, mas, sim, uma síntese sobre o quão complexa e incompreendida é a humanidade.

Senti isso, inclusive, na forma como algumas pessoas me tratavam e na maneira como passaram a me tratar. Senti nos boicotes em determinadas situações da vida, no olhar discreto e sutil, nos comentários passivo-agressivos, que são quase imperceptíveis, mas perceptíveis e sensíveis ao olhar daqueles que aprenderam a ler a vida, os gestos e as pessoas.

A gente se chateia um pouco, porque, de alguma parte, sempre houve sinceridade em tudo o que sentíamos, mas a gente não controla as emoções e os sentimentos alheios, e talvez nosso grande defeito enquanto seres humanos seja sentir demasiadamente. 

De uma coisa a gente tira dessa lição toda: a vida passa, as pessoas vêm e vão embora, mas só sobrevivem aqueles que suportam a sua felicidade e as suas conquistas.

Estar ao lado de alguém nos momentos de tristeza e amargura é fácil; permanecer ao lado nos momentos de felicidade extrema é que é bem difícil. Talvez esse seja o maior desafio do ser humano enquanto habita este plano e talvez também seja este um dos grandes desafios da nossa efêmera humanidade, como tão bem expressou o poeta atemporal Gonzaguinha:

“Fé na vida, fé no homem, fé no que virá!”

No fim das contas, é mais sobre a lealdade daqueles que um dia juraram caminhar do seu lado, sobre como resignificamos a vida e as pessoas ao nosso lado, do que sobre a atitude de cada um durante o percurso do nosso caminhar.

Que consigamos viver a nossa frágil e passageira humanidade em sua integralidade, acolhendo os encontros, respeitando os desencontros e compreendendo que cada pessoa deixa em nós aquilo que, de algum modo, precisava deixar.

Vivendo e aprendendo.

Autoria: Rafael Victor Ribeiro

domingo, 9 de agosto de 2026

É OITO OU OITENTA: MEMÓRIAS DO PAPAI (SR. LUIZ CLÁUDIO DA SILVA ROSA)


Esse é o papai, Sr. Luiz Cláudio da Silva Rosa — conhecido por muitos como o Sr. Rosa —, um homem de origem simples e humilde, de personalidade forte e marcante. Com o papai, como se diz no popular: “É oito ou oitenta!” ou "ama ou odeia!" 

Papai tem descendência indígena e africana. Teve como referência paterna, até os quinze anos, seu pai, Antonio Rosa — meu avô, que só conheci de nome e sobrenome —, que não era seu pai biológico, mas foi quem o registrou e o educou, de modo que ele se tornasse um homem honrado e honesto. Papai teve uma infância conturbada no interior paulista, entre às cidades de Lorena e Piquete, criado em meio aos cavalos, às vacas, ao pasto e ao tradicional angu com leite e açúcar que minha avó fazia para alimentar os filhos. 

Desde muito cedo, aprendeu valores dos quais eu me orgulho hoje: ética, moral, humildade, autenticidade, trabalho e serviço. Papai não foge de nada, não tem medo de nada, e sua vida é a prova viva de que algumas pessoas nasceram justamente para desafiar e contradizer o sistema.

Na minha adolescência, tivemos alguns conflitos. Afinal, assim como ele, eu nunca gostei que me ditassem regras (mal de artista). Felizmente, o tempo passou e, de lá para cá, com a maturidade, aprendemos a respeitar as nossas diferenças — que são muitas!

Papai foi criado na fé católica, muito embora sua mãe, que é minha avó, Laura, não fosse religiosa e carregasse consigo saberes antigos de seus ancestrais, o povo da Kaingang. Quando conheceu a mamãe, papai se converteu ao protestantismo. Hoje tem um lado espiritual independente de religiões, mas o temor ao Deus Criador nunca perdeu. Formou-se bacharel em Teologia, mas nunca foi pastor e nunca gostou desse título, sempre teve aversão a esse rótulo, muito embora algumas pessoas se referissem a ele dessa forma, e buscassem aconselhamento pastoral sempre. 

Na adolescência, papai trocou os estudos pelo trabalho, pois nunca gostou de seguir regras impostas. Eu, através dos meus achismos presunçosos, o “diagnostiquei” com “TOD” — Transtorno Opositor Desafiador. E o pior é que ele gostou do nome e sempre cai na risada quando digo que ele tem TOD.

Seu primeiro trabalho foi ainda na infância, aos sete anos, como engraxate de sapatos. Também trabalhou em uma olaria de tijolos, foi entregador de leite e de jornais, supervisor de vendas, vendedor de doces caseiros, florista, trabalhou com artesanatos suspensos (móbiles) e também chegou a ser militar.

Hoje, já aposentado, dedica-se à doma racional de cavalos e éguas, que são sua verdadeira paixão e também uma de suas maiores distrações; além de levar e buscar minha mãe e minha avó Leonídia, sua sogra, para eventuais atividades semanais. 

Morador, há quase quarenta anos na Rua Nico Rosa, no bairro São Roque, em Lorena-SP, papai conquistou o respeito, a admiração e até o temor da comunidade, sendo figurinha carimbada no bairro. 

Papai parou de estudar na extinta 8ª série do Ensino Fundamental, mas nunca deixou de adquirir notórios saberes populares. Sempre foi — e até hoje é — um amante voraz da leitura (somente dos temas que lhe interessam) e dos filmes de ação. Aos 40 anos, voltou a estudar, matriculou-se no EJA e concluiu o Ensino Médio. Desde então, aventurou-se em vários cursos livres, dos quais destaco apenas alguns: Investigador Social, Programa de Reabilitação de Pessoas durante o Processo de Dependência Química, Doma Racional de Cavalos, Programas de Vendas, Comunicação e Marketing, entre tantos outros.

Há mais de vinte anos, papai dedica-se, voluntariamente, às terças-feiras à noite, a Casa de Recuperação de Guaratinguetá, dirigida pelo Sr. Herli. Lá, promove momentos de espiritualidade terapêutica por meio de uma leitura popular, reflexiva e compartilhada da Bíblia.

Papai não é do tipo que demonstra carinho e afeto por meio de abraços ou de carinho. Nos meus trinta e cinco anos de vida, nunca o vi derramar uma lágrima, nem mesmo por ocasião do falecimento da minha avó Laura, sua mãe, em 2017. Penso que a vida o fez ser forte demais, e seus sentimentos acabaram não ficando tão visíveis. Mas creio que isso não quer dizer que ele seja gélido de coração, até porque cada um lida com os seus sentimentos da maneira que melhor lhe convém.

Papai não tem tantos conhecimentos de mundo sobre as artes e sobre a cultura em geral. Mas sempre me ensinou que o que ele poderia deixar de herança para mim e para meu irmão, Luiz Cláudio Junior, seria o estudo, o caráter e o trabalho, pois são eles que enobrecem a vida do ser humano em sua máxima expressão.

Papai dizia: “É preferível uma caneta em mãos do que uma enxada. Por isso, estudem!”

E acredito que seja por isso que hoje eu já acumule nove títulos acadêmicos entre técnico, graduações e pós-graduações — e não tenha parado por aí, pois atualmente curso Mestrado em Musicologia pela UFRJ - Universidade Federal do Rio de Janeiro. 

Em uma época em que pouco se ouvia falar sobre ecumenismo, papai e mamãe nos educavam para que pudéssemos respeitar todas as crenças, todos os tipos de pessoas e todas as correntes interpretativas da religião. Tanto é que papai tem amizade com umbandistas, ateus, católicos, judeus, árabes etc. E creio que isso me fez ser quem sou hoje: um defensor ferrenho do diálogo ecumênico e inter-religioso.

Apesar de sua simplicidade de homem do interior, papai também sempre me incentivou a amar as artes, especialmente a música. Tudo o que sou devo a ele e à mamãe. Seu sonho era que eu me tornasse militar da mais alta patente, mas o contrariei e segui um caminho mais refinado e artístico.

Hoje, papai tem 61 anos e passa mais tempo no sítio, cuidando do Valentim (seu cavalo de estimação), do que em casa. Como todo ser humano, em sua imperfeição, papai tem muitas qualidades e uma história que merece ser respeitada.

Agradeço por todos os seus ensinamentos, sempre pensados para o meu melhor.

Vida longa, papai!

[Publicado nas redes socias do Instagram e Facebook no Dia dos Pais/Father’s Day, 2026]

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

O RESSOAR DO ÚLTIMO ACORDE - Homenagem póstuma ao amigo Carlos Guimarães Neto

 

O RESSOAR DO ÚLTIMO ACORDE

Por: Rafael Victor Ribeiro


† Falecido em 20 de Junho de 2026

[Imagem gerada por inteligência artificial inspirada nas produções artísticas de Romero Brito]

            Há pessoas que passam pela nossa vida fazendo barulho, já outras passam em silêncio, mas deixam uma presença tão profunda e marcante que quando partem, caímos em si do tamanho do espaço que ocupavam em nós.

            Neto era assim. Homem de poucas palavras, reservado, silencioso, exigente consigo e com os outros, zeloso com tudo o que fazia e quase sempre obstinado a buscar perfeição das coisas. Mas, bastava um pouco mais de intimidade para perceber que, por trás daquele semblante sério e intimidador, havia um homem de coração imenso. Neto não fazia parte oficialmente do Coral Regina Caeli – muito embora o regente não se cansasse de convidá-lo – mas, de alguma forma, Neto pertencia a este coral.

            Pertencia porque acreditava no grupo, porque apoiava, porque servia... Era ele quem preparava deliciosos jantares para os aniversariantes, quem abria as portas do seu sítio para receber os paroquianos, quem se alegrava quando a casa estava cheia. Neto gostava de ver gente, de ver alegria, de ver pessoas reunidas celebrando a vida. E, quando demorávamos a aparecer, ele cobrava:

            – “Você está sumido, não aparece mais, não senta pra tomar café, não almoça mais com a gente!” Esse era o jeito dele dizer: “Vocês fazem falta aqui!”

            Hoje entendemos melhor o significado daquela cobrança, era a despedida que não aconteceu.

            Seu sítio no bairro Santa Lucrécia era mais do que um lugar para o Neto, era a extensão da sua alma. Ali estavam sua sensibilidade, seu gosto pela beleza, seu cuidado em cada detalhe, sua paixão pela natureza, pela decoração e pela boa mesa posta e farta. Ali ele cozinhava, organizava, recebia, cuidava. Ali ele servia.

            E, talvez essa seja uma das palavras que melhor definiram sua vida: Serviço e cuidado.

Neto cuidou dos pais até o fim. Cuidou dos amigos de longa data. Cuidou dos espaços. Cuidou dos encontros. Cuidou daquilo que amava. Era também um homem de fé, devoto de Santa Edwiges, quis que sua própria casa no campo tivesse uma capela dedicada a ela. E aquele espaço, que poderia ter sido apenas seu, tornou-se lugar de encontro, de orações, de partilha e espiritualidade que uniu tantas pessoas.

            Seu sítio tornou-se, de certa maneira, uma casa aberta. E talvez seja justamente isso que mais doa agora: saber que aquela porta continua existindo, mas que quem tantas vezes a abriu não está ali para nos receber.

            Neto cumpriu sua Páscoa no dia 20 de junho, e nós, seus amigos do Coral Regina Caeli, carregamos também uma pequena dor: por circunstâncias da vida, muitos de nós não conseguiram estar presentes na sua despedida para lhe prestar a homenagem que gostaríamos.

            Por isso estamos aqui. porque existem despedidas que não acontecem no momento exato em que a morte chega, algumas precisam de tempo. Precisam que a saudade amadureça. Precisam que o silêncio encontre um lugar para repousar para que, finalmente, encontremos palavras capazes de dizer aquilo que a ausência ensinou.

            Rubem Alves, certa vez escreveu que: “a saudade só floresce na ausência”, e talvez seja o que estamos experimentando. A ausência do Neto fez florescer a saudade. Saudade da mesa cheia, saudade das cobranças, saudade daquela presença discreta, silenciosa, saudade daquele último olhar...

            As Sagradas Escrituras nos recordam, que: “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu: tempo de nascer e tempo de morrer [Eclesiastes 3,1-2].

            Nós sabemos disso, sabemos racionalmente. Sabemos que a vida tem um começo e que, um dia, inevitavelmente, encontrará seu fim. Sabemos que somos peregrinos em terra estrangeira, e que o coração não aprende a finitude da vida como do mesmo ponto de vista da razão. Por outro lado, a fé nos ensina que a morte não é a última palavra. E São Paulo nos recorda por meio da sua carta aos I Coríntios 13,8 que o “amor jamais acaba”, o amor venceu a dor, e a própria morte foi vencida.

            Rubem Alves, refletindo sobre a morte, escreveu: “A morte é o último acorde que diz está completo!” Talvez nossa vida seja mesmo como uma grande composição musical: Há notas que muitas vezes não entendemos enquanto tocadas, não compreendemos sua harmonia complexa; há pausas; momentos de tensão e outros de relaxamento, e um dia, daqueles em que não espera o óbvio, o último acorde chega. Mas é porque a música termina que cada nota ganha sua importância dentro da estrutura harmônica chamada vida.

            Neto foi assim, compôs a própria vida no seu ritmo, com suas particularidades, fazendo da arte de reunir pessoas uma maneira de harmonizar a própria alma.  

            No ano passado, durante um dos ensaios preparatórios do recital do Coral, Neto interceptou nosso regente, Rafael, e comentou sobre uma música que havia acabado de ouvir. Era o “Ave Maria”, de Julio Caccini. Neto disse que aquela música o transportava aos céus. Contou que nunca havia escutado uma melodia tão linda antes. Talvez ele não soubesse, que naquele momento estava deixando para nós uma espécie de última mensagem. Porque hoje somos nós que ouvimos essa música e nos lembramos dele.

            Nesta noite, queremos fazer dessa canção, uma oração por um amigo que encontrou beleza na vida através do seu amor pela natureza, pela mesa cheia, pela amizade fraterna, pela fé e, sobretudo, pela presença das pessoas.

            Gostamos de pensar que a música que tanto o emocionou seja justamente uma oração dirigida a Maria, que a tradição cristã invoca como Mãe da misericórdia. Aquela que esteve junto à cruz, que conheceu de perto a dor da perda, aquela que aprendeu que amar é, muitas vezes, permanecer diante de um mistério sem ter todas as respostas.

            Neto não foi perfeito, ele foi humano. Com suas virtudes e seus limites, com suas exigências e convicções e sua maneira de demonstrar afeto. Mas foi também alguém que, dentro de sua humanidade, procurou oferecer o melhor aqueles que amava, e isso basta. Neto fez isso muitas vezes: servindo, recebendo, cozinhando, cuidando.

            Hoje, nos queremos dizer obrigado. Obrigado, Neto, por cada porta aberta. Por cada refeição preparada, por cada encontro, por cada gesto de carinho e cuidado. Por cada cobrança que hoje virou saudade. Obrigado por ter acreditado no nosso coral, mesmo sem jamais ter vestido oficialmente nossas cores.

            Que Santa Edwiges, a quem você dedicou um lugar tão especial nesta terra, interceda por você diante daquele que venceu a morte e que é a própria Vida: Jesus.

Ave Maria, cheia de graça...

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

SOBRE A GRAÇA DE ENCONTRAR UMA IRMÃ PELO CAMINHO

Lorena, 03 de agosto de 2026. 
À Ritinha, querida.

Bem, dizem que as boas amizades começam quando um não gosta do outro de cara. E falo isso nem por mim, porque, logo que você chegou à Igreja Metodista, eu não tinha absolutamente nada contra você. Na verdade, você me conhecia de vista, mas, até então, você era praticamente invisível para muáh. (kkkk)
Mas me recordo do dia em que cheguei ao rol de entrada da Igreja para participar de uma celebração dominical, e você falou comigo pela primeira vez dizendo que eu estava sumido dos cultos. Acredito que foi ali que nasceu a nossa amizade. Desde então, passamos a dividir o mesmo neurônio em muitas etapas da vida.
Só pra constar: como um bom ex-metodista que sou, estou escrevendo este texto quatorze dias antes do seu aniversário. Ultimamente, minha terapeuta tem me feito pensar sobre a importância que algumas pessoas têm na minha vida, e você é aquela espécie de irmã mais velha meio "descabeçada, atrapalhada" que a vida resolveu me dar. E, apesar de todos esses anos de amizade, não temos praticamente nenhum registro fotográfico juntos. Talvez porque eu acredite que os melhores momentos são aqueles que a gente eterniza na memória e no coração, sem se preocupar com flashes... apesar de você não ser nada low profile, eu diria que uma das melhores blogueiras que sigo.  Provavelmente coisa do seu jeitinho leonino exibido de ser (jeitinho que eu amo!). kkkkk
Ritinha, era pra ser uma mensagem simples de aniversário, mas senti que, neste ano, eu precisava fazer diferente. Por isso estou aqui, caçando palavras para falar de você, como nos tempos dos depoimentos do finado Orkut.
Pensar na sua importância pra mim é, acima de tudo, pensar que a nossa conexão vai muito além desta vida... ou de outras, caso elas existam. Você é aquela amiga-irmã que Deus, na infinita sabedoria d'Ele, fez questão de colocar alguns anos à minha frente. Porque não ia prestar se a gente tivesse a mesma idade ou se tivesse se conhecido na adolescência.
Escrevo este texto com um profundo sentimento de pertencimento, como se eu tivesse licença para falar de você e até para defendê-la de certos falatórios, assim como seu lado leonino já me defendeu tantas vezes da maldade de gente "boa."
Quando penso em você, penso em serviço. Penso em alguém cujo coração é tão grande que encontra espaço até para ajudar quem não merece, mesmo que a vontade de mandar certas pessoas para o Hades nas mãos de Caronte e sem direito a moedinha, seja gigantesca. (KKKkk)
Muitas vezes, ao longo dessa efêmera existência, vamos perdendo um pouco do brilho de ser e nos esquecendo da grandeza que carregamos. E essa verdadeira "Convenção de Genebra" que estou escrevendo aqui serve justamente para lembrar da mulher gigante que você é. E não estou falando do seu peso — porque sei que, assim como eu, você também não é exatamente levinha. Kkkkk
Falo da grandeza da sua história. Do quanto você me edifica. Do quanto você ilumina a minha vida e a de tantas outras pessoas. Do quanto Deus contempla o seu esforço em tudo o que faz: na sua arte, na dedicação à sua casa, no cuidado com os seus filhos, com o seu sobrinho, com o marido, com os amigos e com qualquer pessoa que precise de um pouco do amor que transborda do seu coração.
Ritinha, o aniversário é seu, mas quem ganha o presente sou eu: a sua vida!
Tenho a graça de ter você por perto todos os dias, mesmo que a gente não se encontre com tanta frequência. Afinal, todos os dias a gente se fala, nem que seja para trocar memes, fazer nossas críticas existenciais ou falar mal daquele povo quadrado, sem graça e sem sal.
Em 2017, quando perdi minha avó paterna, Laura, você esteve ao meu lado. E nunca me esqueci do que você me disse durante a exéquias dela:
"É, meu amigo... Agora você ganhou uma ancestral. É hora de honrar a memória dela."
Acho que foi ali que começou, sem que eu percebesse, esse caminho de valorização da minha identidade, da minha história e da memória dos que vieram antes de mim.
Vivemos muitas coisas juntos. Você me ajudava nos almoços que eu coordenava na Igreja, me ajudava nas festas da EBF das crianças, nas celebrações ecumênicas, nos aniversários da Igreja, nas homenagens aos membros e clérigos... Enfim, você sempre esteve presente. Sempre.
E, no meio de tudo isso, percebi que nem consigo me lembrar exatamente de como "saí do armário" para você. Acho que foi tudo tão natural que sequer precisou de um grande ritual e de uma convenção. E olha que nós dois adoramos uma boa ritualística, não é? Convenhamos... um DNA de bruxinha a gente tem. E, por falar em "bruxinha", adorei o seu jardim suspenso com cara de altar da deusa Hécate. Se foi intencional, eu não sei; só sei que amei. E, já que estamos falando de bruxinhas, fama disso eu tenho de sobra... e tenho certeza de que você já me livrou de várias fogueiras do povo evangê. Kkkkk
Rita, neste novo ciclo que se inicia, quero desejar que você nunca perca aquilo que faz de você quem é. Que a vida continue sendo generosa com os seus sonhos, que Deus fortaleça os seus passos e que, todas as manhãs, quando a luz do sol atravessar a sua janela, ela também atravesse o seu coração, lembrando que sempre existe um novo motivo para recomeçar.
Que você nunca deixe de acreditar na beleza da vida, mesmo quando ela parecer pesada demais. Que jamais lhe falte esperança, pessoas sinceras ao seu redor, boas risadas, mesas fartas, café passado na hora, abraços demorados e motivos para continuar servindo ao mundo com esse coração imenso que você tem.
E, quando o cansaço tentar convencer você de que fez pouco, lembre-se de que há pessoas — como eu — que são fruto do amor que você espalhou sem nem perceber.
Obrigado por existir. Obrigado por permanecer. Obrigado por ser abrigo, conselho, gargalhada, acolhimento e presença.
Se um dia me perguntarem o que é uma amizade verdadeira, talvez eu não saiba explicar. Mas certamente vou saber apontar para você.
Feliz aniversário, Ritinha.
Que Deus continue escrevendo a sua história com a mesma delicadeza com que moldou seu coração. E que, quando os anos passarem e as nossas memórias forem maiores do que os nossos dias, a gente possa olhar para trás com a alegria de quem viveu uma amizade bonita, rara e daquelas que o tempo jamais consegue diminuir.
Amo você. Feliz vida. 

sábado, 1 de agosto de 2026

DA HUMANIDADE IMPERFEITA DO SER A MEMÓRIA DIGNA DE SER PRESERVADA - BIOGRAFIA DE PEDRO SENNE LEITE

"O homem vê as aparências, mas o Senhor vê o coração."

1 Samuel 16:7


[Meus avós maternos Pedro Senne Leite e Leonídia Ribeiro Leite, fotografia tirada em agosto de 2008]

Pedro Senne Leite nasceu em Guaratinguetá, São Paulo, em 8 de março de 1938, e faleceu em 15 de setembro de 2008, aos 70 anos. Homem de personalidade forte e temperamento marcante, jamais passou despercebido por onde esteve. Era conhecido pelo jeito direto de falar, pela língua afiada e pelo humor irreverente. Daqueles que, como costumava dizer quem o conhecia, "perde a amizade, mas não perde a piada".

Sua história de amor com Leonídia começou de maneira curiosa e inesquecível. Durante a tradicional Festa de São Benedito, em Piquete, avistou Leonídia caminhando ao lado da mãe e da irmã em direção à Igreja Metodista. Encantado, seguiu discretamente o caminho até o templo e aguardou pacientemente o término do culto para se apresentar e acompanhá-la até sua casa. Daquele encontro nasceu uma união que atravessou décadas e da qual vieram cinco filhos: Sandra, Flodoaldo, Pedro, Silvana e Alessandro.

Mais tarde, a família cresceria com a chegada de onze netos — Rafael, Bruna, Camila, Luiz Cláudio, Jéssica, Lucas, Bianca, Thiago, David (in memoriam), Vinícius e Matheus —, que, à sua maneira, ocupavam um lugar especial em seu coração. Pedro nem sempre demonstrava carinho com palavras ou gestos, mas fazia questão da presença de todos. Para ele, qualquer data comemorativa era motivo suficiente para reunir a família ao redor da mesa que estava sempre farta. Estar cercado pelos filhos e netos era uma das formas mais sinceras de felicidade que conhecia.

Profissionalmente, construiu uma sólida trajetória no Banco Mercantil, onde trabalhou durante muitos anos como bancário. Era um homem disciplinado, sistemático, organizado e extremamente meticuloso  com suas responsabilidades e funções, além de deter uma inteligência lógico-matemática para além da média.

Fora do trabalho, cultivava duas grandes paixões: o Corinthians e os automóveis que conquistou durante sua caminhada terrena. Corintiano até o último dia de vida, acompanhava seu time com grande entusiasmo. Já pelo seu inseparável Fiat Uno, nutria um amor incontrolável, motivo inclusive de inúmeras brincadeiras dentro da família. 

Outro grande amor era a cidade de Ubatuba. As férias da família tinham destino praticamente certo: o litoral norte paulista. Ali foram construídas muitas das lembranças mais felizes dos filhos e netos. Contudo, no ano de 2008, pela primeira vez, quando um dos filhos perguntou se levaria novamente todos os netos para Ubatuba, Pedro respondeu apenas: "Eu vou descansar." Na época, ninguém compreendeu o peso daquela frase. Mais tarde, ela seria lembrada como uma despedida silenciosa.

Pedro Senne Leite não foi um homem fácil, muito pelo contrário, era extremamente exigente com tudo e com todos. Sua história está longe de ser a mais perfeita. Vovô era controlador, desconfiado, meticuloso, machista e, por vezes, excessivamente centrado em suas próprias convicções. Trazia consigo marcas profundas da geração em que foi formado. Conviver com ele exigia paciência, firmeza, embates e muita compreensão. Ainda assim, possuía um senso de responsabilidade admirável, era generoso quando alguém precisava de ajuda e colocava a família no centro de sua existência, ainda que não expressa em palavras. Seu amor nem sempre era delicado, mas quase sempre se expressava por meio do cuidado, da provisão e da presença.

Embora tenha convivido durante toda a vida com a fé metodista de sua esposa e de boa parte dos filhos e netos, permaneceu fiel às suas raízes católicas. Era devoto de Nossa Senhora Aparecida, ainda que não fosse um praticante assíduo. Frequentava a Igreja principalmente nas grandes celebrações do calendário cristão, como o Natal, a Páscoa, o Dia de Nossa Senhora Aparecida e às missas em intenção de familiares e amigos falecidos. E, tinha um detalhe curioso nessa história toda: no começo não gostava de protestantes, mas foi obrigado a aceitar ao longo da vida. Em seus últimos anos de vida, porém, algo pareceu mudar em seu interior. Tornou-se mais silencioso, contemplativo e aberto às questões espirituais. Demonstrava uma serenidade pouco comum em comparação aos anos anteriores. Em 2008, pediu perdão a alguns irmãos, reconciliou-se com amigos e organizou cuidadosamente toda a documentação da família, entregando-a aos cuidados de Leonídia, sua esposa "caso alguma coisa acontecesse com ele". Tais gestos revelaram uma consciência da finitude que impressionou todos os que conviveram com ele.

Pouco tempo depois, numa tarde de sábado, subiu à laje de casa para cortar os galhos de um pé de abacate. Durante o trabalho sofreu um mal súbito, caiu e teve um grave traumatismo craniano. Permaneceu internado em Unidade de Terapia Intensiva por quinze dias, até que, em 15 de setembro de 2008, teve sua morte confirmada após o diagnóstico de morte encefálica.

Pedro Senne Leite deixou muito mais do que lembranças. Deixou uma família numerosa, que entre filhos, netos, bisnetos e agregados já somam pouco mais de 45 pessoas, um legado de trabalho, responsabilidade e perseverança. Sua personalidade firme produziu amores, conflitos, aprendizados e memórias que permanecem vivas naqueles que o conheceram. Sua vida recorda que ninguém é feito apenas de virtudes ou apenas de defeitos. Somos, todos, uma combinação de luzes e sombras. E talvez seja justamente essa humanidade imperfeita que torna sua memória tão verdadeira, tão próxima e tão digna de ser preservada.

                                       

[Ubatuba-SP, férias de janeiro de 1996]



[Jazigo Perpétuo da Família Monteiro Senne Leite, localizado no Cemitério Municipal de Lorena-SP, onde repousam os restos mortais de meu avô, Pedro Senne Leite, ao lado de seus pais, irmãos e alguns sobrinhos].