As Palavras que nasceram do Silêncio
Por: Rafael Victor Ribeiro
Algumas experiências a gente não explica; apenas sente e experimenta. Sobretudo por aquilo que vivemos, permitimo-nos reduzir o ritmo habitual de uma vida que não para e que o tempo todo está sempre de passagem. Nesses últimos dias, tive a graça de visitar e conhecer um pouco da vida monástica de nossos irmãos cistercienses de Itaporanga-SP, na Abadia de Nossa Senhora da Santa Cruz. Cheguei como um visitante forasteiro que ansiava mergulhar, ainda que brevemente, na rotina daqueles homens que escolheram viver sua caminhada cristã em torno do silêncio, do trabalho, da oração e da vida comunitária.
Nessa experiência imersiva, pude acompanhar grande parte da rotina monástica e, desde que cheguei a Itaporanga, vivendo esse experimento de uma fé encarnada no cotidiano, aprendi com meus irmãos algumas palavras que, para mim, descrevem muito bem o perfil desses homens, herdeiros da tradição da Ordem de São Bento.
1ª Palavra: Serviço
Nossos irmãos acolhem a todos com tanta atenção e se mostram tão solícitos e generosos que, por vezes, ficamos até sem graça diante de tamanha honra e generosidade. Ouvi dizer que essa é uma das premissas da tradição monástica: ao acolher cada estrangeiro, acolhe também o próprio Cristo.
2ª Palavra: Silêncio
Nesses dias de retiro, aprendi a silenciar minha mente, meu corpo e meu coração. Entendi que, para buscar uma intimidade maior com Deus, muitas vezes é necessário esvaziar-se de si mesmo, reconhecendo o quanto somos carentes da graça e da misericórdia do Pai.
3ª Palavra: Oração
Muito embora a tradição cristã sempre tenha afirmado que a prática da oração é fundamental na vida de todo cristão, aprendi que, para rezar, é necessário primeiro esvaziar-se. Desse modo, compreendi que o silêncio é um complemento da oração e que a oração também está atrelada à ação secular, ou seja, à vida comunitária.
Aprendi que a oração se prolonga no trabalho, no serviço e nas pequenas tarefas que constituem a efêmera vida.
4ª Palavra: Humildade
A humildade é um dos traços do caráter de Jesus e, por isso, constitui uma das importantes prerrogativas da vida monástica. Durante esse meu retiro, pude perceber o quão mesquinho e pobre eu sou diante da grandeza de um Deus que se faz pequeno pra caber dentro de mim, e o quanto ainda preciso aprender com meus irmãos sobre a verdadeira humildade que brota do íntimo.
5ª Palavra: Caridade
A caridade é um dos fundamentos da vida cristã e pode ser entendida, a partir da perspectiva bíblica, como o amor a Deus em sua máxima e ao próximo. Jesus resumiu toda a Lei nesses dois mandamentos: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento” e “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22,37-39). Por isso, considera-se que a caridade não se limita à ajuda material em si, mas ela está expressa na compaixão, no perdão, na partilha, no serviço, no cuidado com os necessitados, no respeito à dignidade humana. Assim, viver a caridade é transformar o amor professado em Jesus através de atitudes concretas, buscando sempre o cultivo da paz com o outro e sem olhar a quem você faz o bem. Foi ao observar a caridade explícita no coração dos nossos irmãos monges cistercienses que constatei também uma virtude teologal não apenas oriunda da prática de fazer o bem, mas na forma de amar a Deus e ao próximo, sendo este uma minúscula formiga que seja.
6° Palavra: Entrega
Toda entrega requer um chamado especial, e esse chamado nasce com o despertar de uma nova vida, conduzida unicamente pela voz mansa e suave da Ruáh, a força do Espírito em nós.
Entregar-se requer esvaziamento pessoal, deixar que Deus te conduza por caminhos muitas vezes incertos, mas estar seguro de que somente a graça dEle é capaz de suprir nossas necessidades. Entregar-se é deixar de tentar controlar tudo à sua volta e permitir que Deus conduza aquilo que, aos olhos humanos, muitas vezes seja impossível sustentar.
Entrega não é desistência, mas um ato de amor e de confiança: quando colocamos nossos medos, desejos e também aquilo que ainda não compreendemos nas mãos do Deus que tudo vê e tudo conhece. Entregar-se é permanecer disponível, fiel e, se preciso for, dar sua vida pelo nome de Cristo, assim como nos ensinaram os santos mártires.
7° Palavra: Escuta
Para escutar, é necessário silenciar. O silêncio nos convida a interromper, ainda que por alguns instantes, o que é exterior e que também ocorre dentro de nós. Por vezes, estamos tão ocupados em responder, em julgar ou simplesmente pensar no que diremos ou o que faremos que deixamos de ouvir. Escutar exige presença e abertura para acolher no íntimo aquilo que Deus deseja comunicar.
Escutar é, de certa maneira, sair de si mesmo para ir em direção ao outro.
Quando silenciamos, criamos um espaço para perceber aquilo que Deus pode nos dizer. Sua voz nem sempre se manifesta no extraordinário; às vezes, ela se revela no simples, podendo ser, inclusive, a presença de alguém, ou de uma palavra, de um gesto ou até mesmo naquilo que não é dito, mas é sentido e experimentado.
8° Palavra: Partilha
Aprendi que partilha é muito mais que dividir o pão que temos, mas é colocar em comum o que somos, o que recebemos e o que podemos dividir. Nesses dias imersivos de vida religiosa cisterciense, percebi que vida comunitária é também uma profunda experiência de partilha, o que me fez lembrar de São Martinho de Tours — que cavalgava certa noite sob o frio intenso europeu, quando avistou um mendigo tremendo de frio. Tomado de tamanha compaixão e amor, rasgou sua capa ao meio e ofereceu metade àquele homem que padecia. Tal gesto tornou-se então abrigo, e símbolo concreto do significado da palavra Capela — do latim, “pequena capa”. Que, mais tarde, passou também a designar os lugares de oração, as capelas, espaços onde a presença de Cristo é reconhecida e amada.
A partilha, portanto, é reconhecer que ninguém caminha sozinho e que a vida cristã só encontra sua plenitude quando partilhamos, de modo a transformar em dom o que recebemos e doamos ao outro.
9° Palavra: Obediência
Aprendi que obedecer é um ato de amor, de submissão e serviço. Deus deu ao homem o livre-arbítrio, e cada qual o direito de percorrer um caminhar diferente do outro.
Obedecer requer confiança e, sobretudo, fé. Em 1 Samuel, encontramos uma passagem bem forte: “obedecer é melhor do que sacrificar” (1Sm 15,22). Deus deseja um coração disposto a escutar e a acolher a sua vontade, que é boa, perfeita e agradável para nós que somos "saco de vermes", como bem definiu São Bernardo Claraval, inspirando-se nos textos bíblicos de Jó (25:6); Salmo 22/21:6; Isaías (41:14).
Na vida monástica, pude perceber que a obediência também passa pelo exercício de deixar de lado a própria vontade para aprender a caminhar com o outro e em comunidade. E em Cristo encontramos o maior exemplo. São Paulo nos recorda que Ele “foi obediente até a morte, e morte de cruz” (Fl 2,8). Nesses dias, aprendi que obedecer não é simplesmente cumprir um combinado de regras e seguir um sistema ou uma ordem imposta, mas aprender a confiar, a silenciar o próprio "Eu" e colocar-se inteiramente nas mãos de Deus. Obedecer torna-se também uma experiência de humildade, entrega e, principalmente, amor.
10° Palavra: Memória
Uma das coisas que mais me tocou durante esses dias de imersão dentro da vida monástica foi perceber como a memória está profundamente presente em todos os momentos da comunidade. E a memória é algo bastante presente na minha corriqueira trajetória profissional enquanto educador, artista e, recentemente, pesquisador do tema. Nossos irmãos cistercienses, além de guardarem e celebrarem a memória da Santíssima Mãe de Deus e nossa, em suas orações, também não deixam de recordar em nenhum dos momentos oracionais os fiéis defuntos, todos aqueles/as que morreram em Cristo. Há algo de muito bonito e especial nisso: compreender que aqueles que foram acolhidos pela irmã Morte, expressão usada por São Francisco de Assis no cântico das criaturas, não foram simplesmente apagados, mas permanecem presentes na oração e na comunhão com a Santa Igreja. A tradição cristã compreende a Igreja em três dimensões: a Igreja Militante, que somos nós, ainda como peregrinos, nesta terra desconhecida; a Igreja Padecente, formada pelas almas dos fiéis defuntos que se encontram no Purgatório e carecem das nossas orações a fim de que sejam purificados para que entrem na glória eterna; e a Igreja Triunfante, constituída por todos os anjos, santos, santas e mártires que já contemplam a Deus e, como uma nuvem de testemunhas (Ap 6, 9-11), estão abaixo do Trono do Altíssimo intercedendo por nós que aqui continuamos.
Assim, a oração dos monges parece atravessar o tempo, mantendo viva a memória daqueles que nos precederam. Aprendi que guardar a memória também é amar a Deus em toda sua plenitude, porque aquilo que verdadeiramente amamos não queremos esquecer. E acredito que esta seja justamente uma das mais belas experiências que tive e que trouxe comigo de Itaporanga: compreender que, na vida cristã, recordar é permanecer em comunhão com Cristo, nosso Senhor.
Por fim, com o coração cheio de gratidão, agradeço aos nossos irmãos cistercienses da Abadia de Nossa Senhora da Santa Cruz pela acolhida generosa, pela hospedagem, pelo cuidado e pela disponibilidade com que me receberam. Foram poucos dias, mas suficientes para levar comigo muitos ensinamentos e uma experiência única de encontro com Deus. Agradeço por cada oração compartilhada, cada conversa, cada gesto de serviço e também pelos silêncios que, de alguma forma, falaram comigo. Retorno à Lorena diferente de como cheguei, levando não apenas boas lembranças, mas também muitas perguntas, aprendizados e um desejo renovado de viver minha fé de uma maneira mais simples, partindo de uma espiritualidade concreta e encarnada.
Aos meus irmãos, minha sincera e eterna gratidão.