domingo, 9 de agosto de 2026

É OITO OU OITENTA: MEMÓRIAS DO PAPAI (SR. LUIZ CLÁDIO DA SILVA ROSA)


Esse é o papai, Sr. Luiz Cláudio da Silva Rosa — conhecido por muitos como o Sr. Rosa —, um homem de origem simples e humilde, de personalidade forte e marcante. Com o papai, como se diz no popular: “É oito ou oitenta!” ou "ama ou odeia!" 

Papai tem descendência indígena e africana. Teve como referência paterna, até os quinze anos, seu pai, Antonio Rosa — meu avô, que só conheci de nome e sobrenome —, que não era seu pai biológico, mas foi quem o registrou e o educou, de modo que ele se tornasse um homem honrado e honesto. Papai teve uma infância conturbada no interior paulista, entre às cidades de Lorena e Piquete, criado em meio aos cavalos, às vacas, ao pasto e ao tradicional angu com leite e açúcar que minha avó fazia para alimentar os filhos. 

Desde muito cedo, aprendeu valores dos quais eu me orgulho hoje: ética, moral, humildade, autenticidade, trabalho e serviço. Papai não foge de nada, não tem medo de nada, e sua vida é a prova viva de que algumas pessoas nasceram justamente para desafiar e contradizer o sistema.

Na minha adolescência, tivemos alguns conflitos. Afinal, assim como ele, eu nunca gostei que me ditassem regras (mal de artista). Felizmente, o tempo passou e, de lá para cá, com a maturidade, aprendemos a respeitar as nossas diferenças — que são muitas!

Papai foi criado na fé católica, muito embora sua mãe, que é minha avó, Laura, não fosse religiosa e carregasse consigo saberes antigos de seus ancestrais, o povo da Kaingang. Quando conheceu a mamãe, papai se converteu ao protestantismo. Hoje tem um lado espiritual independente de religiões, mas o temor ao Deus Criador nunca perdeu. Formou-se bacharel em Teologia, mas nunca foi pastor e nunca gostou desse título, sempre teve aversão a esse rótulo, muito embora algumas pessoas se referissem a ele dessa forma, e buscassem aconselhamento pastoral sempre. 

Na adolescência, papai trocou os estudos pelo trabalho, pois nunca gostou de seguir regras impostas. Eu, através dos meus achismos presunçosos, o “diagnostiquei” com “TOD” — Transtorno Opositor Desafiador. E o pior é que ele gostou do nome e sempre cai na risada quando digo que ele tem TOD.

Seu primeiro trabalho foi ainda na infância, aos sete anos, como engraxate de sapatos. Também trabalhou em uma olaria de tijolos, foi entregador de leite e de jornais, supervisor de vendas, vendedor de doces caseiros, florista, trabalhou com artesanatos suspensos (móbiles) e também chegou a ser militar.

Hoje, já aposentado, dedica-se à doma racional de cavalos e éguas, que são sua verdadeira paixão e também uma de suas maiores distrações; além de levar e buscar minha mãe e minha avó Leonídia, sua sogra, para eventuais atividades semanais. 

Morador, há quase quarenta anos na Rua Nico Rosa, no bairro São Roque, em Lorena-SP, papai conquistou o respeito, a admiração e até o temor da comunidade, sendo figurinha carimbada no bairro. 

Papai parou de estudar na extinta 8ª série do Ensino Fundamental, mas nunca deixou de adquirir notórios saberes populares. Sempre foi — e até hoje é — um amante voraz da leitura (somente dos temas que lhe interessam) e dos filmes de ação. Aos 40 anos, voltou a estudar, matriculou-se no EJA e concluiu o Ensino Médio. Desde então, aventurou-se em vários cursos livres, dos quais destaco apenas alguns: Investigador Social, Programa de Reabilitação de Pessoas durante o Processo de Dependência Química, Doma Racional de Cavalos, Programas de Vendas, Comunicação e Marketing, entre tantos outros.

Há mais de vinte anos, papai dedica-se, voluntariamente, às terças-feiras à noite, a Casa de Recuperação de Guaratinguetá, dirigida pelo Sr. Herli. Lá, promove momentos de espiritualidade terapêutica por meio de uma leitura popular, reflexiva e compartilhada da Bíblia.

Papai não é do tipo que demonstra carinho e afeto por meio de abraços ou de carinho. Nos meus trinta e cinco anos de vida, nunca o vi derramar uma lágrima, nem mesmo por ocasião do falecimento da minha avó Laura, sua mãe, em 2017. Penso que a vida o fez ser forte demais, e seus sentimentos acabaram não ficando tão visíveis. Mas creio que isso não quer dizer que ele seja gélido de coração, até porque cada um lida com os seus sentimentos da maneira que melhor lhe convém.

Papai não tem tantos conhecimentos de mundo sobre as artes e sobre a cultura em geral. Mas sempre me ensinou que o que ele poderia deixar de herança para mim e para meu irmão, Luiz Cláudio Junior, seria o estudo, o caráter e o trabalho, pois são eles que enobrecem a vida do ser humano em sua máxima expressão.

Papai dizia: “É preferível uma caneta em mãos do que uma enxada. Por isso, estudem!”

E acredito que seja por isso que hoje eu já acumule nove títulos acadêmicos entre técnico, graduações e pós-graduações — e não tenha parado por aí, pois atualmente curso Mestrado em Musicologia pela UFRJ - Universidade Federal do Rio de Janeiro. 

Em uma época em que pouco se ouvia falar sobre ecumenismo, papai e mamãe nos educavam para que pudéssemos respeitar todas as crenças, todos os tipos de pessoas e todas as correntes interpretativas da religião. Tanto é que papai tem amizade com umbandistas, ateus, católicos, judeus, árabes etc. E creio que isso me fez ser quem sou hoje: um defensor ferrenho do diálogo ecumênico e inter-religioso.

Apesar de sua simplicidade de homem do interior, papai também sempre me incentivou a amar as artes, especialmente a música. Tudo o que sou devo a ele e à mamãe. Seu sonho era que eu me tornasse militar da mais alta patente, mas o contrariei e segui um caminho mais refinado e artístico.

Hoje, papai tem 61 anos e passa mais tempo no sítio, cuidando do Valentim (seu cavalo de estimação), do que em casa. Como todo ser humano, em sua imperfeição, papai tem muitas qualidades e uma história que merece ser respeitada.

Agradeço por todos os seus ensinamentos, sempre pensados para o meu melhor.

Vida longa, papai!

[Publicado nas redes socias do Instagram e Facebook no Dia dos Pais/Father’s Day, 2026]

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