sexta-feira, 7 de agosto de 2026

O RESSOAR DO ÚLTIMO ACORDE - Homenagem póstuma ao amigo Carlos Guimarães Neto

 

O RESSOAR DO ÚLTIMO ACORDE

Por: Rafael Victor Ribeiro


 Falecido em 20 de Junho de 2026

[Imagem gerada por inteligência artificial inspirada nas produções artísticas de Romero Brito]

            Há pessoas que passam pela nossa vida fazendo barulho, já outras passam em silêncio, mas deixam uma presença tão profunda e marcante que quando partem, caímos em si do tamanho do espaço que ocupavam em nós.

            Neto era assim. Homem de poucas palavras, reservado, silencioso, exigente consigo e com os outros, zeloso com tudo o que fazia e quase sempre obstinado a buscar perfeição das coisas. Mas, bastava um pouco mais de intimidade para perceber que, por trás daquele semblante sério e intimidador, havia um homem de coração imenso. Neto não fazia parte oficialmente do Coral Regina Caeli – muito embora o regente não se cansasse de convidá-lo – mas, de alguma forma, Neto pertencia a este coral.

            Pertencia porque acreditava no grupo, porque apoiava, porque servia... Era ele quem preparava deliciosos jantares para os aniversariantes, quem abria as portas do seu sítio para receber os paroquianos, quem se alegrava quando a casa estava cheia. Neto gostava de ver gente, de ver alegria, de ver pessoas reunidas celebrando a vida. E, quando demorávamos a aparecer, ele cobrava:

            – “Você está sumido, não aparece mais, não senta pra tomar café, não almoça mais com a gente!” Esse era o jeito dele dizer: “Vocês fazem falta aqui!”

            Hoje entendemos melhor o significado daquela cobrança, era a despedida que não aconteceu.

            Seu sítio no bairro Santa Lucrécia era mais do que um lugar para o Neto, era a extensão da sua alma. Ali estavam sua sensibilidade, seu gosto pela beleza, seu cuidado em cada detalhe, sua paixão pela natureza, pela decoração e pela boa mesa posta e farta. Ali ele cozinhava, organizava, recebia, cuidava. Ali ele servia.

            E, talvez essa seja uma das palavras que melhor definiram sua vida: Serviço e cuidado.

Neto cuidou dos pais até o fim. Cuidou dos amigos de longa data. Cuidou dos espaços. Cuidou dos encontros. Cuidou daquilo que amava. Era também um homem de fé, devoto de Santa Edwiges, quis que sua própria casa no campo tivesse uma capela dedicada a ela. E aquele espaço, que poderia ter sido apenas seu, tornou-se lugar de encontro, de orações, de partilha e espiritualidade que uniu tantas pessoas.

            Seu sítio tornou-se, de certa maneira, uma casa aberta. E talvez seja justamente isso que mais doa agora: saber que aquela porta continua existindo, mas que quem tantas vezes a abriu não está ali para nos receber.

            Neto cumpriu sua Páscoa no dia 20 de junho, e nós, seus amigos do Coral Regina Caeli, carregamos também uma pequena dor: por circunstâncias da vida, muitos de nós não conseguiram estar presentes na sua despedida para lhe prestar a homenagem que gostaríamos.

            Por isso estamos aqui. porque existem despedidas que não acontecem no momento exato em que a morte chega, algumas precisam de tempo. Precisam que a saudade amadureça. Precisam que o silêncio encontre um lugar para repousar para que, finalmente, encontremos palavras capazes de dizer aquilo que a ausência ensinou.

            Rubem Alves, certa vez escreveu que: “a saudade só floresce na ausência”, e talvez seja o que estamos experimentando. A ausência do Neto fez florescer a saudade. Saudade da mesa cheia, saudade das cobranças, saudade daquela presença discreta, silenciosa, saudade daquele último olhar...

            As Sagradas Escrituras nos recordam, que: “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu: tempo de nascer e tempo de morrer [Eclesiastes 3,1-2].

            Nós sabemos disso, sabemos racionalmente. Sabemos que a vida tem um começo e que, um dia, inevitavelmente, encontrará seu fim. Sabemos que somos peregrinos em terra estrangeira, e que o coração não aprende a finitude da vida como do mesmo ponto de vista da razão. Por outro lado, a fé nos ensina que a morte não é a última palavra. E São Paulo nos recorda por meio da sua carta aos I Coríntios 13,8 que o “amor jamais acaba”, o amor venceu a dor, e a própria morte foi vencida.

            Rubem Alves, refletindo sobre a morte, escreveu: “A morte é o último acorde que diz está completo!” Talvez nossa vida seja mesmo como uma grande composição musical: Há notas que muitas vezes não entendemos enquanto tocadas, não compreendemos sua harmonia complexa; há pausas; momentos de tensão e outros de relaxamento, e um dia, daqueles em que não espera o óbvio, o último acorde chega. Mas é porque a música termina que cada nota ganha sua importância dentro da estrutura harmônica chamada vida.

            Neto foi assim, compôs a própria vida no seu ritmo, com suas particularidades, fazendo da arte de reunir pessoas uma maneira de harmonizar a própria alma.  

            No ano passado, durante um dos ensaios preparatórios do recital do Coral, Neto interceptou nosso regente, Rafael, e comentou sobre uma música que havia acabado de ouvir. Era o “Ave Maria”, de Julio Caccini. Neto disse que aquela música o transportava aos céus. Contou que nunca havia escutado uma melodia tão linda antes. Talvez ele não soubesse, que naquele momento estava deixando para nós uma espécie de última mensagem. Porque hoje somos nós que ouvimos essa música e nos lembramos dele.

            Nesta noite, queremos fazer dessa canção, uma oração por um amigo que encontrou beleza na vida através do seu amor pela natureza, pela mesa cheia, pela amizade fraterna, pela fé e, sobretudo, pela presença das pessoas.

            Gostamos de pensar que a música que tanto o emocionou seja justamente uma oração dirigida a Maria, que a tradição cristã invoca como Mãe da misericórdia. Aquela que esteve junto à cruz, que conheceu de perto a dor da perda, aquela que aprendeu que amar é, muitas vezes, permanecer diante de um mistério sem ter todas as respostas.

            Neto não foi perfeito, ele foi humano. Com suas virtudes e seus limites, com suas exigências e convicções e sua maneira de demonstrar afeto. Mas foi também alguém que, dentro de sua humanidade, procurou oferecer o melhor aqueles que amava, e isso basta. Neto fez isso muitas vezes: servindo, recebendo, cozinhando, cuidando.

            Hoje, nos queremos dizer obrigado. Obrigado, Neto, por cada porta aberta. Por cada refeição preparada, por cada encontro, por cada gesto de carinho e cuidado. Por cada cobrança que hoje virou saudade. Obrigado por ter acreditado no nosso coral, mesmo sem jamais ter vestido oficialmente nossas cores.

            Que Santa Edwiges, a quem você dedicou um lugar tão especial nesta terra, interceda por você diante daquele que venceu a morte e que é a própria Vida: Jesus.

Ave Maria, cheia de graça...

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