Por: Rodrigo Falcone
Levei um ghosting, e isso me doeu profundamente. Não fui intenso; apenas correspondi à altura, acompanhando o fluir das mensagens que trocávamos. No primeiro encontro, tudo pareceu mágico — aquela química rara de início. Foram dias de conversa afiada e intensa, partilha de gostos particulares, mensagens que iam do um simples “bom dia” ao sincero “como foi seu dia?”. Eu era, o tempo todo, resposta para aquilo que ele queria ouvir. Ou talvez eu tenha sentido demais. Ou talvez tenha sido só eu nesse jogo inteiro — um jogo de azar!
Viajei 300 quilômetros para vê-lo. Deixei de encontrar amigos de longa data para colocá-lo como prioridade naquele instante. E, numa quinta-feira despretensiosa, em um jantar simples, regado a bons papos e um vinho de qualidade duvidosa, servido numa taça de espumante — sim, esse foi o nível da cafonice —, trocamos carícias e afetos. Falamos sobre a vida, sobre ancestrais, religiões e destinos. O sexo aconteceu: intenso, carregado de energia e prazer, as vezes romântico, as vezes insano e depravado. Em alguns momentos, o nervosismo tomou conta, e a performance dos dois falhou. Sim, falhou — porque somos feitos de afeto e de cuidado, e nosso erro é criar expectativas demais. Acredito que sentimento até existiu, mas, no turbilhão das emoções humanas, o "Jurandir", se assim posso nomeá-lo, confundiu nos próprios afetos e escolheu a ausência.
A mensagem que eu esperava ao amanhecer não veio. O gesto de carinho, aquele simples perguntar como estava sendo meu dia, também não. Do lado de fora da janela daquele quarto de hotel onde eu estava hospedado, havia apenas chuva e frio. Por volta das 18h20min, chegou uma mensagem em tom gentil, perguntando como havia sido meu dia. Eu soube, naquele instante, que algo havia mudado — e não me refiro apenas à frieza dele, mas à forma como eu mesmo passei a administrar meus sentimentos e compreender que eu não fui de menos nem de mais. Eu apenas fui quem eu sou.
Minutos depois, uma mensagem curta: uma justificativa. O trabalho havia sido puxado, e ele jantaria com o pessoal do serviço. Ali compreendi que alguém tentava colocar sobre mim um peso de responsabilidade emocional que não me pertencia. Coube-me, então, a dignidade e o respeito de reconhecer o lugar que nunca foi meu.
Cheguei a São Paulo numa quinta, que até então era o meu dia preferido, pois foi quando eu nasci. Sofri numa sexta e, ao nascer da aurora de sábado, fiz o caminho de volta à cidade onde nasci — território de afetos, de memórias e de pessoas que me amam. Percebi que essa é a maior riqueza da vida e que, sim, podemos substituir devaneios humanos por sentimentos que realmente importam. Talvez seja por vivências assim que tanta gente deixou de acreditar no amor carnal entre dois seres.
Fiz pelo "Jurandir" o que até então não havia feito por ninguém, porque acreditei naquilo que vivemos. Investi tempo, dinheiro e afeto e, ao final, recebi apenas indiferença. Talvez por isso digam que a indiferença seja o sentido de tudo: ela não frustra, não decepciona — apenas nos devolve à realidade e nos ensina o lugar que nunca foi nosso.
No fim das contas, não permaneci em São Paulo todos os dias combinados, não vivi o que esperava, mas vivi o que era necessário. Com o tempo, compreendemos que algumas presenças não são essenciais; que, um dia, a falta sentida será a sua — e talvez o outro nunca perceba isso. Afinal, você foi você, e quem nasceu para viver no raso jamais compreenderá a imensidão de água que você é.
Hoje dói. Amanhã, provavelmente, também doerá. Mas depois a gente se refaz e continua tentando jogar esse jogo estranho da vida chamado amor.