segunda-feira, 28 de setembro de 2026

A GRAÇA DE ENVELHECER — REFLEXÕES DE MAIS UM ANIVERSÁRIO


A Graça de Envelhecer
Por: Rafael Victor Ribeiro 

Viver é um dom gratuito de Deus, principalmente quando se vive com intensidade e com qualidade de vida, aproveitando tudo aquilo que ela tem de bom a oferecer. 
Considero-me um "sujeito de sorte", bem como definiu o poeta brasileiro Belchior em sua música, pois nasci e cresci nesta terra — lugar das goiabeiras e de Nossa Senhora da Piedade — que, popularmente, também é afeiçoada por esta gente como "terra das palmeiras imperiais" (Lorena). Mas é certo também dizer que cresci entre a serra de Piquete e o bosque de Cruzeiro, que acreditava ser encantado, o que me fez naturalmente, crescer com uma imaginação fértil. 

Recebi boa educação, extremamente rigorosa em que o estudo era parte essencial na nossa criação. Não tínhamos luxo, éramos crianças simples, tínhamos o básico para viver sem excessos, de modo que pudéssemos aprender a valorizar o pouco e com sabedoria. Sou o primeiro neto por parte da família materna e o quinto neto por parte da família paterna. E isso me deu certas vantagens, das quais não pretendo entrar em detalhes. rsrs

Mamãe era exigente e perfeccionista com os meus estudos e, principalmente, no cuidado da casa. Nossa diversão eram os desenhos e programas da TV Cultura, que aguçaram minha sensibilidade artística. Aos domingos, frequentávamos a Igreja, e eu cantava no coralitoh; à tarde, passeávamos na praça; eu adorava tomar o sorvete que o vovô comprava da tradicional "Sorveteria Dallas". Vez ou outra, nosso destino eram os passeios na feira da barganha, e ainda posso me lembrar da minha avó (Laura) negociando suas bugigangas. 

Nas raras exceções: se merecesse, papai nos levava, eu e meu irmão, para um passeio de charrete com pônei na praça Arnolfo de Azevedo. Papai sempre foi bem rígido e sistemático com tudo, e nos corrigia sempre com o que tivesse em mãos, se fosse necessário. Seu lema era: Organizar e disciplinar! O fato é: ninguém apanhava a troco de nada, e eu sempre fui bem afrontoso e desafiador, importante ressaltar. Não é à toa que meu apelido, entre a "boca miúda" da prefeitura, é "Rafael, o causador!". Sem dúvidas, assumo esse título não como alguém que naturalmente arranja confusão a troco de qualquer coisa, mas como alguém que não aceita qualquer coisa, que é crítico, irreverente e meio sem filtro pra gente sem noção. Gosto de pensar que eu não tenho paciência pra quem tá começando, como bem gosta de dizer a atriz Susana Vieira. É aquele ditado: "Fala o que não quer, escuta o que não quer." Sou daqueles que mando de volta o constrangimento sem dó nem piedade. Mas é preciso dizer que nem sempre fui assim; durante muitos anos, engolia a seco. Em casa era fácil ser irreverente, afrontoso e desafiador; na rua era difícil. Por vezes, sofria calado, e anos de terapia ainda não resolveram meus problemas 100%, mas seguimos nos tratando. Com o tempo, a gente vai aprendendo a se impor e se fazer ser respeitado e temido por onde passa. 

De certo modo, sempre fui muito privilegiado. Estudei música e teatro durante a infância e adolescência. Tive excelentes professores e, naturalmente, tenho bons amigos. A escrita sempre foi um dos meus grandes hobbies, e o papai ainda deve guardar algumas de minhas produções autorais da época da 3ª série do Ensino Fundamental. Naquele tempo, eu tinha tantos sonhos, tantos projetos... Alguns se cumpriram, outros desapareceram, e há aqueles que ainda estou a descobrir.

Nosso destino nas férias dos anos 90 era Ubatuba, cidade que, após a morte do vovô Pedro, em 2008, ficou difícil frequentar. E, recentemente, após muitos anos, visitei Ubatuba e, confesso, não me senti bem. Daí me lembrei de um poeta que disse que, se fomos felizes em um determinado lugar, era para nunca mais voltar àquele lugar, justamente para preservar todo sentimento bom que um dia existiu ali.

Meus pais me instruíram na fé protestante, da qual eu recebi toda a minha base teológica e histórica através da influência de minha avó materna, Leonídia, pela Igreja Metodista, já que meus pais passearam por algumas denominações até descobrirem um lado espiritual independente de religiões. A vivência ecumênica sempre foi prerrogativa principal na minha vida, até porque os desafios da unidade cristã sempre estiveram presentes no seio da minha origem familiar, que, religiosamente falando, era bem diversa: Protestantes Tradicionais, Protestantes Pentecostais, Católicos, Espíritas, Umbandistas, ateus, espiritualistas entre outros crenças. E, assim, como Irmão Roger, da Comunidade de Taizé, vivi minha vida toda "cruzando certas barreiras confessionais", o que ele também gostava de chamar de processo de "enriquecimento gradual da fé", ou seja, o ministério da unidade encarnada. Em 2024, me desliguei da Igreja Metodista e, desde então, em determinado momento do mesmo ano, fui acolhido na Igreja Católica, onde tenho procurado viver sob um outro ponto de vista, além de me nutrir do sacramento da Sagrada Eucaristia e da confissão mensal. Isso não quer dizer que joguei no "lixo" tudo o que aprendi das minhas raízes protestantes metodistas, até porque as familiaridades com o catolicismo são muitas, e um querido pastor protestante metodista, amigo de longa caminhada cristã ecumênica, certa vez me disse que a Igreja Metodista é filha da Igreja da Inglaterra, irmã das Igrejas protestantes da Suiça e da Alemanha e, naturalmente, neta da Igreja de Roma. Ou seja, isso tudo é pra dizer que ainda levo comigo muitos ensinamentos que me moldaram enquanto ser humano, um deles, ao qual não abri mão: o ecumenismo e a ação social: "Ora et labora" (Reza e trabalha). Com relação ao tema da Unidade dos Cristãos, a Igreja Metodista é pioneira nessa discussão, e a Igreja Católica, somente após o Concílio do Vaticano II, estabeleceu aproximação com outras ramificações do cristianismo, tornando notavelmente uma Igreja Ecumênica. 

O Credo Social da Igreja Metodista no Brasil estabelece:

"A Igreja Metodista participa dos propósitos de unidade cristã e serviço mundial, do CMI (Conselho Mundial de Igrejas), do Ciemal (Conselho de Igrejas Evangélicas Metodistas da América Latina e Caribe), do Clai (Conselho Latino-Americano de Igrejas) e do Conic (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs); Cremos que a comunidade cristã universal é serva do Senhor, sua missão nasce sempre dentro da missão do seu único Senhor."

IGREJA METODISTA, 2018, p. 50, cap. III, seção II, item 1.

Hoje, no entanto, sigo em outro ritmo, por um caminho distinto, sob outra ótica, o que me faz crer que sou bem privilegiado diante de tantas experiências que moldaram minhas experiências de fé. 

Os anos passam, pessoas vêm e vão. Algumas encerram sua trajetória para esta vida, outras simplesmente seguem um caminhar diferente do nosso, ou por opção, ou por distanciamento, ou qualquer que seja a questão em si. Mas a nossa história não deixa de ser contada, e ninguém aparece e desaparece do nada; cada qual cumpre exatamente o tempo que deveria cumprir em nossa jornada de peregrinação nesse mundão de meu Deus.

Confesso que ainda não me acostumei a estar na casa dos 30+, caminhando para os 40, mas envelhecer é de qualquer forma um dom gratuito de Deus: viver com saúde, ter um bom emprego, claro, apesar das falhas de um sistema de educação falido e, principalmente, dos muitos conflitos existentes na esfera pública, tenho a graça de formar seres pensantes, como dizia Paulo Freire, e é nesse coletivo de cidadãos críticos, criativos e atuantes em sociedade que volto meu olhar para a esperança que não decepciona. Novamente, percebo que, em toda a minha trajetória, tenho cumprido o leva de vida a mim destinado: "Lord, don't let me live in vain", oração do clérigo anglicano John Wesley, que diz: "Senhor, não me permita ter uma vida em vão!"

Desse modo, concluo que minha trajetória é louvável e foi unicamente sonhada e está sob os cuidados e a misericórdia do Deus Altíssimo, ou seja, dom precioso dEle. Claro que nem tudo são flores; as pedras e os vendavais tempestuosos sempre vêm e vão; de certo modo, eles também são movimento, é a vida seguindo seu curso natural e exigindo passagem. Mas, uma vez que depositamos nossa confiança em Cristo, sob o cuidado maternal de Maria Santíssima, da qual fomos gerados espiritualmente, uma vez que guardamos os mandamentos de Deus e de sua semente fomos gerados como seus remanescentes, tudo vai bem. É nos momentos de caos que a gente chega à conclusão de que os turbilhões muitas vezes vêm até nós para que possamos reconfigurar a rota ou simplesmente crescer e evoluir em algumas áreas que Deus sonha para cada um.

Nos últimos dias, descobri alguns dons que nasceram do silêncio e do claustro. Confesso que nunca imaginei que seria possível, e ainda estou me familiarizando com esse novo despertar, que é uma novidade que ainda me assusta. Pode ser que seja passageiro, pode ser que não, e aquilo que nasce no coração do homem é dom precioso de Deus. De uma coisa tenho certeza: em tudo, em todos os meus passos, em todas as minhas escolhas e em quaisquer que sejam os meus devaneios humanos, a presença de Deus sempre está comigo. Desse modo, todas as minhas faltas são supridas conforme Deus acha necessário, e, apesar dos meus excessos de vaidade, que não se pode negar enquanto "libriano" do primeiro decanato (rsrs), sou um homem simples, que sempre foge dos holofotes.

Eu nasci em 27 de setembro, numa quinta-feira, às 06h55min da manhã. E o dia 27, para mim, se tornou especial porque é também o dia em que a Igreja recorda a memória de São Vicente de Paulo, um santo francês, de origem humilde, que abdicou da vida para ajudar os necessitados, pessoas que viviam nos vilarejos rurais e que provavelmente não tinham perspectiva de vida. E acredito que é por isso que tenho forte essa ligação com a natureza e com grande parte de atividades de natureza social. Esse é um legado que carrego comigo, uma força presente diante da história de tantos homens e mulheres fortes, que cresci vendo se doarem aos necessitados.

Envelhecer, portanto, não é apenas contar os anos que se passaram, mas reconhecer tudo aquilo que somos e tudo aquilo que Deus nos permitiu viver, aprender, perder, construir, reconstruir e transformar-se ao longo do caminho mediante a graça Divina. A idade carrega consigo o peso de uma história e, em cada lembrança, a marca de uma vida em plenitude. Cada encontro deixa alguma coisa de nós e leva consigo algo que já não faz mais sentido.

Aos 36 anos, olho para o passado com gratidão e para frente com esperança e fé no que há de vir. Ainda há muito a aprender, muito a sonhar, muito a desejar e muito a percorrer. Ainda há de encontrar pessoas, ainda há de realizar sonhos, adquirir experiências e viver. Se a vida é um dom gratuito de Deus, envelhecer também é graça perene: é a graça de continuar caminhando, aprendendo, servindo e descobrindo, pouco a pouco, o que Deus ainda sonha realizar em nós.

E assim, pela estrada da vida, caminhando e cantando, vou vivendo minha vida, minha música, minha arte e, principalmente, minha fé, além de tantos outros caminhos que a vida ainda haverá de revelar e que, certamente, reserva pra mim. Mesmo sem que saibamos onde cada estrada terminará, confiando que, onde houver vida, haverá também esperança e, a cada novo amanhecer, um motivo para sorrir e agradecer.

Gracias a la vida! 

sábado, 26 de setembro de 2026

CAMINHO DA ESPERANÇA - RITO ECUMÊNICO PARA QUEM VISITA O CEMITÉRIO


[Túmulo do Ir. Roger Schutz, fundador da Comunidade Taizé, França | imagem da internet sem menção de autoria]

ORAÇÃO INICIAL

✠ Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Senhor Deus, Pai de misericórdia, fonte de amparo e proteção de toda a vida, diante deste túmulo, onde repousam os restos mortais de meus familiares, venho recordar, com carinho e gratidão, aqueles que me precederam e agradecer por suas vidas. 

Recebei, Senhor, estas flores, esta singela vela que é símbolo de tua luz em nós, e esta nossa oração como sinais concretos e visíveis da nossa memória, do nosso carinho e amor por tantas vidas e por tudo aquilo que aqueles que aqui jazem transmitiram às gerações que vieram depois deles.

Senhor, fonte de vida e misericórdia, não ofereço essas flores/velas aos falecidos como quem lhes presta culto. Coloco-as aqui porque honro a memória daqueles/as que um dia me deram uma história, uma família e parte daquilo que sou.

Recebei, Senhor, minha gratidão e concedei a todos que repousam neste campo santo a vida eterna em Cristo, nosso Senhor.

Senhor Jesus Cristo, Filho unigênito do Pai, que, pela vossa morte e ressurreição, vencestes o sepulcro, acolhei em vossa misericórdia as almas de meus familiares falecidos e de todos os meus antepassados.

Rogamos-vos, Deus de amor: perdoai-lhes suas faltas, purificai-os de todo pecado e concedei-lhes participar da vida eterna junto de Vós.

E a mim, Senhor, concedei a graça de honrar nossa memória ancestral, vivendo sob a luz do Santo Evangelho, com dignidade, fé e amor.

Que eu possa receber e transmitir às gerações futuras aquilo que há de bom, de belo e verdadeiro na história daqueles que me precederam, procurando viver de modo genuíno a vida que recebi.

E, quando o crepúsculo de minha vida chegar, concedei-me, pela vossa infinita misericórdia, a graça de contemplar a tua Glória Eterna, para que, junto daqueles que partiram antes de mim, possamos um dia vos adorar para sempre.

A nós, que ainda caminhamos como peregrinos neste mundo hostil, concedei a esperança e a fé na ressurreição.

Por Cristo, nosso Senhor, a quem pertencem a honra e a glória, pelos séculos dos séculos.

Amém.

PAI-NOSSO [Oração Universal]

AVE-MARIA [Se for católico]

GLÓRIA AO PAI [Doxologia menor]

"Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo; como era no princípio, agora e para sempre. Amém!"

ORAÇÃO FINAL [Antes de ir embora]

Senhor, nós vos louvamos porque nos destes a vida e, em Cristo, a esperança da vida eterna.

Aos que aqui repousam, confiamos à vossa misericórdia. Acolhei-os na luz da vossa face e concedei-lhes o descanso eterno, enquanto aguardam, em Cristo, a Ressurreição.

Nós, que ainda peregrinamos neste mundo, seguimos o curso natural desta vida, com pessoas a amar e cuidar, trabalhos a realizar, caminhos a percorrer e uma história a contar.

Que a memória daqueles/as que nos precederam nos ensine a viver com fé, amor e gratidão, até o dia em que, pela vossa misericórdia, nos encontremos todos na vossa presença.

Por nosso Senhor Jesus Cristo.

Amém.

AO DEIXAR O CEMITÉRIO [opcional]

Aos fiéis defuntos, pela vossa misericórdia, dai-lhes, Senhor, o descanso eterno na mansão dos justos.

E que brilhem para eles a luz da vossa face.

Que as almas benditas descansem em paz. 

Amém.

✠ Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.


RITO ORACIONAL INDICADO PARA QUEM VISITA O CEMITÉRIO NO DIA DE FINADOS OU EM DATAS ESPECÍFICAS [DIAS DAS MÃES, DIA DOS PAIS, ANIVERSÁRIO DE MORTE DE UM ENTE QUERIDO, ETC].

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

AS PALAVRAS QUE NASCERAM DO SILÊNCIO

As Palavras que nasceram do Silêncio 
Por: Rafael Victor Ribeiro 

Algumas experiências a gente não explica; apenas sente e experimenta. Sobretudo por aquilo que vivemos, permitimo-nos reduzir o ritmo habitual de uma vida que não para e que o tempo todo está sempre de passagem. Nesses últimos dias, tive a graça de visitar e conhecer um pouco da vida monástica de nossos irmãos cistercienses de Itaporanga-SP, na Abadia de Nossa Senhora da Santa Cruz. Cheguei como um visitante forasteiro que ansiava mergulhar, ainda que brevemente, na rotina daqueles homens que escolheram viver sua caminhada cristã em torno do silêncio, do trabalho, da oração e da vida comunitária.

Nessa experiência imersiva, pude acompanhar grande parte da rotina monástica e, desde que cheguei a Itaporanga, vivendo esse experimento de uma fé encarnada no cotidiano, aprendi com meus irmãos algumas palavras que, para mim, descrevem muito bem o perfil desses homens, herdeiros da tradição da Ordem de São Bento.

1ª Palavra: Serviço

Nossos irmãos acolhem a todos com tanta atenção e se mostram tão solícitos e generosos que, por vezes, ficamos até envergonhados diante de tamanha honra e generosidade. Ouvi dizer que essa é uma das premissas da tradição monástica: ao acolher cada estrangeiro, acolhem também o próprio Cristo. 

Há algo de muito bonito em experimentar esse acolhimento em um lugar onde a vida parece caminhar em outro ritmo. Somos recebidos sem pressa, sem exigências, como quem nos recorda que também precisamos aprender a acolher, a servir e a reconhecer no rosto do outro a presença de Cristo. 

Sair daqui certamente não será apenas deixar um lugar que nós hospedou, mas também levar um pouquinho dessa experiência de comunhão e, sobretudo, uma maneira própria de viver e acolher aqueles que cruzarem o nosso caminhar. 

2ª Palavra: Silêncio

Nesses dias de retiro, aprendi a silenciar minha mente, meu corpo e meu coração. Entendi que, para buscar uma intimidade maior com Deus, muitas vezes é necessário esvaziar-se de si mesmo, reconhecendo o quanto somos carentes da graça e da misericórdia do Pai.

No silêncio percebi que nem sempre nossas respostas precisam ser imediatas. Deus nos convida a permanecer, a escutar e confiar. Quando silenciamos percebemos aquilo que tantas vezes deixamos passar. 

Esvaziar-se não é deixar de ser quem somos, mas permitir que Deus, fonte mística de amor encontre morada dentro de nós, reconhecendo nossas inquietações e fragilidades, colocando diante d'Ele tudo aquilo nos aprisiona. 

Acredito que a maior das lições destes dias foi aprender que se colocar em silêncio é deixar que a presença de Deus nos alcance. 

3ª Palavra: Oração

Muito embora a tradição cristã sempre tenha afirmado que a prática da oração é fundamental na vida de todo cristão, aprendi que, para rezar, é necessário primeiro esvaziar-se. Desse modo, compreendi que o silêncio é um complemento da oração e que a oração também está atrelada à ação secular, ou seja, à vida comunitária.

Aprendi que a oração se prolonga no trabalho, no serviço e nas pequenas tarefas que constituem a efêmera vida.

4ª Palavra: Humildade

A humildade é um dos traços do caráter de Jesus e, por isso, constitui uma das importantes prerrogativas da vida monástica. Durante esse meu retiro, pude perceber o quão mesquinho e pobre eu sou diante da grandeza de um Deus que se faz pequeno pra caber dentro de mim, e o quanto ainda preciso aprender com meus irmãos sobre a verdadeira humildade que brota do íntimo. 

5ª Palavra: Caridade

A caridade é um dos fundamentos da vida cristã e pode ser entendida, a partir da perspectiva bíblica, como o amor a Deus em sua máxima e ao próximo. Jesus resumiu toda a Lei nesses dois mandamentos: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento” e “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22,37-39). Por isso, considera-se que a caridade não se limita à ajuda material em si, mas ela está expressa na compaixão, no perdão, na partilha, no serviço, no cuidado com os necessitados, no respeito à dignidade humana. Assim, viver a caridade é transformar o amor professado em Jesus através de atitudes concretas, buscando sempre o cultivo da paz com o outro e sem olhar a quem você faz o bem. Foi ao observar a caridade explícita no coração dos nossos irmãos monges cistercienses que constatei também uma virtude teologal não apenas oriunda da prática de fazer o bem, mas na forma de amar a Deus e ao próximo, sendo este uma minúscula formiga que seja. 

6° Palavra: Entrega

Toda entrega requer um chamado especial, e esse chamado nasce com o despertar de uma nova vida, conduzida unicamente pela voz mansa e suave da Ruáh, a força do Espírito em nós.

Entregar-se requer esvaziamento pessoal, deixar que Deus te conduza por caminhos muitas vezes incertos, mas estar seguro de que somente a graça dEle é capaz de suprir nossas necessidades. Entregar-se é deixar de tentar controlar tudo à sua volta e permitir que Deus conduza aquilo que, aos olhos humanos, muitas vezes seja impossível sustentar.

Entrega não é desistência, mas um ato de amor e de confiança: quando colocamos nossos medos, desejos e também aquilo que ainda não compreendemos nas mãos do Deus que tudo vê e tudo conhece. Entregar-se é permanecer disponível, fiel e, se preciso for, dar sua vida pelo nome de Cristo, assim como nos ensinaram os santos mártires.

7° Palavra: Escuta

Para escutar, é necessário silenciar. O silêncio nos convida a interromper, ainda que por alguns instantes, o que é exterior e que também ocorre dentro de nós. Por vezes, estamos tão ocupados em responder, em julgar ou simplesmente pensar no que diremos ou o que faremos que deixamos de ouvir. Escutar exige presença e abertura para acolher no íntimo aquilo que Deus deseja comunicar.

Escutar é, de certa maneira, sair de si mesmo para ir em direção ao outro.

Quando silenciamos, criamos um espaço para perceber aquilo que Deus pode nos dizer. Sua voz nem sempre se manifesta no extraordinário; às vezes, ela se revela no simples, podendo ser, inclusive, a presença de alguém, ou de uma palavra, de um gesto ou até mesmo naquilo que não é dito, mas é sentido e experimentado.

8° Palavra: Partilha

Aprendi que partilha é muito mais que dividir o pão que temos, mas é colocar em comum o que somos, o que recebemos e o que podemos dividir. Nesses dias imersivos de vida religiosa cisterciense, percebi que vida comunitária é também uma profunda experiência de partilha, o que me fez lembrar de São Martinho de Tours — que cavalgava certa noite sob o frio intenso europeu, quando avistou um mendigo tremendo de frio. Tomado de tamanha compaixão e amor, rasgou sua capa ao meio e ofereceu metade àquele homem que padecia. Tal gesto tornou-se então abrigo, e símbolo concreto do significado da palavra Capela — do latim, “pequena capa”. Que, mais tarde, passou também a designar os lugares de oração, as capelas, espaços onde a presença de Cristo é reconhecida e amada.

A partilha, portanto, é reconhecer que ninguém caminha sozinho e que a vida cristã só encontra sua plenitude quando partilhamos, de modo a transformar em dom o que recebemos e doamos ao outro.

9° Palavra: Obediência

Aprendi que obedecer é um ato de amor, de submissão e serviço. Deus deu ao homem o livre-arbítrio, e cada qual o direito de percorrer um caminhar diferente do outro.

Obedecer requer confiança e, sobretudo, fé. Em 1 Samuel, encontramos uma passagem bem forte: “obedecer é melhor do que sacrificar” (1Sm 15,22). Deus deseja um coração disposto a escutar e a acolher a sua vontade, que é boa, perfeita e agradável para nós que somos "saco de vermes", como bem definiu São Bernardo Claraval, inspirando-se nos textos bíblicos de Jó (25:6); Salmo 22/21:6; Isaías (41:14). 

Na vida monástica, pude perceber que a obediência também passa pelo exercício de deixar de lado a própria vontade para aprender a caminhar com o outro e em comunidade. E em Cristo encontramos o maior exemplo. São Paulo nos recorda que Ele “foi obediente até a morte, e morte de cruz” (Fl 2,8). Nesses dias, aprendi que obedecer não é simplesmente cumprir um combinado de regras e seguir um sistema ou uma ordem imposta, mas aprender a confiar, a silenciar o próprio "Eu" e colocar-se inteiramente nas mãos de Deus. Obedecer torna-se também uma experiência de humildade, entrega e, principalmente, amor.

10° Palavra: Memória

Uma das coisas que mais me tocou durante esses dias de imersão dentro da vida monástica foi perceber como a memória está profundamente presente em todos os momentos da comunidade. E a memória é algo bastante presente na minha corriqueira trajetória profissional enquanto educador, artista e, recentemente, pesquisador do tema. Nossos irmãos cistercienses, além de guardarem e celebrarem a memória da Santíssima Mãe de Deus e nossa, em suas orações, também não deixam de recordar em nenhum dos momentos oracionais os fiéis defuntos, todos aqueles/as que morreram em Cristo. Há algo de muito bonito e especial nisso: compreender que aqueles que foram acolhidos pela irmã Morte, expressão usada por São Francisco de Assis no cântico das criaturas, não foram simplesmente apagados, mas permanecem presentes na oração e na comunhão com a Santa Igreja. A tradição cristã compreende a Igreja em três dimensões: a Igreja Militante, que somos nós, ainda como peregrinos, nesta terra desconhecida; a Igreja Padecente, formada pelas almas dos fiéis defuntos que se encontram no Purgatório e carecem das nossas orações a fim de que sejam purificados para que entrem na glória eterna; e a Igreja Triunfante, constituída por todos os anjos, santos, santas e mártires que já contemplam a Deus e, como uma nuvem de testemunhas (Ap 6, 9-11), estão abaixo do Trono do Altíssimo intercedendo por nós que aqui continuamos.

Assim, a oração dos monges parece atravessar o tempo, mantendo viva a memória daqueles que nos precederam. Aprendi que guardar a memória também é amar a Deus em toda sua plenitude, porque aquilo que verdadeiramente amamos não queremos esquecer. E acredito que esta seja justamente uma das mais belas experiências que tive e que trouxe comigo de Itaporanga: compreender que, na vida cristã, recordar é permanecer em comunhão com Cristo, nosso Senhor.

Por fim, com o coração cheio de gratidão, agradeço aos nossos irmãos cistercienses da Abadia de Nossa Senhora da Santa Cruz pela acolhida generosa, pela hospedagem, pelo cuidado e pela disponibilidade com que me receberam. Foram poucos dias, mas suficientes para levar comigo muitos ensinamentos e uma experiência única de encontro com Deus. Agradeço por cada oração compartilhada, cada conversa, cada gesto de serviço e também pelos silêncios que, de alguma forma, falaram comigo. Retorno à Lorena diferente de como cheguei, levando não apenas boas lembranças, mas também muitas perguntas, aprendizados e um desejo renovado de viver minha fé de uma maneira mais simples, partindo de uma espiritualidade concreta e encarnada. 

Aos meus irmãos, minha sincera e eterna gratidão.

sábado, 12 de setembro de 2026

A CULTURA NÃO É FEITA DE PALHAÇADA

 


As Mulheres de Argel (1955), de Pablo Picasso - Cubismo

A Cultura não é feita de palhaçada
Por: Rafael Victor Ribeiro

A cultura é feita de encontros, de histórias e de raízes ancestrais. São hábitos, costumes e tradições herdadas de um povo que se perpetuam de geração à geração. A cultura interfere diretamente na forma como enxergamos o mundo e como somos enxergados.

Mário de Andrade defendia que o primitivismo cultural brasileiro, ou seja, a cultura nos primeiros séculos de história do país, não era de ordem estética, mas social, o qual procurou confrontar a produção artística do país com a realidade nacional existente em meados da década de 1920, dando então origem a um nacionalismo que se voltava para a própria identidade brasileira e rompia com a submissão aos modelos europeus impostos que foram nossa base referencial por décadas.

Peter Burke, importante historiador, por sua vez, reconhecia a existência de uma dicotomia entre culturas tidas como hegemônicas e subalternas, estando uma historicamente submetida à conjuntura da outra. E, nesse sentido, o autor rompe com o paradigma de uma cultura única, homogênea e hierarquizada, reconhecendo a existência de múltiplas culturas dentro de uma, em constante diálogo, conflito e processos de transformação.

Cultura, portanto, não é aquilo que simplesmente diverte e entretém. Cultura é aquilo que nos constitui enquanto povo vivo. É memória, identidade, pertencimento, resistência e continuidade. Cultura é a maneira pela qual um povo preserva aquilo que recebeu de seus antepassados e, ao mesmo tempo, transforma aquilo que deixará para as próximas gerações.

Clifford Geertz exemplifica a cultura como uma teia de significados na qual os seres humanos interpretam e organizam suas experiências. O autor defende a ideia de que a cultura é uma condição da existência humana. Se considerarmos o pensamento do autor no que diz respeito à forma como o ser humano interpreta a própria vida, reduzi-la à mera “palhaçada” é reduzir a experiência humana a uma vertente caricata.

Podemos considerar que a cultura não está somente atrelada aos museus, às galerias de arte e aos grandes teatros. O conceito de cultura se transforma à medida que as relações humanas vivenciam experiências sociais, políticas, econômicas e religiosas. A cultura está longe de ser um privilégio da elite que sempre dominou o mundo, tampouco é mero sinônimo de lazer e entretenimento. A cultura recorda, transmite, pensa e sobrevive. Funciona como uma espécie de código pelo qual determinado grupo interpreta, modifica, resignifica e decodifica o mundo a partir de si próprio e do meio.

Ressaltamos, então, que a cultura não é feita de palhaçada. A cultura pode nos fazer rir, dançar e celebrar, mas, por trás dessas manifestações chamadas de manifestações poéticas, existem símbolos, pessoas, memórias, identidades e relações de poder.
Essa reflexão pessoal diz respeito à crítica intelectual diante da banalização do conceito de cultura, devido à sua mercantilização, ao privilégio das elites, à polarização política que transformou a cultura em campo de disputa e à perda da dimensão histórica. É importante reconhecer a existência de diferentes formas de expressão cultural, sem retirar delas a sua importância, compreendendo como cada grupo social produz, preserva e transforma suas próprias maneiras de recordar e interpretar uma realidade. 

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

MÊS PRIMAVERIL, MÊS DE SAUDADES!


Mês primaveril, mês de saudades!
Por: Rafael Victor Ribeiro 

Os anos passam,
e a saudade é a mesma.
No mês primaveril,
recordamos a sua presença entre nós.

Virgíniana nata,
Era mulher forte, empoderada,
dona de si,
e de três salões de beleza.

Vaidade, requinte e sofisticação
era sua marca;
delicadeza e beleza seu nome,
família seu sobrenome.

Em você encontrava amor, cuidado e proteção,
Viveu a vida com paixão,
e fez da generosidade e bondade
sua maior marca de carisma e herança entre nós.

Amou sua mãe Celencina até seu último respirar,
amou seus irmãos como uma espécie de irmã-mãe,
amou seu esposo, seus três preciosos filhos,
além dos netos e uma quantidade absurda de sobrinhos.

Esteve junto de nós
nos bons e nos maus momentos,
seu abraço era a nossa casa,
lugar de colo e consolo. 

Nunca conseguiu guardar
mágoa e rancor de ninguém,
e é por isso
que a vida sempre te fizestes tão bela e formosa.

Quando a enfermidade chegou,
encarou com tamanha bravura
a finitude da vida, sem jamais perder a fé
em Jesus e em Nossa Senhora da Piedade, de quem sempre fostes tão devota.

Pra mim, seu sobrinho-neto, era o tipo de "tiavó"
que era um pouquinho de tudo: às vezes somente tia,
às vezes amiga confidente, às vezes mãe amorosa
e às vezes um pouquinho de avó.

Em todas essas fases e versões,
fez questão de amar e escolheu ficar
amou na sua integralidade
despretensiosa

Na madrugada do dia
03 de novembro de 2018,
quando estava internada,
escutei chamar pelo meu nome.

Cheguei a achar que era minha avó,
e como vi que não havia ninguém
me chamando,
cogitei que fosse apenas algum devaneio da minha cabeça.

Hoje entendo que aquela foi
a sua despedida de mim,
e pela última vez você precisava me visitar,
como fez tantas vezes em vida.

Pela manhã, quando o telefone tocou anunciando sua Páscoa,
me recusei a acreditar,
o mundo parou bem diante dos meus olhos,
tudo ficou sem cor e sem vida.

Eu tinha um recital marcado do coro que regia.
Tive todos os motivos pra desmarcar o recital,
mas me pus a pensar
que você jamais permitiria isso,

Você amava a Arte e tudo aquilo que é belo,
e o fato deu ser Artista
era o seu maior orgulho,
como gostava sempre de dizer as suas amigas,

Naquele dia,
reuni as forças que me deu
e fui para o concerto.
Dediquei ele todo à sua memória, e à sua vida em plenitude,

Vida íntegra e bela
vida vivida na sua integralidade humana.
vida de fases, términos e novos recomeços,
Vida que se espera e que se faz ser conhecida e amada.

Sem dúvidas setembro já não é mais o mesmo faz tempo.
Hoje você não está aqui pra receber o meu abraço,
para festejarmos juntos o seu dia como fizemos tantas vezes,

Desde que partiu, perdi um pouco da vontade
de comemorar o meu dia também que ocorre duas semanas depois do seu.
Porque em todos os meus aniversários
a senhora sempre esteve presente, e ainda lido com essa falta,

Felizes foram os que te conheceram
e que conviveram contigo de verdade,
A senhora era apaixonante,
e não havia quem não se encantasse com a sua beleza, e olha que nem me refiro à estética
(muito embora fostes lindíssima), mas a beleza de quem você foi em vida.

Hoje, dia que recordamos o seu natalício,
minha prece é pra que esteja bem,
ao lado de sua mãe, irmãos e esposo
que tanto amou neste plano.

Peço que não se esqueças de mim,
que aqui continuo essa árdua tarefa chamada vida.
Hoje não podemos celebrar a sua vida física,
mas neste dia voltemos nosso coração a sua memória.

Memória que continua viva e presente entre os nós. 
Aproveite a festa aí em cima, querida tia. Porque a gente sempre soube que você amava celebrar o dom da vida, e nesse plano aí de cima creio que não é muito diferente daqui.

Te amo pra sempre,
tivó Leoní!

domingo, 6 de setembro de 2026

A JOVEM E O TEMPO


(Imagem gerada por inteligente artificial)

 A jovem e o Tempo
Por: Rafael Victor Ribeiro 

À margem de um rio,
uma jovem menina encontrou o Tempo.
Não trazia relógio, nem bússola e, quiçá, um rosto envelhecido —
parecia apenas alguém simples, que já havia partido tantas e tantas vezes, e por isso nem fazia questão de estar ali. 

— Por que és tão cruel? — perguntou ela.

O Tempo sorriu, e as águas do rio continuaram passando.

Ela contou seus planos,
as estradas que percorreu,
as aventuras que viveu
e aquelas que deixou para depois e, no final, não fez nada.
Falou das oportunidades que teve,
das oportunidades que se fecharam, das que nunca foram abertas por medo
e daquelas que aproveitou, acreditando
que sabia para onde iam.

— Eu fiz tudo o que pude — disse a jovem.
— Então, por que ainda não sou feliz?

O Tempo olhou para o rio, ficou em silêncio por alguns instantes e disse: 

— Porque viver não é cumprir o roteiro de um filme.
Não há mapa para o caminhar,
nem promessa de que toda escolha
levará ao lugar a que gostaria de ir,
mas ao lugar em que era necessário estar.

A jovem chorou.

— E o que me resta?

O Tempo apontou para o rio.

— Apenas continue.

Foi aí que ela percebeu
que o rio não guardava suas águas.
Cada instante era único e partia para nunca mais voltar.

Assim, ela compreendeu, no fim, que o Tempo não vinha para matá-la,
mas para lhe ensinar
que tudo o que se vive, um dia, precisa terminar.

Não era o fim da vida.
Era o início de uma nova versão que nascera de si.

A jovem levantou-se,
olhou as correntezas tranquilas do rio, que passavam lentamente diante de seus olhos,
e, como se fosse a primeira vez, entrou na água.

sábado, 5 de setembro de 2026

UMA VILA DE NOME TRAVESSA DOS CASTROS

UMA VILA DE NOME TRAVESSA DOS CASTROS
POR: Rodrigo Falcone 

Numa vila de nome Travessa dos Castros, na cidade de Santa Cruz dos Andes, havia várias casas, todas padronizadas sob o mesmo estilo: varandinhas, janelas e portas pra rua. A vila era fechada por dois portões que davam acesso a duas ruas: a rua principal, de nome Princesa Pompeia, e a rua de fundo, chamada Esperança, que dava acesso a uma estação de trem antiga e a um parque centenário com muitos animais silvestres. Nessa vila, localizada no centro da cidade, moravam cinco idosas, que tinham suas manias e seus costumes esquisitos, daqueles de se esperar de senhorinhas que já passaram dos setenta anos. A estética da vizinhança era a mesma padrão: muitas estampas, crochê, plantas, namoradeiras na janela, móbiles, jardineiras na varanda etc. O cheiro também era bem peculiar: pela manhã, cheirava café e amaciante; ao meio-dia, um delicioso cozido de carne com legumes; e, à tarde, café com bolo fresquinho; e, de noite, cheirinho de sopa. E, assim, na tranquilidade de uma quase metrópole, viviam essas cinco senhorinhas de nome Lourdes, Balbina, Tereza, Cristina e Alzira. Todas tinham algo em comum: o amor pelas plantas e por tecidos estampados.

Dona Lourdes era a mais carola e religiosa de todas, vivia atormentando o Vigário Amoroso, sistemática que só. Quando não estava na Igreja, estava dentro de casa. E, da vila, pontualmente, às 15h e às 18h, era possível ouvir sua televisão nas maiores alturas, onde passavam as récitas do Santo Terço com o Pe. José Marivaldo. Dona Lourdes era meio emburrada, não dava conversa pra qualquer pessoa, e não se pode dizer se seu coração também era fechado para os mistérios da caridade e do amor, prerrogativas da Igreja Católica.

Balbina era irmã de dona Lourdes; cada uma das irmãs morava em casas localizadas nas pontas dessa vila. Ao contrário de dona Lourdes, dona Balbina não era religiosa. Ia às missas em datas comemorativas, principalmente em Missas de Sétimo Dia. Sua "fezinha" era feita no seu querido jogo do bicho aos domingos. Balbina também era dotada de saberes culinários, fazia todos os tipos de quitutes que se possa imaginar, dos mais gostosos possíveis, daqueles que se comem rezando. E, claro, não dava nada pra ninguém, apenas vendia por um preço quase nada acessível.

Tereza e Cristina eram irmãs, moravam juntas, mas Cristina tinha uma casa de campo, então, vez ou outra, ficava na sua residência própria para cuidar de seus cavalos. As duas eram uns amores, muito cuidadosas com todos. Não eram nenhum pouco religiosas, tinham um lado espiritual independente de religiões, e, vez ou outra, como crianças, brigavam feio entre si. Mas uma não vivia longe da outra. Dona Tereza era mais tímida, falava manso e somente o necessário. Tinha olhos verdes feito gramado reluzente dos Alpes suíços. Cristina era mais espontânea, comunicativa e parecia ser uma jovem de uns 30 anos. Também tinha olhos verdes e expressivos, adorava um batonzinho vermelho-cereja, dizia que uma mulher que se preze não poderia se dar ao desleixo de sair à rua sem maquiagem.

Alzira era cheia de manias e costumes ritualísticos. Levantava pontualmente às 05h da matina, alimentava os canarinhos que tinha de estimação, abria a casa, passeava com o cachorro de nome Boby e voltava sempre por volta das 07h com um pãozinho fresquinho da padaria do Sr. Antero Clemente Inocente. Alzira era religiosa, a enfermidade a fez ser forte e a se aproximar de Deus ou da espiritualidade quântica. Às vezes, passava dias na capital em tratamento, e outras em casa. Era uma mulher forte, pois não se deixava abater por nada.

No meio dessas senhorinhas, havia também uma família, muito discreta, que só interagia com dona Cristina, que era quem conseguia conversar com todos da vizinhança. Era possível encontrar a família, ritualisticamente, sempre às terças, quintas e domingos, por volta das 18h, que era o horário em que saíam todos muito bem trajados para o Culto do Pastor Raposo Anacleto. Dona Cristina, metodicamente, fazia o mesmo comentário de sempre:

— Tá na hora, né? Por favor, rezem por nós!

No meio desse cenário poético, cheio de texturas, cores, sabores e de humanidades nas efemeridades da vida, havia um jovem estudante de música clássica. De nome Alan, que alugou a casa dos pais falecidos do Sr. Constantino Quirino. Alan tocava piano, trabalhava como professor de música e cursava o Bacharelado em Música na Universidade de Santa Cruz dos Andes, no período noturno. Quase não o via na vila, pois seus horários eram bem padronizados. Era mais comum vê-lo aos finais de semana, quando parava em casa. Alan tinha uma mania: adorava limpar sua casa de madrugada, mas fazia isso com todo cuidado, evitando acordar seus vizinhos. Alan passou por algumas dificuldades e, numa espécie de providência divina, viu a mão de Deus se estender sobre ele. Por vezes, era presenteado com bolos, tortas, pratos de comida, utensílios de casa, eletrodomésticos e tantas outras coisas naturais da vida. Aquelas senhorinhas, mesmo as mais rabugentas, o pajeavam, cuidavam dele. E sempre buscavam saber se estava tudo bem com ele. Os anos passaram, Alan se formou e teve de se mudar pra uma outra cidade onde já havia garantido um emprego concursado. E, com isso, sua antiga vida ficou pra trás.

12 anos se passaram, e Alan resolveu voltar à vila de nome Travessa dos Castros, a fim de reencontrar aquelas que um dia foram suas amigas. Algumas fachadas idênticas, outras foram reconstruídas, e a estética já não era mais a mesma. Ao chegar à vila, Alan não encontrou o mesmo cheiro, as mesmas plantas e as mesmas pessoas. Alan quis reencontrar as amigas que um dia tanto lhe fizeram bem, mas se deparou com outras pessoas, outras vidas e realidades. E pôde perceber como a vida é formada por ciclos, encerramentos e novos recomeços. Alan nunca soube do paradeiro de Lourdes, Balbina, Tereza, Cristina e Alzira. Devido à idade, cogitou que muitas se fizeram poemas em reminiscências no tempo e no espaço. Ali, Alan se deu conta do quanto a finitude da vida é real, e de que a vida é estranha demais: pessoas vêm, vão, mas suas histórias continuam eternizadas na memória e no coração, ainda que seja impossível saber o destino de cada um de nós.