sexta-feira, 4 de setembro de 2026

UMA VILA DE NOME TRAVESSA DOS CASTROS

UMA VILA DE NOME TRAVESSA DOS CASTROS
POR: Rodrigo Falcone 

Numa vila de nome Travessa dos Castros, na cidade de Santa Cruz dos Andes, havia várias casas, todas padronizadas sob o mesmo estilo: varandinhas, janelas e portas pra rua. A vila era fechada por dois portões que davam acesso a duas ruas: a rua principal, de nome Princesa Pompeia, e a rua de fundo, chamada Esperança, que dava acesso a uma estação de trem antiga e a um parque centenário com muitos animais silvestres. Nessa vila, localizada no centro da cidade, moravam cinco idosas, que tinham suas manias e seus costumes esquisitos, daqueles de se esperar de senhorinhas que já passaram dos setenta anos. A estética da vizinhança era a mesma padrão: muitas estampas, crochê, plantas, namoradeiras na janela, móbiles, jardineiras na varanda etc. O cheiro também era bem peculiar: pela manhã, cheirava café e amaciante; ao meio-dia, um delicioso cozido de carne com legumes; e, à tarde, café com bolo fresquinho; e, de noite, cheirinho de sopa. E, assim, na tranquilidade de uma quase metrópole, viviam essas cinco senhorinhas de nome Lourdes, Balbina, Tereza, Cristina e Alzira. Todas tinham algo em comum: o amor pelas plantas e por tecidos estampados.

Dona Lourdes era a mais carola e religiosa de todas, vivia atormentando o Vigário Amoroso, sistemática que só. Quando não estava na Igreja, estava dentro de casa. E, da vila, pontualmente, às 15h e às 18h, era possível ouvir sua televisão nas maiores alturas, sempre ligada na TV Aparecida, onde passavam as récitas do Santo Terço com o Pe. José Marivaldo. Dona Lourdes era meio emburrada, não dava conversa pra qualquer pessoa, e não se pode dizer se seu coração também era fechado para os mistérios da caridade e do amor, prerrogativas da Igreja Católica.

Balbina era irmã de dona Lourdes; cada uma das irmãs morava em casas localizadas nas pontas dessa vila. Ao contrário de dona Lourdes, dona Balbina não era religiosa. Ia às missas em datas comemorativas, principalmente em Missas de Sétimo Dia. Sua "fezinha" era feita no seu querido jogo do bicho aos domingos. Balbina também era dotada de saberes culinários, fazia todos os tipos de quitutes que se possa imaginar, dos mais gostosos possíveis, daqueles que se comem rezando. E, claro, não dava nada pra ninguém, apenas vendia por um preço quase nada acessível.

Tereza e Cristina eram irmãs, moravam juntas, mas Cristina tinha uma casa de campo, então, vez ou outra, ficava na sua residência própria para cuidar de seus cavalos. As duas eram uns amores, muito cuidadosas com todos. Não eram nenhum pouco religiosas, tinham um lado espiritual independente de religiões, e, vez ou outra, como crianças, brigavam feio entre si. Mas uma não vivia longe da outra. Dona Tereza era mais tímida, falava manso e somente o necessário. Tinha olhos verdes feito gramado reluzente dos Alpes suíços. Cristina era mais espontânea, comunicativa e parecia ser uma jovem de uns 30 anos. Também tinha olhos verdes e expressivos, adorava um batonzinho vermelho-cereja, dizia que uma mulher que se preze não poderia se dar ao desleixo de sair à rua sem maquiagem.

Alzira era cheia de manias e costumes ritualísticos. Levantava pontualmente às 05h da matina, alimentava os canarinhos que tinha de estimação, abria a casa, passeava com o cachorro de nome Boby e voltava sempre por volta das 07h com um pãozinho fresquinho da padaria do Sr. Antero Clemente Inocente. Alzira era religiosa, a enfermidade a fez ser forte e a se aproximar de Deus ou da espiritualidade quântica. Às vezes, passava dias na capital em tratamento, e outras em casa. Era uma mulher forte, pois não se deixava abater por nada.

No meio dessas senhorinhas, havia também uma família, muito discreta, que só interagia com dona Cristina, que era quem conseguia conversar com todos da vizinhança. Era possível encontrar a família, ritualisticamente, sempre às terças, quintas e domingos, por volta das 18h, que era o horário em que saíam todos muito bem trajados para o Culto do Pastor Raposo Anacleto. Dona Cristina, metodicamente, fazia o mesmo comentário de sempre:

— Tá na hora, né? Por favor, rezem por nós!

No meio desse cenário poético, cheio de texturas, cores, sabores e de humanidades nas efemeridades da vida, havia um jovem estudante de música clássica. De nome Alan, que alugou a casa dos pais falecidos do Sr. Constantino Quirino. Alan tocava piano, trabalhava como professor de música e cursava o Bacharelado em Música na Universidade de Santa Cruz dos Andes, no período noturno. Quase não o via na vila, pois seus horários eram bem padronizados. Era mais comum vê-lo aos finais de semana, quando parava em casa. Alan tinha uma mania: adorava limpar sua casa de madrugada, mas fazia isso com todo cuidado, evitando acordar seus vizinhos. Alan passou por algumas dificuldades e, numa espécie de providência divina, viu a mão de Deus se estender sobre ele. Por vezes, era presenteado com bolos, tortas, pratos de comida, utensílios de casa, eletrodomésticos e tantas outras coisas naturais da vida. Aquelas senhorinhas, mesmo as mais rabugentas, o pajeavam, cuidavam dele. E sempre buscavam saber se estava tudo bem com ele. Os anos passaram, Alan se formou e teve de se mudar pra uma outra cidade onde já havia garantido um emprego concursado. E, com isso, sua antiga vida ficou pra trás.

12 anos se passaram, e Alan resolveu voltar à vila de nome Travessa dos Castros, a fim de reencontrar aquelas que um dia foram suas amigas. Algumas fachadas idênticas, outras foram reconstruídas, e a estética já não era mais a mesma. Ao chegar à vila, Alan não encontrou o mesmo cheiro, as mesmas plantas e as mesmas pessoas. Alan quis reencontrar as amigas que um dia tanto lhe fizeram bem, mas se deparou com outras pessoas, outras vidas e realidades. E pôde perceber como a vida é formada por ciclos, encerramentos e novos recomeços. Alan nunca soube do paradeiro de Lourdes, Balbina, Tereza, Cristina e Alzira. Devido à idade, cogitou que muitas se fizeram poemas em reminiscências no tempo e no espaço. Ali, Alan se deu conta do quanto a finitude da vida é real, e de que a vida é estranha demais: pessoas vêm, vão, mas suas histórias continuam eternizadas na memória e no coração, ainda que seja impossível saber o destino de cada um de nós.

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

RAÍZES, CAMINHOS E MEMÓRIAS ANCESTRAIS


Da esquerda para direita: (familiar não identificado); Benedito Mira; Esmeraldina Ribeiro (minha bisavó); Maria Ribeiro da Soledade (minha pentavó); Rita Ribeiro da Conceição (minha trisavó); Ana (bebê no colo); Luiz José Mira (meu trisavô); Maria Ribeiro (criança da frente) e Bernardina Ribeiro (criança da frente). 

Fotografia gentilmente cedida pela prima Nilce Pereira Callisaya. 

Raízes, Caminhos e Memórias Ancestrais
Por: Rafael Victor Ribeiro 

Conhecer a própria genealogia é percorrer os caminhos daqueles que nos precederam, cuja história, em algum momento, tornou-se apenas fragmento no tempo e no espaço. Cada nome, cada data, cada costume e curiosidade registrados na história familiar representam um pequeno conjunto de caminhos que, aos poucos, gradativamente, foram formando as nossas gerações, rompendo barreiras de séculos de história. Compreender quem somos vai muito além da história do nosso presente, mas parte da compreensão dos indivíduos todos, que a ciência já comprova que, em nosso DNA, carregamos carga ou memória energética de pelo menos cinco gerações passadas. Ou seja, somos parte de uma história muito maior, construída por pessoas em contextos diversos, com inúmeras histórias que, certamente, na sua humanidade, amaram, trabalharam, sofreram, sonharam, se apaixonaram e deixaram suas marcas em nós e no mundo que habitamos.

Desde a minha juventude, eu tinha o desejo de conhecer um pouco mais sobre as minhas origens ancestrais, e esse desejo só aumentou conforme o tempo foi passando. O tema sobre memória, história e identidade sempre foi, para mim, algo bastante complexo. Era como se eu não encontrasse neste tempo as respostas que precisava, como se algo não encaixasse bem. Como se tudo o que eu tinha conquistado fosse ainda incompleto, porque vivia sempre com um sentimento de falta, com um sentimento de não pertencimento a este tempo e lugar. Foi então que pude compreender que toda essa sensação de falta não dizia respeito a mim, mas às gerações que me precederam.

Diferentemente dos asiáticos e até mesmo das civilizações mais antigas, o povo ocidental não é muito de honrar a memória ancestral, eu diria quase nada. E, quando falo em memória, não digo a memória subjetiva, mas a atemporal, aquela que se constrói e que se consolida no presente, que passa pelo passado e que pode ser possível para alguns reescreverem suas histórias ancestrais pautados em hipóteses, tendo em vista que grande parte dos nossos ancestrais sofreu um grande apagamento histórico devido, inclusive, ao processo de escravidão e de abusos psicológicos, sexuais e de todos os tipos de tortura, violência e invasão que esta terra sangrenta já viveu.

Por sugestão de uma amiga, encontrei um site dos nossos irmãos mórmons chamado “FamilySearch”, e aquilo que, no começo, parecia somente passatempo de um jovem curioso passou a se tornar coisa séria. Comecei construindo minha árvore genealógica de baixo para cima, ou seja, do presente para o passado. Incluí meus pais, meu irmão, meus avós paternos, avós maternos, bisavós, tios e assim sucessivamente. Algumas pesquisas se estagnaram, cheguei somente nos meus bisavós e nada mais. Nenhuma outra informação, infelizmente. Isso se deve ao fato do que já coloquei anteriormente: apagamento histórico. Parte dos meus ancestrais é de origem indígena e africana, e o mais próximo que consegui chegar foi nas histórias que ouvia dos meus avós sobre a infância, a história e a cultura de seus avós. Por vezes, pensei em desistir, mas algo dentro de mim dizia que eu deveria continuar. Mesmo cansado, algo me impulsionava a continuar uma fonte de pesquisas. E assim, como na música do grande e atemporal Tim Maia, me tornei descobridor dos sete mares. Em cada pesquisa ou registro histórico que encontrava pelo caminho, nascia uma possibilidade de poder imaginar e recontar uma história esquecida. A história do meu povo, da minha família, dos meus ancestrais.

Graças a esta foto, cedida por uma prima da minha avó materna (foto que ilustra esta publicação), consegui chegar ao nome da minha pentavó: Maria Ribeiro da Soledade, da qual não tenho registro de nascimento ou falecimento, mas, de acordo com o pensamento do historiador, musicólogo e teórico musical ganês Victor Kofi Agawu, a história não é estática.

De acordo com o autor, a tradição não deve ser compreendida como algo estático ou imutável, pois ela se transforma à medida que as sociedades mudam, incorporando novas experiências, influências, elementos e formas de expressão, sem necessariamente perder sua relação com o passado. E, mediante a esse pensamento filosófico, comecei a pensar que os registros orais, os registros fotográficos e tantos outros documentos, tais quais destaco alguns: certidão de nascimento, de falecimento, de casamento e de batizado, talvez sejam possibilidades que me ajudariam na compreensão das minhas origens ancestrais.

Foi assim que consegui chegar ao registro mais antigo de uma ancestral do século XVII, datado de 1625, de nome Felicia Pátria, oriunda de Portugal e sem informações de cônjuge. O que me fez pensar em como ela vivia, nos abusos que certamente sofrera por se tratar de uma mulher e na forma como compreendia o mundo. Fiquei pensando se suas convicções religiosas eram as mesmas do Ocidente, ou se consigo trazia uma força e um saber ancestral milenar. Felicia teve um filho, de nome Salvador Francisco Ribeiro, nascido em Cortegaça no ano de 1650. Me pus a pensar na infância de Salvador, nos preconceitos que ele também sofrera, nas dificuldades e nos traumas que herdou. Ou nas oportunidades que lhe foram permitidas, nos amores e na história que construiu. E, a partir, pelo menos ao que se sabe, desses dois sobreviventes da minha história ancestral, é que pude, aos poucos, me dando conta das minhas reais origens. Esse site me trouxe muitas verdades, levantou, inclusive, alguns fatos históricos já esquecidos pela minha avó, e que nos fez recordar lembranças bastante amargas, mas que são necessárias vir à tona para que haja uma espécie de acerto de contas com o passado. Afinal, aquilo que não se trata, que não se resolve, vira situação mal resolvida e, anos mais tarde, um problema daqueles difíceis de resolver. Por isso, a necessidade de resolvermos nossas pendências, nos conectando com a energia dos nossos ancestrais.

Francisco deu origem a Agostinho Ribeiro, nascido em 1645 e falecido em 1705, no Mosteiro de Vieira do Minho. Que é pai de João Ribeiro de Carvalho (1671, Braga), que gerou Antônio Ribeiro de Carvalho, nascido em 17 de maio de 1708, no Mosteiro, em Vieira do Minho, Braga, e falecido em 12 de maio de 1766.

Até o início de uma nova trajetória, que mais tarde daria origem à minha geração. Antônio Ribeiro de Carvalho é pai de Antônio José Ribeiro de Carvalho, que nasceu em 18 de agosto de 1732, em Rossas, Vieira do Minho, Braga, Portugal. Mas teve sua história marcada por uma importante mudança geográfica na trajetória familiar. Antônio José veio para o Brasil sem uma possível data. A única informação que temos é que faleceu em 1º de junho de 1803, na cidade de Pouso Alto, Minas Gerais, Brasil. O curioso é pensar que Pouso Alto é relativamente perto de Piquete, onde se dá a origem à geração da minha avó e dos meus pais.

E, desde então, no estado de Minas Gerais, nasceu Alferes Miguel Ribeiro de Carvalho, em 1774, na cidade de Pouso Alto, tendo falecido em 1º de setembro de 1816, em Itajubá. Miguel deu origem a Francisco Ribeiro de Paula, nascido em 1802, em Pouso Alto, onde também faleceu em 17 de dezembro de 1877, até chegar à minha pentavó, D. Maria Ribeiro da Soledade, cuja documentação disponível ainda não permite precisar as datas de nascimento e falecimento, mas que me faz crer que nasceu em Itajubá e por isso seu sobrenome é “Soledade”, uma vez que Nossa Senhora da Soledade é a padroeira de Itajubá-MG, e homenagear um filho com nome e sobrenome de santo era um costume muito peculiar no final do século XIX. 

Maria Ribeiro da Soledade é mãe da minha trisavó ou tataravó (como alguns dizem), chamada Rita Ribeiro da Conceição. Seria ela nascida em Conceição dos Ouros (MG), e, por isso, assim como sua mãe, seu nome é em honra à Virgem, do título Nossa Senhora da Conceição? Perguntas muitas vezes sem respostas. Ao menos, graças a uma certidão de óbito, consegui chegar à data de nascimento e falecimento da minha trisavó Rita. Ela nasceu em 1896 e faleceu em 26 de maio de 1948, em Piquete, no estado de São Paulo. É curioso pensar que minha avó Leonídia, que é sua neta, sempre me contou histórias que aprendeu com a sua avó Rita. Segundo ela, sua avó, apesar da vida sofrida, de ter levado um golpe logo após o falecimento do marido porque era analfabeta, migrou-se para Piquete com os filhos, que por lá já residiam por conta dos avanços significativos da Fábrica Presidente Vargas, que, diga-se de passagem, ceifou muitas vidas. Essa avó era do tipo, a típica, daquelas que brincavam com os netos, que contava histórias escabrosas e que, principalmente, valorizavam o que hoje algumas pessoas perderam de vista: o tempo de qualidade.

Rita Ribeiro da Conceição não teve uma vida longeva, faleceu com apenas 52 anos. Mas, sem dúvidas, soube viver. Ela é mãe da minha bisavó, Esmeraldina Ribeiro Alves, que nasceu em Virgínia, Minas Gerais, em 17 de dezembro de 1917. Mulher forte, cuja história também teve mares turbulentos e muitas tempestades, mas que jamais deixou de perder a fé na vida e no encontro com Jesus. 

De D. Esmeraldina nasceu minha avó, Leonídia Ribeiro Leite, no dia 15 de fevereiro de 1943, em Piquete-SP. Leonídia permanece viva como uma testemunha dessa história e como elo entre as gerações que a precederam e aquelas que vieram depois dela. E é graças à força de tantas mulheres que cheguei a este plano, através da minha mãe Sandra Regina Ribeiro Leite, cujo nome é de origem grega e latina, e significa “aquela que protege” e “rainha”.

Ao olhar para essa sequência de nomes, percebo que uma história genealógica é muito mais do que uma árvore formada por datas e parentescos quaisquer. A genealogia é uma espécie de caminho ou fenda aberta no tempo. Pude perceber que, de certo modo, estive em terras portuguesas, atravessei o Atlântico, encontrei o sul de Minas Gerais e pude chegar ao Vale do Paraíba, à minha doce Lorena.

São quatro séculos de história entre os primeiros nomes conhecidos e a geração atual. Quatro séculos de encontros, partidas, dores, perdas, alegrias, amores e novos recomeços.

Talvez não seja possível conhecer todas as nossas histórias escondidas por trás de cada nome que um dia existiu. Há muitas lacunas, muitos documentos incompletos e outros perdidos, muitos registros sem datas, muitas fotografias que já não existem mais. Mas essas lacunas também fazem parte da nossa genealogia. Elas nos lembram que a memória humana é imperfeita e que cada geração recebe apenas uma pequenina parte da história de gerações que nos precederam para, então, preservá-la e transmiti-la adiante.

Portanto, concluo que minha geração não termina em mim. Sou apenas um elo dessa longa corrente. Carrego em mim nomes que vieram e histórias de longe, pessoas que atravessaram fronteiras e criaram memórias que sobreviveram ao tempo, dando esta oportunidade de transformar e incorporar experiências, influências diversas, sem perder a relação com o passado.

Eu nasci em Lorena, lugar das Goiabeiras e de Nossa Senhora da Piedade, como bem definiu o historiador Azevedo Marques. Mas minha história começou muito antes do meu nascimento. Ela começou nos vilarejos litorâneos e nas aldeias de Portugal, passou pelo sul de Minas até me encontrar.

Sou, de certa maneira, a continuidade de todos eles que um dia aqui estiveram. Agradeço àqueles que vieram antes — porque, mesmo sem conhecê-los, há algo que nos une: o sangue ancestral. 

E, assim, a vida segue seu curso natural, a história continua a ser contada e resignificada.

Gratidão pela vida! Gratidão aos ancestrais!

terça-feira, 1 de setembro de 2026

SOBRE LUGARES, PESSOAS, RECORDAÇÕES E INSTANTES


Por: Rafael Victor Ribeiro

Entre lugares, pessoas, recordações e instantes, a vida vai deixando pequeninas marcas pelo caminho. Algumas cabem em fotografias; outras não cabem em lugar algum, senão na memória e no coração — lugar onde encontram morada. São encontros, desencontros, silêncios, risos, abraços, choros e pequenos momentos que vão tecendo a história dos nossos dias e dos nossos sonhos.

Hoje, quero agradecer ao mês de agosto por tudo o que trouxe, por tudo o que ensinou e, sobretudo, por tudo o que ficou registrado.

É chegada a hora de saudar setembro. Que sua florada primaveril não floresça apenas nos jardins, mas também no solo fértil do nosso coração, nos nossos pensamentos, nos afetos, nos sonhos e nos caminhos da vida.

Agosto e setembro nos ensinam que podemos acolher o novo sem esquecer a beleza daquilo que passou diante dos nossos olhos. Afinal, nunca foi apenas sobre um mês de travessias, mas sobre o tempo — esse instante que corre sem saber exatamente para onde vai ou como termina.

E talvez seja justamente isso que a vida nos ensina: enquanto o tempo passa, seguimos deixando marcas pelo caminho e, ao mesmo tempo, aprendendo a florescer em meio a um instante chamado vida. 

sábado, 29 de agosto de 2026

TEMPO, CICLO E PESSOAS — REFLEXÕES


"Las dos Fridas" (As Duas Fridas), Frida Kahlo | Óleo sobre tela, 173,5 × 173 cm (1939). 
 Museo de Arte Moderna, Cidade do México, México. 

Aristóteles, em sua obra clássica Ética a Nicômaco, dividiu a amizade em três tipos: a amizade baseada na utilidade, a amizade baseada no prazer e a amizade verdadeira, fundada no bem e na virtude.

Recentemente, comecei a constatar que algumas pessoas do meu ciclo social se aproximavam de mim pensando no que eu poderia oferecer a elas, algo que Aristóteles compreendia como uma amizade baseada na utilidade, na lógica da troca. Já em relação a outras, senti um leve afastamento, quase imperceptível, mas bem visível para quem já aprendeu a ler a vida de outra forma.

Sei que existem amizades que nos conectam com a nossa essência, e o tempo e a distância não rompem as barreiras que um dia foram criadas a partir do laço e do vínculo estabelecidos anteriormente. Nessas horas, você realmente entende o sentido do que é o amor e da constância.

Já em outras relações, a gente entende que a vida é feita de fases e que a energia das pessoas sempre muda. Talvez a minha tenha mudado e, com isso, naturalmente, tenha ocorrido a finalização de um ciclo, e algumas pessoas tenham seguido um curso natural, por caminhos diferentes dos meus.

Mas, nessa reflexão, quero chamar a atenção para aquele tipo de amizade que nasceu de um interesse específico, sustentado pela ideia de utilidade ou de um prazer instável e inconstante.

Nos últimos dias, tenho passado por um processo de metamorfose, e dizem que, a cada cinco anos, ocorre um encerramento de ciclo na vida do homem. E, junto desse encerramento, como a fênix da mitologia grega, nasce uma nova etapa da vida. Ou seja, da morte de um ser para a vida. Ou, como descrito no livro de Eclesiastes: “Há um tempo para todo propósito de Deus debaixo do céu.”

Quando o ciclo de amizades muda, a gente acolhe, respeita, agradece pelo tempo que se passou e deixa ir aquilo que um dia fez total diferença na nossa vida, fosse essa diferença boa ou ruim.

Afinal, ninguém aparece por acaso. A vida, às vezes, exige circunstâncias adversas que são atravessadas por pessoas forjadas na luz e na sombra, para fazer de nós pessoas mais maduras e, de certo modo, mais fortes e resilientes.

Nesse meu processo de mudança estética, de uma nova vida gerada por meio do ingresso em um curso importante, percebi o afastamento de certas pessoas. Talvez porque essas pessoas tenham se aproximado por algum interesse específico, ou porque querem nos ver bem, mas nunca, em hipótese alguma, melhor do que elas.

Esta reflexão não é para fazer alusão à ideia de um lamento em si, mas, sim, uma síntese sobre o quão complexa e incompreendida é a humanidade.

Senti isso, inclusive, na forma como algumas pessoas me tratavam e na maneira como passaram a me tratar. Senti nos boicotes em determinadas situações da vida, no olhar discreto e sutil, nos comentários passivo-agressivos, que são quase imperceptíveis, mas perceptíveis e sensíveis ao olhar daqueles que aprenderam a ler a vida, os gestos e as pessoas.

A gente se chateia um pouco, porque, de alguma parte, sempre houve sinceridade em tudo o que sentíamos, mas a gente não controla as emoções e os sentimentos alheios, e talvez nosso grande defeito enquanto seres humanos seja sentir demasiadamente. 

De uma coisa a gente tira dessa lição toda: a vida passa, as pessoas vêm e vão embora, mas só sobrevivem aqueles que suportam a sua felicidade e as suas conquistas.

Estar ao lado de alguém nos momentos de tristeza e amargura é fácil; permanecer ao lado nos momentos de felicidade extrema é que é bem difícil. Talvez esse seja o maior desafio do ser humano enquanto habita este plano e talvez também seja este um dos grandes desafios da nossa efêmera humanidade, como tão bem expressou o poeta atemporal Gonzaguinha:

“Fé na vida, fé no homem, fé no que virá!”

No fim das contas, é mais sobre a lealdade daqueles que um dia juraram caminhar do seu lado, sobre como resignificamos a vida e as pessoas ao nosso lado, do que sobre a atitude de cada um durante o percurso do nosso caminhar.

Que consigamos viver a nossa frágil e passageira humanidade em sua integralidade, acolhendo os encontros, respeitando os desencontros e compreendendo que cada pessoa deixa em nós aquilo que, de algum modo, precisava deixar.

Vivendo e aprendendo.

Autoria: Rafael Victor Ribeiro

domingo, 9 de agosto de 2026

É OITO OU OITENTA: MEMÓRIAS DO PAPAI (SR. LUIZ CLÁUDIO DA SILVA ROSA)


Esse é o papai, Sr. Luiz Cláudio da Silva Rosa — conhecido por muitos como o Sr. Rosa —, um homem de origem simples e humilde, de personalidade forte e marcante. Com o papai, como se diz no popular: “É oito ou oitenta!” ou "ama ou odeia!" 

Papai tem descendência indígena e africana. Teve como referência paterna, até os quinze anos, seu pai, Antonio Rosa — meu avô, que só conheci de nome e sobrenome —, que não era seu pai biológico, mas foi quem o registrou e o educou, de modo que ele se tornasse um homem honrado e honesto. Papai teve uma infância conturbada no interior paulista, entre às cidades de Lorena e Piquete, criado em meio aos cavalos, às vacas, ao pasto e ao tradicional angu com leite e açúcar que minha avó fazia para alimentar os filhos. 

Desde muito cedo, aprendeu valores dos quais eu me orgulho hoje: ética, moral, humildade, autenticidade, trabalho e serviço. Papai não foge de nada, não tem medo de nada, e sua vida é a prova viva de que algumas pessoas nasceram justamente para desafiar e contradizer o sistema.

Na minha adolescência, tivemos alguns conflitos. Afinal, assim como ele, eu nunca gostei que me ditassem regras (mal de artista). Felizmente, o tempo passou e, de lá para cá, com a maturidade, aprendemos a respeitar as nossas diferenças — que são muitas!

Papai foi criado na fé católica, muito embora sua mãe, que é minha avó, Laura, não fosse religiosa e carregasse consigo saberes antigos de seus ancestrais, o povo da Kaingang. Quando conheceu a mamãe, papai se converteu ao protestantismo. Hoje tem um lado espiritual independente de religiões, mas o temor ao Deus Criador nunca perdeu. Formou-se bacharel em Teologia, mas nunca foi pastor e nunca gostou desse título, sempre teve aversão a esse rótulo, muito embora algumas pessoas se referissem a ele dessa forma, e buscassem aconselhamento pastoral sempre. 

Na adolescência, papai trocou os estudos pelo trabalho, pois nunca gostou de seguir regras impostas. Eu, através dos meus achismos presunçosos, o “diagnostiquei” com “TOD” — Transtorno Opositor Desafiador. E o pior é que ele gostou do nome e sempre cai na risada quando digo que ele tem TOD.

Seu primeiro trabalho foi ainda na infância, aos sete anos, como engraxate de sapatos. Também trabalhou em uma olaria de tijolos, foi entregador de leite e de jornais, supervisor de vendas, vendedor de doces caseiros, florista, trabalhou com artesanatos suspensos (móbiles) e também chegou a ser militar.

Hoje, já aposentado, dedica-se à doma racional de cavalos e éguas, que são sua verdadeira paixão e também uma de suas maiores distrações; além de levar e buscar minha mãe e minha avó Leonídia, sua sogra, para eventuais atividades semanais. 

Morador, há quase quarenta anos na Rua Nico Rosa, no bairro São Roque, em Lorena-SP, papai conquistou o respeito, a admiração e até o temor da comunidade, sendo figurinha carimbada no bairro. 

Papai parou de estudar na extinta 8ª série do Ensino Fundamental, mas nunca deixou de adquirir notórios saberes populares. Sempre foi — e até hoje é — um amante voraz da leitura (somente dos temas que lhe interessam) e dos filmes de ação. Aos 40 anos, voltou a estudar, matriculou-se no EJA e concluiu o Ensino Médio. Desde então, aventurou-se em vários cursos livres, dos quais destaco apenas alguns: Investigador Social, Programa de Reabilitação de Pessoas durante o Processo de Dependência Química, Doma Racional de Cavalos, Programas de Vendas, Comunicação e Marketing, entre tantos outros.

Há mais de vinte anos, papai dedica-se, voluntariamente, às terças-feiras à noite, a Casa de Recuperação de Guaratinguetá, dirigida pelo Sr. Herli. Lá, promove momentos de espiritualidade terapêutica por meio de uma leitura popular, reflexiva e compartilhada da Bíblia.

Papai não é do tipo que demonstra carinho e afeto por meio de abraços ou de carinho. Nos meus trinta e cinco anos de vida, nunca o vi derramar uma lágrima, nem mesmo por ocasião do falecimento da minha avó Laura, sua mãe, em 2017. Penso que a vida o fez ser forte demais, e seus sentimentos acabaram não ficando tão visíveis. Mas creio que isso não quer dizer que ele seja gélido de coração, até porque cada um lida com os seus sentimentos da maneira que melhor lhe convém.

Papai não tem tantos conhecimentos de mundo sobre as artes e sobre a cultura em geral. Mas sempre me ensinou que o que ele poderia deixar de herança para mim e para meu irmão, Luiz Cláudio Junior, seria o estudo, o caráter e o trabalho, pois são eles que enobrecem a vida do ser humano em sua máxima expressão.

Papai dizia: “É preferível uma caneta em mãos do que uma enxada. Por isso, estudem!”

E acredito que seja por isso que hoje eu já acumule nove títulos acadêmicos entre técnico, graduações e pós-graduações — e não tenha parado por aí, pois atualmente curso Mestrado em Musicologia pela UFRJ - Universidade Federal do Rio de Janeiro. 

Em uma época em que pouco se ouvia falar sobre ecumenismo, papai e mamãe nos educavam para que pudéssemos respeitar todas as crenças, todos os tipos de pessoas e todas as correntes interpretativas da religião. Tanto é que papai tem amizade com umbandistas, ateus, católicos, judeus, árabes etc. E creio que isso me fez ser quem sou hoje: um defensor ferrenho do diálogo ecumênico e inter-religioso.

Apesar de sua simplicidade de homem do interior, papai também sempre me incentivou a amar as artes, especialmente a música. Tudo o que sou devo a ele e à mamãe. Seu sonho era que eu me tornasse militar da mais alta patente, mas o contrariei e segui um caminho mais refinado e artístico.

Hoje, papai tem 61 anos e passa mais tempo no sítio, cuidando do Valentim (seu cavalo de estimação), do que em casa. Como todo ser humano, em sua imperfeição, papai tem muitas qualidades e uma história que merece ser respeitada.

Agradeço por todos os seus ensinamentos, sempre pensados para o meu melhor.

Vida longa, papai!

[Publicado nas redes socias do Instagram e Facebook no Dia dos Pais/Father’s Day, 2026]

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

O RESSOAR DO ÚLTIMO ACORDE - Homenagem póstuma ao amigo Carlos Guimarães Neto

 

O RESSOAR DO ÚLTIMO ACORDE

Por: Rafael Victor Ribeiro


 Falecido em 20 de Junho de 2026

[Imagem gerada por inteligência artificial inspirada nas produções artísticas de Romero Brito]

            Há pessoas que passam pela nossa vida fazendo barulho, já outras passam em silêncio, mas deixam uma presença tão profunda e marcante que quando partem, caímos em si do tamanho do espaço que ocupavam em nós.

            Neto era assim. Homem de poucas palavras, reservado, silencioso, exigente consigo e com os outros, zeloso com tudo o que fazia e quase sempre obstinado a buscar perfeição das coisas. Mas, bastava um pouco mais de intimidade para perceber que, por trás daquele semblante sério e intimidador, havia um homem de coração imenso. Neto não fazia parte oficialmente do Coral Regina Caeli – muito embora o regente não se cansasse de convidá-lo – mas, de alguma forma, Neto pertencia a este coral.

            Pertencia porque acreditava no grupo, porque apoiava, porque servia... Era ele quem preparava deliciosos jantares para os aniversariantes, quem abria as portas do seu sítio para receber os paroquianos, quem se alegrava quando a casa estava cheia. Neto gostava de ver gente, de ver alegria, de ver pessoas reunidas celebrando a vida. E, quando demorávamos a aparecer, ele cobrava:

            – “Você está sumido, não aparece mais, não senta pra tomar café, não almoça mais com a gente!” Esse era o jeito dele dizer: “Vocês fazem falta aqui!”

            Hoje entendemos melhor o significado daquela cobrança, era a despedida que não aconteceu.

            Seu sítio no bairro Santa Lucrécia era mais do que um lugar para o Neto, era a extensão da sua alma. Ali estavam sua sensibilidade, seu gosto pela beleza, seu cuidado em cada detalhe, sua paixão pela natureza, pela decoração e pela boa mesa posta e farta. Ali ele cozinhava, organizava, recebia, cuidava. Ali ele servia.

            E, talvez essa seja uma das palavras que melhor definiram sua vida: Serviço e cuidado.

Neto cuidou dos pais até o fim. Cuidou dos amigos de longa data. Cuidou dos espaços. Cuidou dos encontros. Cuidou daquilo que amava. Era também um homem de fé, devoto de Santa Edwiges, quis que sua própria casa no campo tivesse uma capela dedicada a ela. E aquele espaço, que poderia ter sido apenas seu, tornou-se lugar de encontro, de orações, de partilha e espiritualidade que uniu tantas pessoas.

            Seu sítio tornou-se, de certa maneira, uma casa aberta. E talvez seja justamente isso que mais doa agora: saber que aquela porta continua existindo, mas que quem tantas vezes a abriu não está ali para nos receber.

            Neto cumpriu sua Páscoa no dia 20 de junho, e nós, seus amigos do Coral Regina Caeli, carregamos também uma pequena dor: por circunstâncias da vida, muitos de nós não conseguiram estar presentes na sua despedida para lhe prestar a homenagem que gostaríamos.

            Por isso estamos aqui. porque existem despedidas que não acontecem no momento exato em que a morte chega, algumas precisam de tempo. Precisam que a saudade amadureça. Precisam que o silêncio encontre um lugar para repousar para que, finalmente, encontremos palavras capazes de dizer aquilo que a ausência ensinou.

            Rubem Alves, certa vez escreveu que: “a saudade só floresce na ausência”, e talvez seja o que estamos experimentando. A ausência do Neto fez florescer a saudade. Saudade da mesa cheia, saudade das cobranças, saudade daquela presença discreta, silenciosa, saudade daquele último olhar...

            As Sagradas Escrituras nos recordam, que: “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu: tempo de nascer e tempo de morrer [Eclesiastes 3,1-2].

            Nós sabemos disso, sabemos racionalmente. Sabemos que a vida tem um começo e que, um dia, inevitavelmente, encontrará seu fim. Sabemos que somos peregrinos em terra estrangeira, e que o coração não aprende a finitude da vida como do mesmo ponto de vista da razão. Por outro lado, a fé nos ensina que a morte não é a última palavra. E São Paulo nos recorda por meio da sua carta aos I Coríntios 13,8 que o “amor jamais acaba”, o amor venceu a dor, e a própria morte foi vencida.

            Rubem Alves, refletindo sobre a morte, escreveu: “A morte é o último acorde que diz está completo!” Talvez nossa vida seja mesmo como uma grande composição musical: Há notas que muitas vezes não entendemos enquanto tocadas, não compreendemos sua harmonia complexa; há pausas; momentos de tensão e outros de relaxamento, e um dia, daqueles em que não espera o óbvio, o último acorde chega. Mas é porque a música termina que cada nota ganha sua importância dentro da estrutura harmônica chamada vida.

            Neto foi assim, compôs a própria vida no seu ritmo, com suas particularidades, fazendo da arte de reunir pessoas uma maneira de harmonizar a própria alma.  

            No ano passado, durante um dos ensaios preparatórios do recital do Coral, Neto interceptou nosso regente, Rafael, e comentou sobre uma música que havia acabado de ouvir. Era o “Ave Maria”, de Julio Caccini. Neto disse que aquela música o transportava aos céus. Contou que nunca havia escutado uma melodia tão linda antes. Talvez ele não soubesse, que naquele momento estava deixando para nós uma espécie de última mensagem. Porque hoje somos nós que ouvimos essa música e nos lembramos dele.

            Nesta noite, queremos fazer dessa canção, uma oração por um amigo que encontrou beleza na vida através do seu amor pela natureza, pela mesa cheia, pela amizade fraterna, pela fé e, sobretudo, pela presença das pessoas.

            Gostamos de pensar que a música que tanto o emocionou seja justamente uma oração dirigida a Maria, que a tradição cristã invoca como Mãe da misericórdia. Aquela que esteve junto à cruz, que conheceu de perto a dor da perda, aquela que aprendeu que amar é, muitas vezes, permanecer diante de um mistério sem ter todas as respostas.

            Neto não foi perfeito, ele foi humano. Com suas virtudes e seus limites, com suas exigências e convicções e sua maneira de demonstrar afeto. Mas foi também alguém que, dentro de sua humanidade, procurou oferecer o melhor aqueles que amava, e isso basta. Neto fez isso muitas vezes: servindo, recebendo, cozinhando, cuidando.

            Hoje, nos queremos dizer obrigado. Obrigado, Neto, por cada porta aberta. Por cada refeição preparada, por cada encontro, por cada gesto de carinho e cuidado. Por cada cobrança que hoje virou saudade. Obrigado por ter acreditado no nosso coral, mesmo sem jamais ter vestido oficialmente nossas cores.

            Que Santa Edwiges, a quem você dedicou um lugar tão especial nesta terra, interceda por você diante daquele que venceu a morte e que é a própria Vida: Jesus.

Ave Maria, cheia de graça...

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

SOBRE A GRAÇA DE ENCONTRAR UMA IRMÃ PELO CAMINHO

Lorena, 03 de agosto de 2026. 
À Ritinha, querida.

Bem, dizem que as boas amizades começam quando um não gosta do outro de cara. E falo isso nem por mim, porque, logo que você chegou à Igreja Metodista, eu não tinha absolutamente nada contra você. Na verdade, você me conhecia de vista, mas, até então, você era praticamente invisível para muáh. (kkkk)
Mas me recordo do dia em que cheguei ao rol de entrada da Igreja para participar de uma celebração dominical, e você falou comigo pela primeira vez dizendo que eu estava sumido dos cultos. Acredito que foi ali que nasceu a nossa amizade. Desde então, passamos a dividir o mesmo neurônio em muitas etapas da vida.
Só pra constar: como um bom ex-metodista que sou, estou escrevendo este texto quatorze dias antes do seu aniversário. Ultimamente, minha terapeuta tem me feito pensar sobre a importância que algumas pessoas têm na minha vida, e você é aquela espécie de irmã mais velha meio "descabeçada, atrapalhada" que a vida resolveu me dar. E, apesar de todos esses anos de amizade, não temos praticamente nenhum registro fotográfico juntos. Talvez porque eu acredite que os melhores momentos são aqueles que a gente eterniza na memória e no coração, sem se preocupar com flashes... apesar de você não ser nada low profile, eu diria que uma das melhores blogueiras que sigo.  Provavelmente coisa do seu jeitinho leonino exibido de ser (jeitinho que eu amo!). kkkkk
Ritinha, era pra ser uma mensagem simples de aniversário, mas senti que, neste ano, eu precisava fazer diferente. Por isso estou aqui, caçando palavras para falar de você, como nos tempos dos depoimentos do finado Orkut.
Pensar na sua importância pra mim é, acima de tudo, pensar que a nossa conexão vai muito além desta vida... ou de outras, caso elas existam. Você é aquela amiga-irmã que Deus, na infinita sabedoria d'Ele, fez questão de colocar alguns anos à minha frente. Porque não ia prestar se a gente tivesse a mesma idade ou se tivesse se conhecido na adolescência.
Escrevo este texto com um profundo sentimento de pertencimento, como se eu tivesse licença para falar de você e até para defendê-la de certos falatórios, assim como seu lado leonino já me defendeu tantas vezes da maldade de gente "boa."
Quando penso em você, penso em serviço. Penso em alguém cujo coração é tão grande que encontra espaço até para ajudar quem não merece, mesmo que a vontade de mandar certas pessoas para o Hades nas mãos de Caronte e sem direito a moedinha, seja gigantesca. (KKKkk)
Muitas vezes, ao longo dessa efêmera existência, vamos perdendo um pouco do brilho de ser e nos esquecendo da grandeza que carregamos. E essa verdadeira "Convenção de Genebra" que estou escrevendo aqui serve justamente para lembrar da mulher gigante que você é. E não estou falando do seu peso — porque sei que, assim como eu, você também não é exatamente levinha. Kkkkk
Falo da grandeza da sua história. Do quanto você me edifica. Do quanto você ilumina a minha vida e a de tantas outras pessoas. Do quanto Deus contempla o seu esforço em tudo o que faz: na sua arte, na dedicação à sua casa, no cuidado com os seus filhos, com o seu sobrinho, com o marido, com os amigos e com qualquer pessoa que precise de um pouco do amor que transborda do seu coração.
Ritinha, o aniversário é seu, mas quem ganha o presente sou eu: a sua vida!
Tenho a graça de ter você por perto todos os dias, mesmo que a gente não se encontre com tanta frequência. Afinal, todos os dias a gente se fala, nem que seja para trocar memes, fazer nossas críticas existenciais ou falar mal daquele povo quadrado, sem graça e sem sal.
Em 2017, quando perdi minha avó paterna, Laura, você esteve ao meu lado. E nunca me esqueci do que você me disse durante a exéquias dela:
"É, meu amigo... Agora você ganhou uma ancestral. É hora de honrar a memória dela."
Acho que foi ali que começou, sem que eu percebesse, esse caminho de valorização da minha identidade, da minha história e da memória dos que vieram antes de mim.
Vivemos muitas coisas juntos. Você me ajudava nos almoços que eu coordenava na Igreja, me ajudava nas festas da EBF das crianças, nas celebrações ecumênicas, nos aniversários da Igreja, nas homenagens aos membros e clérigos... Enfim, você sempre esteve presente. Sempre.
E, no meio de tudo isso, percebi que nem consigo me lembrar exatamente de como "saí do armário" para você. Acho que foi tudo tão natural que sequer precisou de um grande ritual e de uma convenção. E olha que nós dois adoramos uma boa ritualística, não é? Convenhamos... um DNA de bruxinha a gente tem. E, por falar em "bruxinha", adorei o seu jardim suspenso com cara de altar da deusa Hécate. Se foi intencional, eu não sei; só sei que amei. E, já que estamos falando de bruxinhas, fama disso eu tenho de sobra... e tenho certeza de que você já me livrou de várias fogueiras do povo evangê. Kkkkk
Rita, neste novo ciclo que se inicia, quero desejar que você nunca perca aquilo que faz de você quem é. Que a vida continue sendo generosa com os seus sonhos, que Deus fortaleça os seus passos e que, todas as manhãs, quando a luz do sol atravessar a sua janela, ela também atravesse o seu coração, lembrando que sempre existe um novo motivo para recomeçar.
Que você nunca deixe de acreditar na beleza da vida, mesmo quando ela parecer pesada demais. Que jamais lhe falte esperança, pessoas sinceras ao seu redor, boas risadas, mesas fartas, café passado na hora, abraços demorados e motivos para continuar servindo ao mundo com esse coração imenso que você tem.
E, quando o cansaço tentar convencer você de que fez pouco, lembre-se de que há pessoas — como eu — que são fruto do amor que você espalhou sem nem perceber.
Obrigado por existir. Obrigado por permanecer. Obrigado por ser abrigo, conselho, gargalhada, acolhimento e presença.
Se um dia me perguntarem o que é uma amizade verdadeira, talvez eu não saiba explicar. Mas certamente vou saber apontar para você.
Feliz aniversário, Ritinha.
Que Deus continue escrevendo a sua história com a mesma delicadeza com que moldou seu coração. E que, quando os anos passarem e as nossas memórias forem maiores do que os nossos dias, a gente possa olhar para trás com a alegria de quem viveu uma amizade bonita, rara e daquelas que o tempo jamais consegue diminuir.
Amo você. Feliz vida.