sábado, 24 de janeiro de 2026

UM DIA DEPOIS DE UMA QUINTA-FEIRA


Por: Rodrigo Falcone 

Levei um ghosting, e isso me doeu profundamente. Não fui intenso; apenas correspondi à altura, acompanhando o fluir das mensagens que trocávamos. No primeiro encontro, tudo pareceu mágico — aquela química rara de início. Foram dias de conversa afiada e intensa, partilha de gostos particulares, mensagens que iam do um simples “bom dia” ao sincero “como foi seu dia?”. Eu era, o tempo todo, resposta para aquilo que ele queria ouvir. Ou talvez eu tenha sentido demais. Ou talvez tenha sido só eu nesse jogo inteiro — um jogo de azar!

Viajei 300 quilômetros para vê-lo. Deixei de encontrar amigos de longa data para colocá-lo como prioridade naquele instante. E, numa quinta-feira despretensiosa, em um jantar simples, regado a bons papos e um vinho de qualidade duvidosa, servido numa taça de espumante — sim, esse foi o nível da cafonice —, trocamos carícias e afetos. Falamos sobre a vida, sobre ancestrais, religiões e destinos. O sexo aconteceu: intenso, carregado de energia e prazer, as vezes romântico, as vezes insano e depravado. Em alguns momentos, o nervosismo tomou conta, e a performance dos dois falhou. Sim, falhou — porque somos feitos de afeto e de cuidado, e nosso erro é criar expectativas demais. Acredito que sentimento até existiu, mas, no turbilhão das emoções humanas, o "Jurandir", se assim posso nomeá-lo, confundiu nos próprios afetos e escolheu a ausência.

A mensagem que eu esperava ao amanhecer não veio. O gesto de carinho, aquele simples perguntar como estava sendo meu dia, também não. Do lado de fora da janela daquele quarto de hotel onde eu estava hospedado, havia apenas chuva e frio. Por volta das 18h20min, chegou uma mensagem em tom gentil, perguntando como havia sido meu dia. Eu soube, naquele instante, que algo havia mudado — e não me refiro apenas à frieza dele, mas à forma como eu mesmo passei a administrar meus sentimentos e compreender que eu não fui de menos nem de mais. Eu apenas fui quem eu sou.

Minutos depois, uma mensagem curta: uma justificativa. O trabalho havia sido puxado, e ele jantaria com o pessoal do serviço. Ali compreendi que alguém tentava colocar sobre mim um peso de responsabilidade emocional que não me pertencia. Coube-me, então, a dignidade e o respeito de reconhecer o lugar que nunca foi meu.

Cheguei a São Paulo numa quinta, que até então era o meu dia preferido, pois foi quando eu nasci. Sofri numa sexta e, ao nascer da aurora de sábado, fiz o caminho de volta à cidade onde nasci — território de afetos, de memórias e de pessoas que me amam. Percebi que essa é a maior riqueza da vida e que, sim, podemos substituir devaneios humanos por sentimentos que realmente importam. Talvez seja por vivências assim que tanta gente deixou de acreditar no amor carnal entre dois seres.

Fiz pelo "Jurandir" o que até então não havia feito por ninguém, porque acreditei naquilo que vivemos. Investi tempo, dinheiro e afeto e, ao final, recebi apenas indiferença. Talvez por isso digam que a indiferença seja o sentido de tudo: ela não frustra, não decepciona — apenas nos devolve à realidade e nos ensina o lugar que nunca foi nosso.

No fim das contas, não permaneci em São Paulo todos os dias combinados, não vivi o que esperava, mas vivi o que era necessário. Com o tempo, compreendemos que algumas presenças não são essenciais; que, um dia, a falta sentida será a sua — e talvez o outro nunca perceba isso. Afinal, você foi você, e quem nasceu para viver no raso jamais compreenderá a imensidão de água que você é.

Hoje dói. Amanhã, provavelmente, também doerá. Mas depois a gente se refaz e continua tentando jogar esse jogo estranho da vida chamado amor.

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

NATAL: POLÍTICA DE CONSUMO OU MÍSTICA DA ESPIRITUALIDADE?

Dizem que o Natal perdeu seu significado, dando lugar ao consumismo exacerbado e à figura emblemática do Papai Noel. O Natal proporciona novos empregos, ainda que temporários, mas que para muitas pessoas serão suficientes para suprir as necessidades de quem vive à margem invisível da indiferença humana, podendo torná-los, assim, mais dignos, confiantes e, sobreamente, "humanos".

É tradição no Brasil e em diversas partes do mundo que as famílias se reúnam para decorar as casas com muitas luzes ou encher a árvore de Natal com presentes caros, onde, no dia 24, as crianças trocarão seus presentes. Cânticos natalinos serão entoados ao acender das velas que remetem à espiritualidade natalina, ou seja, à encarnação do Verbo, Jesus. Na véspera de Natal, há quem não descanse um minuto sequer, preparando os deliciosos pratos que serão servidos na tradicional ceia, tudo para aqueles que amamos, ou que pelo menos acreditamos amar. Todos unidos em volta de uma grande mesa para celebrar o nascimento do Menino Deus, de origem pobre e humilde, envolto em panos simples e depositado em um coxo onde comiam os animais. Tal menino que se fez pequeno e frágil para caber em nosso mundo, a fim de que um dia se entregasse por nós em um madeiro dolorido, sendo perseguido e morto pelo Estado. Um Deus que nunca julgava, acolhia. Um Deus que se tornou Cordeiro Sacrificial, obediente ao Pai, e que sobre si levou todas as nossas dores e enfermidades. Um Deus que busca habitar no mais profundo íntimo humano, bem longe dessa Igreja hegemônica do século XXI que tanto tem envergonhado o nome de Cristo.

Também existem aqueles que celebram o Natal de maneira diferente, seja por professarem outro credo, seja porque preferiram viver uma vida sem a influência de uma religião imposta por homens, mas que, independentemente disso, nessa época do ano se unem em um único laço de amizade. Mas o fato é o seguinte: todos, nessa época, estão "unidos" para renovar os votos de bondade, amor, paz, espiritualidade que costumam aparecer somente em datas festivas como as do mês de dezembro. É até bonito sentir os corações alegres transmitindo o Espírito Natalino. Mas, infelizmente, essa não é a realidade do ano inteiro. Preferimos trocar o amor pela indiferença, a partilha pelo consumo, e a unidade pelo vazio existencial e por todos os tipos de excessos.

Que neste Natal vivamos com verdade e na verdade, que nossa existência neste plano tenha sentido, e ao celebrarmos o Grande Mistério, possamos partilhar um pouco da graça que nos foi entregue por meio do Salvador do mundo. E vivamos Cristo, reconhecendo sua humildade no presépio, dando pão a quem tem fome e água a quem tem sede, respeitando cada um em sua individualidade, sem distinção de credo, orientação sexual, gênero, raça ou condição social. Peçamos a graça para que o Senhor dilate nosso coração a fim de que possamos receber um Deus grande que se faz pequeno para caber dentro de nós. 

Feliz e Santo Natal!

Por Rafael Rosa  
Escrito em 23 de dezembro de 2019.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

TEMPESTADES INTERNAS


Por: Rodrigo Falcone 

A vida é como a imensidão de um infinito oceano, onde as ondas são como as nossas experiências, nos arrastam ora para tempos de calmaria, ora para a tempestade. Em meio ao mar das emoções, encontramos a angústia, uma tempestade interna, um turbilhão de sentimentos que nos impede de navegar com clareza sob o comando do nosso barco. E, assim como as nuvens escuras que prenunciam a chuva, surgem também os momentos angustiantes, aqueles que provocam tempestade em nosso interior. É nesse contexto que nos deparamos com uma grande diferença entre sentir angústia e se sentir angustiado, duas faces de uma mesma moeda de cunho emocional. 

Entre a angústia e o se sentir angustiado/angustiante, há uma grande diferença. A angústia é aquele nó na garganta, aquilo que não foi digerido o suficiente, é a sensação de vazio existencial, de peso e de aperto no peito. Enquanto que "angustiante" é o adjetivo que provoca essa sensação, causado por uma situação, um pensamento ou um evento específico. Tudo isso nos coloca à margem de um demônio desconhecido, que talvez não seja associado ao mundo espiritual, explicado pelo cristianismo, mas sim àquilo que é parte de nós mesmos, fruto de uma vida inteira de sentimentos reprimidos, devidamente organizados em pequenos potes. Uma palavra, uma frase, um gesto, um toque pode ser o ponto de partida para que tudo aquilo que antes estava adormecido salte para fora, gerando somente caos e confusão. Um menino em descoberta daquilo que talvez possa não existir, perdido em seus pensamentos, vivendo enclausurado em seu mundo, numa espécie de peregrinação no deserto, onde a esperança parece não existir e o amor ser apenas uma capacidade psíquica ilusória para que continuemos a acreditar que este mundo é real, mesmo não sendo. 

Por nós passam pessoas de todos os tipos, cada uma ensinando algo seja de bom ou ruim; muitas chegam, fazem as honras e, quando menos esperamos, logo viram saudade. É o abandono da humanidade que sorri diante da efêmera vida; talvez a frieza do espírito humano, a insensatez, o descontentamento ou aquela sensação de que tudo à sua volta continua florido e você parado no tempo e no espaço. Enquanto o rio da vida segue seu curso natural entre nascentes que brotam do improvável e açudes que surgem para gerar fonte de renda e energia, tudo lá fora parece seguir em frente, sendo que aqui dentro tudo continua sem perspectiva, sem força de vontade e aquilo que impulsiona a vida: o viver.

Um poeta desconhecido certa vez escreveu que o choro é a máxima da expressão humana quando não conseguimos expressar mais nada em palavras sobre o que estamos sentindo. Ouso crer que ele estava certo, mas acredito que até as lágrimas têm um momento certo para secar. As minhas estão quase secando e dando lugar à indiferença, não das pessoas que amei ou deixei de amar com o tempo, mas a de mim mesmo, que há muito não vivo, apenas sobrevivo. Considero um reflexo de situações mal trabalhadas e curadas do passado? Talvez, assim como também considero certos traumas herdados pela ancestralidade.

Como conselho à humanidade futura que eu provavelmente não vou chegar a conhecer: cuidem dos excessos, eles escondem uma falta que merece atenção. Olhem para suas emoções, se expressem, resolvam seus conflitos internos e externos, e levem a vida menos a sério como eu levei, ou vocês podem um dia se encontrar onde estou hoje, que sinceramente, nem eu sei onde estou.

Dizem que a vida pede passagem para ser vivida; a minha cansou de andar, hoje só deseja viver em paz e com sanidade mental para levar uma vida digna. Afinal, creio que a paz que tanto procuro não seja deste mundo!

segunda-feira, 15 de setembro de 2025

O Diálogo Ecumênico e Inter-religioso: Um chamado à Unidade.


O Diálogo Ecumênico e Inter-religioso Hoje: Um Chamado à Unidade.

A prática do diálogo ecumênico exige, em nossos dias, uma ressignificação profunda. Não podemos mais conceber o diálogo cristão isoladamente, sem integrá-lo à dimensão inter-religiosa, pois a atitude de fé é, em sua essência, uma questão existencial que nos convida a formar a nossa interioridade, levando a um novo modo de pensar. Ser verdadeiramente ecumênico é ir além, é sentir o coração do outro com o próprio coração, é desejar a unidade não apenas como um ideal, mas como a manifestação plena da Igreja e da comunhão da graça.

O ecumenismo, portanto, nos inspira a um novo modo de pensar e de viver a fé. Ele nos impele a redimensionar o sentido do ser cristão e o ser Igreja em um mundo tão plural e diverso. Nesse sentido, considera-se o ser "anti-ecumênico" uma desobediência ao magistério eclesial da Igreja Católica, como bem definiu o Papa Francisco: "A cultura do encontro", modo de ser indispensável, parte de novas cristologias e novas hermenêuticas bíblicas. É a ideia de que devemos sair da nossa própria bolha e ir ao encontro do outro, reconhecendo sua dignidade e seu valor, mesmo que haja diferenças de pensamento e de religião. A cultura do encontro se manifesta por meio do diálogo sincero e da escuta ativa, da empatia e da solidariedade.

Unitatis Redintegratio propõe: "Guardando a unidade nas coisas necessárias, todos na Igreja, segundo o múnus dado a cada um, conservem a devida liberdade tanto nas várias formas de vida espiritual e de disciplina, como na diversidade de ritos litúrgicos e até mesmo na elaboração teológica da verdade revelada. Mas em tudo cultivem a caridade."

Este ensinamento nos convoca a uma incessante busca pela unidade, que é o desejo de Cristo para sua Igreja.

Assim, o diálogo ecumênico se torna uma ferramenta vital para a edificação da Igreja e a promoção do amor e da compreensão entre todos os povos, sejam eles cristãos ou não cristãos.

"Mas as iniciativas locais e individuais já não bastam. A situação atual do mundo exige uma ação de conjunto a partir de uma visão clara de todos os aspectos econômicos, sociais, culturais e espirituais. Conhecedora da humanidade, a Igreja, sem pretender de modo algum imiscuir-se na política dos Estados, tem apenas um fim em vista: continuar, sob o impulso do Espírito consolador, a obra própria de Cristo, vindo ao mundo para dar testemunho da verdade, para salvar, não para condenar, para servir, não para ser servido." [Papa Paulo VI, Populorum Progressio, n° 13].



Registros fotográficos do Encontro Nacional de Formação e Convivência Ecumênica da CNBB, nos dias 12, 13 e 14 de setembro, em Jundiaí-SP. 

terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

SACRAMENTO DO AMOR


Sacramento do Amor

Por: Rosa, R. Rafael. 

Hoje, 11 de fevereiro, solenidade em honra a Nossa Senhora de Lourdes, testemunhei um momento que ficará gravado em minha memória e no meu coração. Estava na casa de uma família de paróquianos, participando da Santa Missa, todos envolvidos diante de uma atmosfera de fé, religiosidade e sagrada devoção que permeava o ambiente. Na melodia suave e harmoniosa dos cânticos acompanhados pelo violão, e sobre a mesa singela onde Jesus Eucarístico seria entregue a todos pelas mãos do Santo Sacerdote, o cheiro suave das flores misturava-se ao som das orações feitas pelos fiéis, que subiam ao céu como oferta agradável a Deus, enquanto as vozes se uniam em louvor. Mas foi durante a comunhão que a verdadeira essência do Mistério se revelou a nós.

Uma travesti se aproximou da Mesa Sagrada. A figura dela, que poderia facilmente ser ignorada ou marginalizada por parte da sociedade, ali representada, trouxe consigo uma presença marcante e um grande anseio por Jesus Eucarístico. Ao vê-la se aproximar, meu coração acelerou, e meus olhos não se conteram. O sacerdote transbordava misericórdia e amor, sem expressar qualquer julgamento; com um sorriso no rosto, entregou-lhe Jesus Sacramentado e, com um gesto sutil e reconfortante de acolhimento, disse mais do que as palavras que proferira durante sua homilia. Ali, naquele instante, enquanto todos contemplávamos o grande Mistério da Paixão e Morte do Senhor, pude ver na pessoa do sacerdote o próprio Cristo se fazendo presente. Ele não estava apenas na hóstia e no Cálice consagrado; Ele estava na sacralidade do amor diante daquela mulher que desafiava todos os tipos de estereótipos e preconceitos existentes.

Enquanto eu adorava Jesus no Sacramento da Comunhão, observava a cena e fui agraciado com uma visão profética: percebi que muitos dos presentes, ainda que em reverência, não se "ajoelhavam" diante da Eucaristia. Alguns o faziam em respeito ao rito, mas era visível que a verdade lhes faltava. Mas, aquela travesti, com um gesto de entrega e humildade, foi a única a se ajoelhar de fato diante do Senhor. Ajoelhou-se de corpo e de coração; seu ato simples e profundo ecoou como um hino de fé em um mundo cercado pela indiferença, pela arrogância e altivez; onde tantas vezes nos esquecemos da compaixão e do senso de humanidade. 

Naquele momento, durante a comunhão, lembrei-me das palavras do profeta Jeremias: "As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos!" E pude compreender que é muito fácil nos perdermos nas nossas próprias certezas, com meias verdades, vontades e interesses cheios de intolerância e separações de Deus e do nosso próximo. Ali estava uma lição viva do amor real manifestado e presente. Todos somos dignos da graça e da misericórdia do Senhor; todos são dignos de receber também o amor maternal da Virgem Maria Santíssima, entendendo que não há lugar melhor para estar do que na casa da mãe.

Com um sorriso no rosto, a travesti iluminou o ambiente e contagiou a todos com tamanha alegria ao receber em seu íntimo, a grandeza de um Deus que partilha conosco. Foi como se a esperança e a aceitação ressurgissem em sua vida.

A celebração continuou, mas algo dentro de mim já havia mudado. A cena daquela travesti ajoelhada diante do Sacerdote que ministrava Jesus me fez refletir sobre o verdadeiro significado da comunidade cristã: um espaço onde todas as pessoas devem ser bem-vindas sem exceções; onde o amor transcende as barreiras sociais e nos lembra da humanidade que compartilhamos.

Na noite de hoje, aprendi que a misericórdia divina não tem limites nem fronteiras e que cada encontro com Jesus é uma oportunidade de vivenciá-la plenamente.

Desejo que possamos sempre nos lembrar de abrir nossos corações para receber um Deus Grande que se faz pequeno para morar dentro de nós.

Graças e louvores se dêem a todo momento: ao Santíssimo e Diviníssimo Sacramento, o Sacramento do Amor! 

Arte: Cláudio Pastro | Imagem retirada da internet. 

sexta-feira, 31 de janeiro de 2025

REINO DAS DESILUSÕES

Por: Rodrigo Falcone 

Num reino nem tão distante das desilusões, as paredes eram forjadas e adornadas com sorrisos forçados, indiferenças e muito desdém. Os corredores ecoavam sussurros disfarçados de amizade; o discurso era que tudo era em prol das crianças camponesas que viviam de pés descalços num frio congelante, onde a esperança parecia não mais existir. Assim, a vida seguia seu curso entre intrigas e estratégias maquiavélicas.

No centro do reino das desilusões, havia um enorme palácio, mais conhecido como o "Palácio do Poder", que era governado por uma mulher que sabia muito bem mascarar seus sentimentos. Ao invés de ser a guardiã da imparcialidade, optou por se tornar rainha adorada pelas corte e seus súditos.

A rainha mãe adorava promover grandes festas da mais alta estirpe, sempre regadas a bons vinhos, canapés franceses, iguarias que só conhecemos de ouvir falar e um toque sutil de boa política. No centro do reino das desilusões, alguns personagens personificavam os desafios diários de quem ao menos se atrevia a sonhar com um ambiente mais justo e dentro dos padrões impostos pela boa sociedade aristocrática do séc. XIX — ou, ao que se sabe, pelo que sobrou dela.

Clara Aduladora era uma figura que não sabia muito sobre as complexidades do reino e seus mistérios; mesmo assim, fazia de tudo para se manter entre os súditos da nobreza. No entanto, seu talento para a política do elogio era inegável. Com um sorriso faceiro sempre no rosto e palavras angelicais na ponta da língua, navegava pelas reuniões e festas do grande palácio como uma sereia encantando marinheiros perdidos ao mar do esquecimento. Suas doces canções eram apenas superficiais, pois não compreendia bem o que realmente acontecia na superfície tranquila do lago.

Valentina Vórtex era uma verdadeira artista que honestamente vivia a vida em busca do seu bom e velho holofote. Sempre buscando brilhar mais que os outros, tornou-se braço direito da rainha e dedicava-se a invalidar qualquer "iniciativa real" que não fosse sua. Seu olhar ansioso por reconhecimento ofuscava as iniciativas de outros membros da realeza. Para ela, o sucesso era uma competição em que apenas um poderia vencer — e ela estava determinada a ser a escolhida; mesmo que precisasse eliminar quem quer que fosse que ousasse entrar em seu caminho, como ocorreu com sua meia-irmã Luna Vórtex, que ousou organizar um grande baile de gala em comemoração ao aniversário do Imperador Eusébio Montanari.

Entre a comitiva real da rainha mãe, havia também a lady Lilith Serpentina. Ao que se sabe, não pertencia ao reino, mas casou-se com um famoso marquês e se estabeleceu nessas bandas. De pouquíssimas palavras e aparência feita flor, mas bem tóxica e de veneno mortal e ambíguo. Com sua aparência meiga e seu comportamento clássico — o que se espera de alguém da mais alta nobreza — enganava bem com sua fachada gentil. Porém, por trás do lindo sorriso e da voz aveludada, traçava estratégias de maneira única para derrubar aqueles que se atrevessem a entrar em seu caminho. Movia-se nas sombras como uma cobra traiçoeira: ágil e perspicaz. Sua grande especialidade era semear desconfiança, discórdia e espalhar boatos nos corredores do palácio, sempre atenta para levar informações à rainha e assim ganhar crédito real e possíveis alianças com seus aliados. 

Havia também alguns lacaios e damas de companhia que não sabiam bem sobre suas funções reais, mas certamente foram cuidadosamente treinados pelo Conselho dos Artífices — na verdade que muitas vezes ditava as ordens para a rainha — tendo sob o grande comando a primeira-ministra Morgana Struty Saviên, mais conhecida entre os vassalos da côrte como "lady Aço."

Neste cenário de alianças (in)questionáveis e rivalidades silenciosas, quem não se forjasse aos moldes das sombras, muitas vezes era posto de lado e silenciado, tendo como destino a forca ou a guilhotina. 

Os sonhos de transformação social e de um idealismo marxista, por vezes eram sufocados sob o peso de muitas intrigas e da falta de imparcialidade entre os clãs. O reino tornava-se cada vez mais um labirinto sem saída onde as vozes dos oprimidos eram por vezes silenciadas.

Mas, apesar dos grandes desafios, havia um pequeno grupo de sonhadores que acreditavam na mudança; valorizavam a coroa e almejavam dias melhores para o reino e o reinado.

E assim, entre as sombras e estratégias contrárias nos corredores do Palácio do Poder, esses sonhadores persistiam em suas esperanças. Eles sabiam que a verdadeira transformação exigiria coragem para desafiar as normas estabelecidas pela monarquia absolutista, lutando contra as correntes da opressão. No coração do Reino das Desilusões, ainda pulsava uma chama de esperança e de solidariedade. A crença em dias melhores à frente de seu tempo, a saber que é ele quem molda o presente.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

ENSAIO REFLEXIVO


"Não se perturbe o vosso coração. Credes em Deus, crede também em mim." 

São João 14:1

Há dias, tenho experimentado um incômodo interno que anseia por mudança de vida. Certo estou de que sempre busquei ter uma trajetória reta segundo a vontade de Deus, exercendo meus atos de piedade e misericórdia, praticando a leitura do Santo Evangelho e buscando manter uma vida de oração, entre outras práticas esperadas de quem vive o cristianismo como estilo de vida. Contudo, quando somos colocados à prova diante das circunstâncias da vida e dos ataques malignos que nos assolam, percebemos que nada do que fazemos é o bastante; somos desafiados a experimentar o novo, entendendo que o processo de santificação requer a reconfiguração das rotas da nossa existência que, por vezes, se mostrou incompleta durante o percurso.

Entendi que a luz de Cristo, daqueles que seguem seu caminho e que buscam a retidão de um coração puro e sincero, como descrito pelo salmista, faz com que a face do Senhor brilhe sobre nós, incomodando quem vive nas trevas. E ouso acreditar que as sombras nos levam a mudar para longe delas, dado o incômodo que elas sentem. Assim como um peregrino forasteiro em terra estranha alça longas e novas jornadas em busca do que tanto procura, sigo também caminhando diante do desconhecido, lançando-me aos cuidados da proteção divina e experimentando o viver do que chamamos de Graça.

Não é necessário ter sempre o controle sobre tudo no que diz respeito à nossa passageira e frágil vida humana neste plano; o destino é um só, e todos sabemos qual é. O percurso a ser seguido nos desafia a experimentar o invisível, pois o duvidoso já nos prova que não é obra divina; muitas vezes nos levando pelas emoções humanas e pelo coração enganoso. Nos trilhos da vida onde um propósito me foi confiado um dia, sigo atualmente me desafiando a experimentar o melhor que Deus tem preparado para mim, sem planos ou muitas expectativas, vivendo um dia de cada vez. Mesmo que o medo, a indiferença e a incompreensão humana me alcancem, desejo me lançar aos cuidados do Divino Pai de misericórdia, confiando-Lhe todas as minhas preocupações e ansiedades e buscando cumprir o propósito que me foi confiado.

Rosa, R. Rafael. 
30/01/2025