O RESSOAR DO ÚLTIMO ACORDE
Por: Rafael Victor Ribeiro
Há pessoas que passam pela nossa
vida fazendo barulho, já outras passam em silêncio, mas deixam uma presença tão
profunda e marcante que quando partem, caímos em si do tamanho do espaço que
ocupavam em nós.
Neto era assim. Homem de poucas
palavras, reservado, silencioso, exigente consigo e com os outros, zeloso com
tudo o que fazia e quase sempre obstinado a buscar perfeição das coisas. Mas,
bastava um pouco mais de intimidade para perceber que, por trás daquele
semblante sério e intimidador, havia um homem de coração imenso. Neto não fazia
parte oficialmente do Coral Regina Caeli – muito embora o regente não se
cansasse de convidá-lo – mas, de alguma forma, Neto pertencia a este coral.
Pertencia porque acreditava no
grupo, porque apoiava, porque servia... Era ele quem preparava deliciosos
jantares para os aniversariantes, quem abria as portas do seu sítio para
receber os paroquianos, quem se alegrava quando a casa estava cheia. Neto
gostava de ver gente, de ver alegria, de ver pessoas reunidas celebrando a
vida. E, quando demorávamos a aparecer, ele cobrava:
– “Você está sumido, não aparece
mais, não senta pra tomar café, não almoça mais com a gente!” Esse era o jeito
dele dizer: “Vocês fazem falta aqui!”
Hoje entendemos melhor o significado
daquela cobrança, era a despedida que não aconteceu.
Seu sítio no bairro Santa Lucrécia
era mais do que um lugar para o Neto, era a extensão da sua alma. Ali estavam
sua sensibilidade, seu gosto pela beleza, seu cuidado em cada detalhe, sua
paixão pela natureza, pela decoração e pela boa mesa posta e farta. Ali ele
cozinhava, organizava, recebia, cuidava. Ali ele servia.
E, talvez essa seja uma das palavras
que melhor definiram sua vida: Serviço e cuidado.
Neto
cuidou dos pais até o fim. Cuidou dos amigos de longa data. Cuidou dos espaços.
Cuidou dos encontros. Cuidou daquilo que amava. Era também um homem de fé,
devoto de Santa Edwiges, quis que sua própria casa no campo tivesse uma capela
dedicada a ela. E aquele espaço, que poderia ter sido apenas seu, tornou-se
lugar de encontro, de orações, de partilha e espiritualidade que uniu tantas
pessoas.
Seu sítio tornou-se, de certa
maneira, uma casa aberta. E talvez seja justamente isso que mais doa agora:
saber que aquela porta continua existindo, mas que quem tantas vezes a abriu
não está ali para nos receber.
Neto cumpriu sua Páscoa no dia 20 de
junho, e nós, seus amigos do Coral Regina Caeli, carregamos também uma pequena
dor: por circunstâncias da vida, muitos de nós não conseguiram estar presentes
na sua despedida para lhe prestar a homenagem que gostaríamos.
Por isso estamos aqui. porque
existem despedidas que não acontecem no momento exato em que a morte chega,
algumas precisam de tempo. Precisam que a saudade amadureça. Precisam que o
silêncio encontre um lugar para repousar para que, finalmente, encontremos
palavras capazes de dizer aquilo que a ausência ensinou.
Rubem Alves, certa vez escreveu que:
“a saudade só floresce na ausência”, e talvez seja o que estamos
experimentando. A ausência do Neto fez florescer a saudade. Saudade da mesa
cheia, saudade das cobranças, saudade daquela presença discreta, silenciosa,
saudade daquele último olhar...
As Sagradas Escrituras nos recordam,
que: “Tudo tem
o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu: tempo
de nascer e tempo de morrer [Eclesiastes 3,1-2].
Nós sabemos disso, sabemos
racionalmente. Sabemos que a vida tem um começo e que, um dia, inevitavelmente,
encontrará seu fim. Sabemos que somos peregrinos em terra estrangeira, e que o
coração não aprende a finitude da vida como do mesmo ponto de vista da razão. Por
outro lado, a fé nos ensina que a morte não é a última palavra. E São Paulo nos
recorda por meio da sua carta aos I Coríntios 13,8 que o “amor jamais acaba”, o
amor venceu a dor, e a própria morte foi vencida.
Rubem Alves, refletindo sobre a
morte, escreveu: “A morte é o último acorde que diz está completo!” Talvez
nossa vida seja mesmo como uma grande composição musical: Há notas que muitas
vezes não entendemos enquanto tocadas, não compreendemos sua harmonia complexa;
há pausas; momentos de tensão e outros de relaxamento, e um dia, daqueles em
que não espera o óbvio, o último acorde chega. Mas é porque a música termina
que cada nota ganha sua importância dentro da estrutura harmônica chamada vida.
Neto foi assim, compôs a própria
vida no seu ritmo, com suas particularidades, fazendo da arte de reunir pessoas
uma maneira de harmonizar a própria alma.
No ano passado, durante um dos
ensaios preparatórios do recital do Coral, Neto interceptou nosso regente,
Rafael, e comentou sobre uma música que havia acabado de ouvir. Era o “Ave
Maria”, de Julio Caccini. Neto disse que aquela música o transportava aos céus.
Contou que nunca havia escutado uma melodia tão linda antes. Talvez ele não
soubesse, que naquele momento estava deixando para nós uma espécie de última
mensagem. Porque hoje somos nós que ouvimos essa música e nos lembramos dele.
Nesta noite, queremos fazer dessa
canção, uma oração por um amigo que encontrou beleza na vida através do seu
amor pela natureza, pela mesa cheia, pela amizade fraterna, pela fé e,
sobretudo, pela presença das pessoas.
Gostamos de pensar que a música que
tanto o emocionou seja justamente uma oração dirigida a Maria, que a tradição
cristã invoca como Mãe da misericórdia. Aquela que esteve junto à cruz, que
conheceu de perto a dor da perda, aquela que aprendeu que amar é, muitas vezes,
permanecer diante de um mistério sem ter todas as respostas.
Neto não foi perfeito, ele foi
humano. Com suas virtudes e seus limites, com suas exigências e convicções e
sua maneira de demonstrar afeto. Mas foi também alguém que, dentro de sua
humanidade, procurou oferecer o melhor aqueles que amava, e isso basta. Neto
fez isso muitas vezes: servindo, recebendo, cozinhando, cuidando.
Hoje, nos queremos dizer obrigado.
Obrigado, Neto, por cada porta aberta. Por cada refeição preparada, por cada
encontro, por cada gesto de carinho e cuidado. Por cada cobrança que hoje virou
saudade. Obrigado por ter acreditado no nosso coral, mesmo sem jamais ter
vestido oficialmente nossas cores.
Que Santa Edwiges, a quem você
dedicou um lugar tão especial nesta terra, interceda por você diante daquele
que venceu a morte e que é a própria Vida: Jesus.
Ave
Maria, cheia de graça...
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