sábado, 17 de outubro de 2026

HOJE SERIA ANIVERSÁRIO DELA


Hoje seria aniversário dela, minha amada vovó Laura (avó paterna), que era libriana nata, filha e neta de indígenas Kaingangs, que perdeu os pais muito jovem, sendo criada e educada pelos irmãos mais velhos. Ela que, desde cedo, conheceu as ausências, as durezas da vida e a necessidade de aprender a caminhar com as próprias forças, sem jamais perder a essência de suas raízes.

Ela que era dona de uma personalidade forte e marcante, assim como eu sou: ou você amava, ou odiava. Ela que não nasceu para caber nas expectativas dos outros, que não se curvava facilmente e que carregava na própria existência a força de tantas mulheres que vieram antes dela.

Hoje seria aniversário dela, que tinha um jeito bastante peculiar de viver sua fé, de quem herdei a militância, se assim posso dizer, da promoção do diálogo ecumênico e inter-religioso, pauta que defendo com convicção há anos. Ela que me ensinou, mesmo sem perceber, que o Sagrado não se aprisiona em templos, doutrinas ou instituições, e que a fé também se manifesta na liberdade de pensar, questionar e respeitar os diferentes caminhos que conduzem cada pessoa ao Divino.

Ela que desafiou a sociedade, o sistema político que viola corpos femininos, ela que fez da sua vida um ato político. Ela que, à sua maneira, resistiu às imposições de um mundo que tantas vezes tentou silenciar e oprimir as mulheres, sobretudo aquelas que ousaram pensar, falar e viver por si mesmas.

Ela que era engraçada, bocuda e briguenta... Cada um tinha a faceta que merecia. Ela que sabia ser tempestade e calmaria, que não economizava palavras, tampouco escondia seus descontentamentos. Uma mulher de afetos profundos, ainda que nem sempre demonstrados de forma convencional. 

Ela que, na velhice e durante os anos de enfermidade, ainda falava de sonhos, de desejos, anseios e que viveu a vida aproveitando os excessos. Ela que, mesmo quando o corpo já não acompanhava a inquietude da alma, continuava desejando a vida, como quem sabia que envelhecer não significava deixar de sonhar.

Ela que amava nos atos de serviço, que odiava abraços (assim como eu) e que foi a minha maior incentivadora. Ela que não precisava dizer constantemente que amava, porque seu amor estava nos gestos, nos cuidados, nas pequenas atitudes e naquela maneira tão particular de se fazer presente.

Hoje seria o dia dela, que detestava aniversários, presentes e datas comemorativas, que dizia que Natal era todo dia, que odiava o espírito natalino das pessoas que o ano inteiro foram ausentes. Ela que compreendia que o amor não deveria obedecer ao calendário, que a solidariedade não deveria ser uma encenação de dezembro e que a presença verdadeira vale muito mais do que qualquer presente.

Ela que não era hipócrita, não usava máscaras e vivia à sua maneira com dignidade e honestidade. Ela que não fazia da própria vida um espetáculo para agradar aos outros, que preferia a sinceridade, mesmo quando inconveniente, à falsidade disfarçada de boas intenções.

Hoje seria aniversário dela, que tanto me "temperou" com suas ervas enquanto criança, que me esperava todas as sextas-feiras na janela de sua casa, na Rua João Batista de Azevedo, onde residiu por mais de 40 anos. E talvez seja essa uma das imagens mais bonitas que guardo da minha infância aos meus 27 anos: a certeza de que, ao chegar, encontraria alguém à minha espera. Porque existem janelas que se fecham com o tempo, mas permanecem abertas para sempre na nossa memória.

Hoje seria aniversário dela, que adorava fotografia, que amava Curitiba e Aparecida. Que guardava cartas, bilhetes, e objetos antigos. Ela que, entre retratos, lembranças, viagens e histórias, foi construindo um universo próprio, feito de afetos, saudades e experiências que hoje também fazem parte da minha história.

Hoje seria aniversário dela, que me ensinou a valorizar a memória e a ancestralidade, e a ter respeito pela natureza, pelo Sagrado e pelas coisas ou seres invisíveis dos quais não se tem conhecimento. Ela que me ensinou que nem tudo aquilo que existe pode ser visto, que nem todo mistério precisa ser explicado e que há uma sabedoria ancestral que atravessa gerações, sobrevivendo nas histórias, nas crenças, nas ervas, nos gestos e nos silêncios.

Ela que, sem escrever livros ou formular teorias, deixou ensinamentos que nenhuma universidade seria capaz de me oferecer. Porque há conhecimentos que não encontramos nos livros, mas nas experiências daqueles que nos precederam. 

Hoje seria aniversário dela, que levo comigo na memória e no coração, na certeza de que, quando meu dia chegar, quero poder reencontrá-la novamente. Talvez para ouvir mais uma de suas histórias, para rir de suas implicâncias, para recordar nossas conversas ou simplesmente para contemplar sua presença, sem a pressa que tantas vezes nos rouba a oportunidade de perceber a beleza dos encontros.

Hoje seria aniversário dela, que continua presente naquilo que sou, nas minhas convicções, nas minhas inquietações, na minha espiritualidade e na maneira como compreendo a vida. Porque a ancestralidade não é apenas aquilo que ficou no passado, mas também aquilo que permanece vivo. 

Hoje seria aniversário dela, que me ensinou, sobretudo, que viver é um ato de coragem, que amar nem sempre significa abraçar, que a fé não precisa ser uniforme e que a liberdade de ser quem somos talvez seja uma das maiores expressões da dignidade humana.

Hoje seria aniversário dela.

Dela, que partiu, mas não deixou de existir nas minhas lembranças. Dela, cuja voz o tempo não conseguiu silenciar dentro de mim. Dela, que continua habitando as fotografias, as histórias, os lugares, os afetos e nos pequenos detalhes da vida cotidiana.

Hoje seria aniversário embora ela detestasse aniversários, hoje permito-me celebrá-la. Não pela data, mas pela vida. Não pela ausência, mas por tudo aquilo que sua presença significou e continua significando para mim.

Hoje seria aniversário dela. E aqui, na terra, a saudade continua sendo uma das formas mais bonitas de amar.

terça-feira, 13 de outubro de 2026

UM IRMÃO QUE A VIDA ME DEU


UM IRMÃO QUE A VIDA ME DEU
POR: RAFAEL VICTOR RIBEIRO

Um dia, a vida me presenteou
com um irmão.

Entre dois mundos,
culturas um pouco distantes
e idades diferentes,
nosso encontro nasceu
do mais profundo da alma,
bem perto do coração.

Ele veio de uma linhagem bastante antiga,
entre brasões, sobrenomes
e memórias de uma longínqua Itália;
eu vim do trabalho de mãos camponesas portuguesas,
de raízes ancestrais indígenas dos Kaingangs,
do suor e da dor dos escravizados,
de histórias e memórias
que não se foi capaz de registrar.

Ele, carioca da gema, criado e educado
na Zona Sul do Rio de Janeiro;
eu, cria do interior de São Paulo,
criado entre as ruas de terra do bairro São Roque
e a pracinha da Rua Getúlio Vargas.

Ele herdou a persuasão, a mansidão
e a arte da diplomacia;
eu herdei a resistência e a persistência
de quem faz da própria vida
um gesto político de sobrevivência.

Ele, apesar de uma vida agitada
no Rio de Janeiro,
escolheu a simplicidade, o silêncio
e o despojamento dos excessos;
eu nasci no caos e na incompreensão de quem sou,
mas fiz do requinte
minha identidade e sofisticação.

Ele é repertoriado, entende de leis,
de esportes e de saúde,
de tudo o que envolve
um corpo em movimento.

Eu entendo de cores,
de sons, de formas e texturas, de textos e,
tudo aquilo que atravessa
o território invisível das remanescências das nossas emoções.

Ele tem uma inteligência
que surpreende;
eu tenho o esforço
que persiste.

Ele inventa,
eu reinvento;
e, entre uma ideia e outra,
nossa criatividade floresce
onde parece não existir nada.

Ele é magro.
Eu sou fordo — concepção etimológica da palavra que significa forte com gordo.

Ele anda de lambreta motorizada;
eu tenho a arte e a façanha
de me descolar entre uma carona e outra. 

Ele é carinho,
humanidade e acolhimento;
eu sou o deboche,
a incompreensão
e o caos disfarçado
de sofisticação equilibrada.

Ele observa
e faz suas leituras em silêncio;
eu expresso demais,
transbordo nas emoções e nas palavras
e, às vezes,
nem percebo o que revelo.

Cada qual com seu jeitinho único
de existir,
a vida tem um senso de humor
bastante peculiar
quando resolve unir
dois irmãos de mundos tão diferentes.

Conhecemo-nos no serviço,
entre tarefas e obrigações,
deslocamentos, compromissos
e horários a cumprir.

Entre encontros, risos
e despedidas,
tornamo-nos confidentes,
companheiros de luta, com sonhos e projetos em mente,
com a mesma fé comum por: justiça social.

Nós dois somos guardiões de segredos,
cúmplices do riso
que torna a vida mais leve,
dois amigos-irmãos que, sem perceber,
transformaram dias comuns
em histórias para guardar,
diante da finitude
que se apresenta aos nossos olhos.

Quando um falta no serviço,
o outro não fica incompleto, porque cada um é parte de si mesmo;
mas o riso não surge com a mesma facilidade,
e o olhar sente a ausência
na paisagem do dia.

Quando a vida pesa
e o mundo parece estreito,
sem passagem, sem saída,
ele aparece com seu jeito
brincalhão e despojado de si.

Arranca-me um riso improvável
e, com afeto,
devolve-me à roda da vida e,
eu caio na dança.

Capone herdou
a maior de todas as riquezas:
a nobreza da alma,
a mão que ampara,
o coração que acolhe
e a presença
que não se mede.

Ribeiro, por sua vez, herdou a arte do encontro,
que talvez seja próprio
de seu requinte e sofisticação
reconhecer, nas coisas mais simples
da existência humana,
os tesouros generosos
que a vida oferece.

Diferentes na origem,
no corpo, no jeito de ser
e na estrada da vida;
porém, quando o assunto é irmandade,
não existe linhagem
que pese mais que o afeto.

Dois sujeitos,
um universo,
duas histórias
e uma amizade.

É a sabedoria da vida
que, sem pedir licença,
decidiu entrelaçá-las, provando que encontros acontecem 
e, quando a gente menos espera, nasce um amigo, nasce um irmão.

Ele, um presente Divino 
colocado no meu caminho.
Eu, talvez, um presente
que a vida lhe quis dar para ensinar o que é paciência.

Na nossa liberdade, somos irmãos
sem precisarmos compartilhar
o mesmo sangue ancestral, 
sem precisar conversar todos os dias, 
que cada qual honra à sua maneira de ser.

A família também acontece assim:
sem vínculo de sangue e, principalmente,
sem obrigação ou exigências.

Confesso que a vida é bastante generosa,
já me deu outros "Andrés" com a mesma intensidade,
irmãos que não nasceram
do mesmo ventre,
mas que o afeto escolheu
para caminhar comigo.

No entanto, cada um é único
e ocupa seu lugar no mundo,
com endereços impressos na alma.

Capone é piadista por natureza, ri de tudo e de todos;
Ribeiro, um debochado, nobre sonhador e causador
de coisas boas, claro. 

No vai e vem da vida,
permanece uma certeza:
no mais profundo do coração,
nasce um irmão a quem carinhosamente,
chamamos de amigo.

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

MEU VOTO É SECRETO, MAS...


Meu voto é secreto, mas me formei pelo ProUni.

Meu voto é secreto, mas defendo a pesquisa científica.

Meu voto é secreto, mas sou a favor das pessoas serem livres pra amar quem elas quiserem.

Meu voto é secreto, mas defendo as Artes, a Cultura e o Patrimônio histórico e artístico. 

Meu voto é secreto, mas defendo a preservação do meio ambiente e os cuidados com a Mãe Terra.

Meu voto é secreto, mas defendo moradia digna para todas as pessoas.

Meu voto é secreto, mas defendo programas sociais.

Meu voto é secreto, mas defendo que todo brasileiro faça de três a quatro refeições ao dia. 

Meu voto é secreto, mas defendo a escola pública. 

Meu voto é secreto, mas sou professor e tenho consciência de classe.

Meu voto é secreto, mas defendo o SUS. 

Meu voto é secreto, mas defendo a soberania do Brasil e da América Latina. 

Meu voto é secreto, mas defendo as minas, as manas e as monas.

Meu voto é secreto, mas defendo os povos originários e as comunidades quilombolas. 

Meu voto é secreto, mas defendo que Deus esteja dentro de cada religião:

Amém pra quem é de amém, axé pra quem é de axé, e boa sorte pra quem não é nada. 

Meu voto é secreto, mas eu sei de onde eu vim! 

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

A GRAÇA DE ENVELHECER — REFLEXÕES DE MAIS UM ANIVERSÁRIO


A Graça de Envelhecer
Por: Rafael Victor Ribeiro 

Viver é um dom gratuito de Deus, principalmente quando se vive com intensidade e com qualidade de vida, aproveitando tudo aquilo que ela tem de bom a oferecer. 
Considero-me um "sujeito de sorte", bem como definiu o poeta brasileiro Belchior em sua música, pois nasci e cresci nesta terra — lugar das goiabeiras e de Nossa Senhora da Piedade — que, popularmente, também é afeiçoada por esta gente como "terra das palmeiras imperiais" (Lorena). Mas é certo também dizer que cresci entre a serra de Piquete e o bosque de Cruzeiro, que acreditava ser encantado, o que me fez naturalmente, crescer com uma imaginação fértil. 

Recebi boa educação, extremamente rigorosa em que o estudo era parte essencial na nossa criação. Não tínhamos luxo, éramos crianças simples, tínhamos o básico para viver sem excessos, de modo que pudéssemos aprender a valorizar o pouco e com sabedoria. Sou o primeiro neto por parte da família materna e o quinto neto por parte da família paterna. E isso me deu certas vantagens, das quais não pretendo entrar em detalhes. rsrs

Mamãe era exigente e perfeccionista com os meus estudos e, principalmente, no cuidado da casa. Nossa diversão eram os desenhos e programas da TV Cultura, que aguçaram minha sensibilidade artística. Aos domingos, frequentávamos a Igreja, e eu cantava no coralitoh; à tarde, passeávamos na praça; eu adorava tomar o sorvete que o vovô comprava da tradicional "Sorveteria Dallas". Vez ou outra, nosso destino eram os passeios na feira da barganha, e ainda posso me lembrar da minha avó (Laura) negociando suas bugigangas. 

Nas raras exceções: se merecesse, papai nos levava, eu e meu irmão, para um passeio de charrete com pônei na praça Arnolfo de Azevedo. Papai sempre foi bem rígido e sistemático com tudo, e nos corrigia sempre com o que tivesse em mãos, se fosse necessário. Seu lema era: Organizar e disciplinar! O fato é: ninguém apanhava a troco de nada, e eu sempre fui bem afrontoso e desafiador, importante ressaltar. Não é à toa que meu apelido, entre a "boca miúda" da prefeitura, é "Rafael, o causador!". Sem dúvidas, assumo esse título não como alguém que naturalmente arranja confusão a troco de qualquer coisa, mas como alguém que não aceita qualquer coisa, que é crítico, irreverente e meio sem filtro pra gente sem noção. Gosto de pensar que eu não tenho paciência pra quem tá começando, como bem gosta de dizer a atriz Susana Vieira. É aquele ditado: "Fala o que não quer, escuta o que não quer." Sou daqueles que mando de volta o constrangimento sem dó nem piedade. Mas é preciso dizer que nem sempre fui assim; durante muitos anos, engolia a seco. Em casa era fácil ser irreverente, afrontoso e desafiador; na rua era difícil. Por vezes, sofria calado, e anos de terapia ainda não resolveram meus problemas 100%, mas seguimos nos tratando. Com o tempo, a gente vai aprendendo a se impor e se fazer ser respeitado e temido por onde passa. 

De certo modo, sempre fui muito privilegiado. Estudei música e teatro durante a infância e adolescência. Tive excelentes professores e, naturalmente, tenho bons amigos. A escrita sempre foi um dos meus grandes hobbies, e o papai ainda deve guardar algumas de minhas produções autorais da época da 3ª série do Ensino Fundamental. Naquele tempo, eu tinha tantos sonhos, tantos projetos... Alguns se cumpriram, outros desapareceram, e há aqueles que ainda estou a descobrir.

Nosso destino nas férias dos anos 90 era Ubatuba, cidade que, após a morte do vovô Pedro, em 2008, ficou difícil frequentar. E, recentemente, após muitos anos, visitei Ubatuba e, confesso, não me senti bem. Daí me lembrei de um poeta que disse que, se fomos felizes em um determinado lugar, era para nunca mais voltar àquele lugar, justamente para preservar todo sentimento bom que um dia existiu ali.

Meus pais me instruíram na fé protestante, da qual eu recebi toda a minha base teológica e histórica através da influência de minha avó materna, Leonídia, pela Igreja Metodista, já que meus pais passearam por algumas denominações até descobrirem um lado espiritual independente de religiões. A vivência ecumênica sempre foi prerrogativa principal na minha vida, até porque os desafios da unidade cristã sempre estiveram presentes no seio da minha origem familiar, que, religiosamente falando, era bem diversa: Protestantes Tradicionais, Protestantes Pentecostais, Católicos, Espíritas, Umbandistas, ateus, espiritualistas entre outros crenças. E, assim, como Irmão Roger, da Comunidade de Taizé, vivi minha vida toda "cruzando certas barreiras confessionais", o que ele também gostava de chamar de processo de "enriquecimento gradual da fé", ou seja, o ministério da unidade encarnada. Em 2024, me desliguei da Igreja Metodista e, desde então, em determinado momento do mesmo ano, fui acolhido na Igreja Católica, onde tenho procurado viver sob um outro ponto de vista, além de me nutrir do sacramento da Sagrada Eucaristia e da confissão mensal. Isso não quer dizer que joguei no "lixo" tudo o que aprendi das minhas raízes protestantes metodistas, até porque as familiaridades com o catolicismo são muitas, e um querido pastor protestante metodista, amigo de longa caminhada cristã ecumênica, certa vez me disse que a Igreja Metodista é filha da Igreja da Inglaterra, irmã das Igrejas protestantes da Suiça e da Alemanha e, naturalmente, neta da Igreja de Roma. Ou seja, isso tudo é pra dizer que ainda levo comigo muitos ensinamentos que me moldaram enquanto ser humano, um deles, ao qual não abri mão: o ecumenismo e a ação social: "Ora et labora" (Reza e trabalha). Com relação ao tema da Unidade dos Cristãos, a Igreja Metodista é pioneira nessa discussão, e a Igreja Católica, somente após o Concílio do Vaticano II, estabeleceu aproximação com outras ramificações do cristianismo, tornando notavelmente uma Igreja Ecumênica. 

O Credo Social da Igreja Metodista no Brasil estabelece:

"A Igreja Metodista participa dos propósitos de unidade cristã e serviço mundial, do CMI (Conselho Mundial de Igrejas), do Ciemal (Conselho de Igrejas Evangélicas Metodistas da América Latina e Caribe), do Clai (Conselho Latino-Americano de Igrejas) e do Conic (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs); Cremos que a comunidade cristã universal é serva do Senhor, sua missão nasce sempre dentro da missão do seu único Senhor."

IGREJA METODISTA, 2018, p. 50, cap. III, seção II, item 1.

Hoje, no entanto, sigo em outro ritmo, por um caminho distinto, sob outra ótica, o que me faz crer que sou bem privilegiado diante de tantas experiências que moldaram minhas experiências de fé. 

Os anos passam, pessoas vêm e vão. Algumas encerram sua trajetória para esta vida, outras simplesmente seguem um caminhar diferente do nosso, ou por opção, ou por distanciamento, ou qualquer que seja a questão em si. Mas a nossa história não deixa de ser contada, e ninguém aparece e desaparece do nada; cada qual cumpre exatamente o tempo que deveria cumprir em nossa jornada de peregrinação nesse mundão de meu Deus.

Confesso que ainda não me acostumei a estar na casa dos 30+, caminhando para os 40, mas envelhecer é de qualquer forma um dom gratuito de Deus: viver com saúde, ter um bom emprego, claro, apesar das falhas de um sistema de educação falido e, principalmente, dos muitos conflitos existentes na esfera pública, tenho a graça de formar seres pensantes, como dizia Paulo Freire, e é nesse coletivo de cidadãos críticos, criativos e atuantes em sociedade que volto meu olhar para a esperança que não decepciona. Novamente, percebo que, em toda a minha trajetória, tenho cumprido o leva de vida a mim destinado: "Lord, don't let me live in vain", oração do clérigo anglicano John Wesley, que diz: "Senhor, não me permita ter uma vida em vão!"

Desse modo, concluo que minha trajetória é louvável e foi unicamente sonhada e está sob os cuidados e a misericórdia do Deus Altíssimo, ou seja, dom precioso dEle. Claro que nem tudo são flores; as pedras e os vendavais tempestuosos sempre vêm e vão; de certo modo, eles também são movimento, é a vida seguindo seu curso natural e exigindo passagem. Mas, uma vez que depositamos nossa confiança em Cristo, sob o cuidado maternal de Maria Santíssima, da qual fomos gerados espiritualmente, uma vez que guardamos os mandamentos de Deus e de sua semente fomos gerados como seus remanescentes, tudo vai bem. É nos momentos de caos que a gente chega à conclusão de que os turbilhões muitas vezes vêm até nós para que possamos reconfigurar a rota ou simplesmente crescer e evoluir em algumas áreas que Deus sonha para cada um.

Nos últimos dias, descobri alguns dons que nasceram do silêncio e do claustro. Confesso que nunca imaginei que seria possível, e ainda estou me familiarizando com esse novo despertar, que é uma novidade que ainda me assusta. Pode ser que seja passageiro, pode ser que não, e aquilo que nasce no coração do homem é dom precioso de Deus. De uma coisa tenho certeza: em tudo, em todos os meus passos, em todas as minhas escolhas e em quaisquer que sejam os meus devaneios humanos, a presença de Deus sempre está comigo. Desse modo, todas as minhas faltas são supridas conforme Deus acha necessário, e, apesar dos meus excessos de vaidade, que não se pode negar enquanto "libriano" do primeiro decanato (rsrs), sou um homem simples, que sempre foge dos holofotes.

Eu nasci em 27 de setembro, numa quinta-feira, às 06h55min da manhã. E o dia 27, para mim, se tornou especial porque é também o dia em que a Igreja recorda a memória de São Vicente de Paulo, um santo francês, de origem humilde, que abdicou da vida para ajudar os necessitados, pessoas que viviam nos vilarejos rurais e que provavelmente não tinham perspectiva de vida. E acredito que é por isso que tenho forte essa ligação com a natureza e com grande parte de atividades de natureza social. Esse é um legado que carrego comigo, uma força presente diante da história de tantos homens e mulheres fortes, que cresci vendo se doarem aos necessitados.

Envelhecer, portanto, não é apenas contar os anos que se passaram, mas reconhecer tudo aquilo que somos e tudo aquilo que Deus nos permitiu viver, aprender, perder, construir, reconstruir e transformar-se ao longo do caminho mediante a graça Divina. A idade carrega consigo o peso de uma história e, em cada lembrança, a marca de uma vida em plenitude. Cada encontro deixa alguma coisa de nós e leva consigo algo que já não faz mais sentido.

Aos 36 anos, olho para o passado com gratidão e para frente com esperança e fé no que há de vir. Ainda há muito a aprender, muito a sonhar, muito a desejar e muito a percorrer. Ainda há de encontrar pessoas, ainda há de realizar sonhos, adquirir experiências e viver. Se a vida é um dom gratuito de Deus, envelhecer também é graça perene: é a graça de continuar caminhando, aprendendo, servindo e descobrindo, pouco a pouco, o que Deus ainda sonha realizar em nós.

E assim, pela estrada da vida, caminhando e cantando, vou vivendo minha vida, minha música, minha arte e, principalmente, minha fé, além de tantos outros caminhos que a vida ainda haverá de revelar e que, certamente, reserva pra mim. Mesmo sem que saibamos onde cada estrada terminará, confiando que, onde houver vida, haverá também esperança e, a cada novo amanhecer, um motivo para sorrir e agradecer.

Gracias a la vida! 

sábado, 26 de setembro de 2026

CAMINHO DA ESPERANÇA - RITO ECUMÊNICO PARA QUEM VISITA O CEMITÉRIO


[Túmulo do Ir. Roger Schutz, fundador da Comunidade Taizé, França | imagem da internet sem menção de autoria]

ORAÇÃO INICIAL

✠ Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Senhor Deus, Pai de misericórdia, fonte de amparo e proteção de toda a vida, diante deste túmulo, onde repousam os restos mortais de meus familiares, venho recordar, com carinho e gratidão, aqueles que me precederam e agradecer por suas vidas. 

Recebei, Senhor, estas flores, esta singela vela que é símbolo de tua luz em nós, e esta nossa oração como sinais concretos e visíveis da nossa memória, do nosso carinho e amor por tantas vidas e por tudo aquilo que aqueles que aqui jazem transmitiram às gerações que vieram depois deles.

Senhor, fonte de vida e misericórdia, não ofereço essas flores/velas aos falecidos como quem lhes presta culto. Coloco-as aqui porque honro a memória daqueles/as que um dia me deram uma história, uma família e parte daquilo que sou.

Recebei, Senhor, minha gratidão e concedei a todos que repousam neste campo santo a vida eterna em Cristo, nosso Senhor.

Senhor Jesus Cristo, Filho unigênito do Pai, que, pela vossa morte e ressurreição, vencestes o sepulcro, acolhei em vossa misericórdia as almas de meus familiares falecidos e de todos os meus antepassados.

Rogamos-vos, Deus de amor: perdoai-lhes suas faltas, purificai-os de todo pecado e concedei-lhes participar da vida eterna junto de Vós.

E a mim, Senhor, concedei a graça de honrar nossa memória ancestral, vivendo sob a luz do Santo Evangelho, com dignidade, fé e amor.

Que eu possa receber e transmitir às gerações futuras aquilo que há de bom, de belo e verdadeiro na história daqueles que me precederam, procurando viver de modo genuíno a vida que recebi.

E, quando o crepúsculo de minha vida chegar, concedei-me, pela vossa infinita misericórdia, a graça de contemplar a tua Glória Eterna, para que, junto daqueles que partiram antes de mim, possamos um dia vos adorar para sempre.

A nós, que ainda caminhamos como peregrinos neste mundo hostil, concedei a esperança e a fé na ressurreição.

Por Cristo, nosso Senhor, a quem pertencem a honra e a glória, pelos séculos dos séculos.

Amém.

PAI-NOSSO [Oração Universal]

AVE-MARIA [Se for católico]

GLÓRIA AO PAI [Doxologia menor]

"Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo; como era no princípio, agora e para sempre. Amém!"

ORAÇÃO FINAL [Antes de ir embora]

Senhor, nós vos louvamos porque nos destes a vida e, em Cristo, a esperança da vida eterna.

Aos que aqui repousam, confiamos à vossa misericórdia. Acolhei-os na luz da vossa face e concedei-lhes o descanso eterno, enquanto aguardam, em Cristo, a Ressurreição.

Nós, que ainda peregrinamos neste mundo, seguimos o curso natural desta vida, com pessoas a amar e cuidar, trabalhos a realizar, caminhos a percorrer e uma história a contar.

Que a memória daqueles/as que nos precederam nos ensine a viver com fé, amor e gratidão, até o dia em que, pela vossa misericórdia, nos encontremos todos na vossa presença.

Por nosso Senhor Jesus Cristo.

Amém.

AO DEIXAR O CEMITÉRIO [opcional]

Aos fiéis defuntos, pela vossa misericórdia, dai-lhes, Senhor, o descanso eterno na mansão dos justos.

E que brilhem para eles a luz da vossa face.

Que as almas benditas descansem em paz. 

Amém.

✠ Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.


RITO ORACIONAL INDICADO PARA QUEM VISITA O CEMITÉRIO NO DIA DE FINADOS OU EM DATAS ESPECÍFICAS [DIAS DAS MÃES, DIA DOS PAIS, ANIVERSÁRIO DE MORTE DE UM ENTE QUERIDO, ETC].

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

AS PALAVRAS QUE NASCERAM DO SILÊNCIO

As Palavras que nasceram do Silêncio 
Por: Rafael Victor Ribeiro 

Algumas experiências a gente não explica; apenas sente e experimenta. Sobretudo por aquilo que vivemos, permitimo-nos reduzir o ritmo habitual de uma vida que não para e que o tempo todo está sempre de passagem. Nesses últimos dias, tive a graça de visitar e conhecer um pouco da vida monástica de nossos irmãos cistercienses de Itaporanga-SP, na Abadia de Nossa Senhora da Santa Cruz. Cheguei como um visitante forasteiro que ansiava mergulhar, ainda que brevemente, na rotina daqueles homens que escolheram viver sua caminhada cristã em torno do silêncio, do trabalho, da oração e da vida comunitária.

Nessa experiência imersiva, pude acompanhar grande parte da rotina monástica e, desde que cheguei a Itaporanga, vivendo esse experimento de uma fé encarnada no cotidiano, aprendi com meus irmãos algumas palavras que, para mim, descrevem muito bem o perfil desses homens, herdeiros da tradição da Ordem de São Bento.

1ª Palavra: Serviço

Nossos irmãos acolhem a todos com tanta atenção e se mostram tão solícitos e generosos que, por vezes, ficamos até envergonhados diante de tamanha honra e generosidade. Ouvi dizer que essa é uma das premissas da tradição monástica: ao acolher cada estrangeiro, acolhem também o próprio Cristo. 

Há algo de muito bonito em experimentar esse acolhimento em um lugar onde a vida parece caminhar em outro ritmo. Somos recebidos sem pressa, sem exigências, como quem nos recorda que também precisamos aprender a acolher, a servir e a reconhecer no rosto do outro a presença de Cristo. 

Sair daqui certamente não será apenas deixar um lugar que nós hospedou, mas também levar um pouquinho dessa experiência de comunhão e, sobretudo, uma maneira própria de viver e acolher aqueles que cruzarem o nosso caminhar. 

2ª Palavra: Silêncio

Nesses dias de retiro, aprendi a silenciar minha mente, meu corpo e meu coração. Entendi que, para buscar uma intimidade maior com Deus, muitas vezes é necessário esvaziar-se de si mesmo, reconhecendo o quanto somos carentes da graça e da misericórdia do Pai.

No silêncio percebi que nem sempre nossas respostas precisam ser imediatas. Deus nos convida a permanecer, a escutar e confiar. Quando silenciamos percebemos aquilo que tantas vezes deixamos passar. 

Esvaziar-se não é deixar de ser quem somos, mas permitir que Deus, fonte mística de amor encontre morada dentro de nós, reconhecendo nossas inquietações e fragilidades, colocando diante d'Ele tudo aquilo nos aprisiona. 

Acredito que a maior das lições destes dias foi aprender que se colocar em silêncio é deixar que a presença de Deus nos alcance. 

3ª Palavra: Oração

Muito embora a tradição cristã sempre tenha afirmado que a prática da oração é fundamental na vida de todo cristão, aprendi que, para rezar, é necessário primeiro esvaziar-se. Desse modo, compreendi que o silêncio é um complemento da oração e que a oração também está atrelada à ação secular, ou seja, à vida comunitária.

Aprendi que a oração se prolonga no trabalho, no serviço e nas pequenas tarefas que constituem a efêmera vida.

4ª Palavra: Humildade

A humildade é um dos traços do caráter de Jesus e, por isso, constitui uma das importantes prerrogativas da vida monástica. Durante esse meu retiro, pude perceber o quão mesquinho e pobre eu sou diante da grandeza de um Deus que se faz pequeno pra caber dentro de mim, e o quanto ainda preciso aprender com meus irmãos sobre a verdadeira humildade que brota do íntimo. 

5ª Palavra: Caridade

A caridade é um dos fundamentos da vida cristã e pode ser entendida, a partir da perspectiva bíblica, como o amor a Deus em sua máxima e ao próximo. Jesus resumiu toda a Lei nesses dois mandamentos: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento” e “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22,37-39). Por isso, considera-se que a caridade não se limita à ajuda material em si, mas ela está expressa na compaixão, no perdão, na partilha, no serviço, no cuidado com os necessitados, no respeito à dignidade humana. Assim, viver a caridade é transformar o amor professado em Jesus através de atitudes concretas, buscando sempre o cultivo da paz com o outro e sem olhar a quem você faz o bem. Foi ao observar a caridade explícita no coração dos nossos irmãos monges cistercienses que constatei também uma virtude teologal não apenas oriunda da prática de fazer o bem, mas na forma de amar a Deus e ao próximo, sendo este uma minúscula formiga que seja. 

6° Palavra: Entrega

Toda entrega requer um chamado especial, e esse chamado nasce com o despertar de uma nova vida, conduzida unicamente pela voz mansa e suave da Ruáh, a força do Espírito em nós.

Entregar-se requer esvaziamento pessoal, deixar que Deus te conduza por caminhos muitas vezes incertos, mas estar seguro de que somente a graça dEle é capaz de suprir nossas necessidades. Entregar-se é deixar de tentar controlar tudo à sua volta e permitir que Deus conduza aquilo que, aos olhos humanos, muitas vezes seja impossível sustentar.

Entrega não é desistência, mas um ato de amor e de confiança: quando colocamos nossos medos, desejos e também aquilo que ainda não compreendemos nas mãos do Deus que tudo vê e tudo conhece. Entregar-se é permanecer disponível, fiel e, se preciso for, dar sua vida pelo nome de Cristo, assim como nos ensinaram os santos mártires.

7° Palavra: Escuta

Para escutar, é necessário silenciar. O silêncio nos convida a interromper, ainda que por alguns instantes, o que é exterior e que também ocorre dentro de nós. Por vezes, estamos tão ocupados em responder, em julgar ou simplesmente pensar no que diremos ou o que faremos que deixamos de ouvir. Escutar exige presença e abertura para acolher no íntimo aquilo que Deus deseja comunicar.

Escutar é, de certa maneira, sair de si mesmo para ir em direção ao outro.

Quando silenciamos, criamos um espaço para perceber aquilo que Deus pode nos dizer. Sua voz nem sempre se manifesta no extraordinário; às vezes, ela se revela no simples, podendo ser, inclusive, a presença de alguém, ou de uma palavra, de um gesto ou até mesmo naquilo que não é dito, mas é sentido e experimentado.

8° Palavra: Partilha

Aprendi que partilha é muito mais que dividir o pão que temos, mas é colocar em comum o que somos, o que recebemos e o que podemos dividir. Nesses dias imersivos de vida religiosa cisterciense, percebi que vida comunitária é também uma profunda experiência de partilha, o que me fez lembrar de São Martinho de Tours — que cavalgava certa noite sob o frio intenso europeu, quando avistou um mendigo tremendo de frio. Tomado de tamanha compaixão e amor, rasgou sua capa ao meio e ofereceu metade àquele homem que padecia. Tal gesto tornou-se então abrigo, e símbolo concreto do significado da palavra Capela — do latim, “pequena capa”. Que, mais tarde, passou também a designar os lugares de oração, as capelas, espaços onde a presença de Cristo é reconhecida e amada.

A partilha, portanto, é reconhecer que ninguém caminha sozinho e que a vida cristã só encontra sua plenitude quando partilhamos, de modo a transformar em dom o que recebemos e doamos ao outro.

9° Palavra: Obediência

Aprendi que obedecer é um ato de amor, de submissão e serviço. Deus deu ao homem o livre-arbítrio, e cada qual o direito de percorrer um caminhar diferente do outro.

Obedecer requer confiança e, sobretudo, fé. Em 1 Samuel, encontramos uma passagem bem forte: “obedecer é melhor do que sacrificar” (1Sm 15,22). Deus deseja um coração disposto a escutar e a acolher a sua vontade, que é boa, perfeita e agradável para nós que somos "saco de vermes", como bem definiu São Bernardo Claraval, inspirando-se nos textos bíblicos de Jó (25:6); Salmo 22/21:6; Isaías (41:14). 

Na vida monástica, pude perceber que a obediência também passa pelo exercício de deixar de lado a própria vontade para aprender a caminhar com o outro e em comunidade. E em Cristo encontramos o maior exemplo. São Paulo nos recorda que Ele “foi obediente até a morte, e morte de cruz” (Fl 2,8). Nesses dias, aprendi que obedecer não é simplesmente cumprir um combinado de regras e seguir um sistema ou uma ordem imposta, mas aprender a confiar, a silenciar o próprio "Eu" e colocar-se inteiramente nas mãos de Deus. Obedecer torna-se também uma experiência de humildade, entrega e, principalmente, amor.

10° Palavra: Memória

Uma das coisas que mais me tocou durante esses dias de imersão dentro da vida monástica foi perceber como a memória está profundamente presente em todos os momentos da comunidade. E a memória é algo bastante presente na minha corriqueira trajetória profissional enquanto educador, artista e, recentemente, pesquisador do tema. Nossos irmãos cistercienses, além de guardarem e celebrarem a memória da Santíssima Mãe de Deus e nossa, em suas orações, também não deixam de recordar em nenhum dos momentos oracionais os fiéis defuntos, todos aqueles/as que morreram em Cristo. Há algo de muito bonito e especial nisso: compreender que aqueles que foram acolhidos pela irmã Morte, expressão usada por São Francisco de Assis no cântico das criaturas, não foram simplesmente apagados, mas permanecem presentes na oração e na comunhão com a Santa Igreja. A tradição cristã compreende a Igreja em três dimensões: a Igreja Militante, que somos nós, ainda como peregrinos, nesta terra desconhecida; a Igreja Padecente, formada pelas almas dos fiéis defuntos que se encontram no Purgatório e carecem das nossas orações a fim de que sejam purificados para que entrem na glória eterna; e a Igreja Triunfante, constituída por todos os anjos, santos, santas e mártires que já contemplam a Deus e, como uma nuvem de testemunhas (Ap 6, 9-11), estão abaixo do Trono do Altíssimo intercedendo por nós que aqui continuamos.

Assim, a oração dos monges parece atravessar o tempo, mantendo viva a memória daqueles que nos precederam. Aprendi que guardar a memória também é amar a Deus em toda sua plenitude, porque aquilo que verdadeiramente amamos não queremos esquecer. E acredito que esta seja justamente uma das mais belas experiências que tive e que trouxe comigo de Itaporanga: compreender que, na vida cristã, recordar é permanecer em comunhão com Cristo, nosso Senhor.

Por fim, com o coração cheio de gratidão, agradeço aos nossos irmãos cistercienses da Abadia de Nossa Senhora da Santa Cruz pela acolhida generosa, pela hospedagem, pelo cuidado e pela disponibilidade com que me receberam. Foram poucos dias, mas suficientes para levar comigo muitos ensinamentos e uma experiência única de encontro com Deus. Agradeço por cada oração compartilhada, cada conversa, cada gesto de serviço e também pelos silêncios que, de alguma forma, falaram comigo. Retorno à Lorena diferente de como cheguei, levando não apenas boas lembranças, mas também muitas perguntas, aprendizados e um desejo renovado de viver minha fé de uma maneira mais simples, partindo de uma espiritualidade concreta e encarnada. 

Aos meus irmãos, minha sincera e eterna gratidão.

sábado, 12 de setembro de 2026

A CULTURA NÃO É FEITA DE PALHAÇADA

 


As Mulheres de Argel (1955), de Pablo Picasso - Cubismo

A Cultura não é feita de palhaçada
Por: Rafael Victor Ribeiro

A cultura é feita de encontros, de histórias e de raízes ancestrais. São hábitos, costumes e tradições herdadas de um povo que se perpetuam de geração à geração. A cultura interfere diretamente na forma como enxergamos o mundo e como somos enxergados.

Mário de Andrade defendia que o primitivismo cultural brasileiro, ou seja, a cultura nos primeiros séculos de história do país, não era de ordem estética, mas social, o qual procurou confrontar a produção artística do país com a realidade nacional existente em meados da década de 1920, dando então origem a um nacionalismo que se voltava para a própria identidade brasileira e rompia com a submissão aos modelos europeus impostos que foram nossa base referencial por décadas.

Peter Burke, importante historiador, por sua vez, reconhecia a existência de uma dicotomia entre culturas tidas como hegemônicas e subalternas, estando uma historicamente submetida à conjuntura da outra. E, nesse sentido, o autor rompe com o paradigma de uma cultura única, homogênea e hierarquizada, reconhecendo a existência de múltiplas culturas dentro de uma, em constante diálogo, conflito e processos de transformação.

Cultura, portanto, não é aquilo que simplesmente diverte e entretém. Cultura é aquilo que nos constitui enquanto povo vivo. É memória, identidade, pertencimento, resistência e continuidade. Cultura é a maneira pela qual um povo preserva aquilo que recebeu de seus antepassados e, ao mesmo tempo, transforma aquilo que deixará para as próximas gerações.

Clifford Geertz exemplifica a cultura como uma teia de significados na qual os seres humanos interpretam e organizam suas experiências. O autor defende a ideia de que a cultura é uma condição da existência humana. Se considerarmos o pensamento do autor no que diz respeito à forma como o ser humano interpreta a própria vida, reduzi-la à mera “palhaçada” é reduzir a experiência humana a uma vertente caricata.

Podemos considerar que a cultura não está somente atrelada aos museus, às galerias de arte e aos grandes teatros. O conceito de cultura se transforma à medida que as relações humanas vivenciam experiências sociais, políticas, econômicas e religiosas. A cultura está longe de ser um privilégio da elite que sempre dominou o mundo, tampouco é mero sinônimo de lazer e entretenimento. A cultura recorda, transmite, pensa e sobrevive. Funciona como uma espécie de código pelo qual determinado grupo interpreta, modifica, resignifica e decodifica o mundo a partir de si próprio e do meio.

Ressaltamos, então, que a cultura não é feita de palhaçada. A cultura pode nos fazer rir, dançar e celebrar, mas, por trás dessas manifestações chamadas de manifestações poéticas, existem símbolos, pessoas, memórias, identidades e relações de poder.
Essa reflexão pessoal diz respeito à crítica intelectual diante da banalização do conceito de cultura, devido à sua mercantilização, ao privilégio das elites, à polarização política que transformou a cultura em campo de disputa e à perda da dimensão histórica. É importante reconhecer a existência de diferentes formas de expressão cultural, sem retirar delas a sua importância, compreendendo como cada grupo social produz, preserva e transforma suas próprias maneiras de recordar e interpretar uma realidade.