sexta-feira, 7 de agosto de 2026

O RESSOAR DO ÚLTIMO ACORDE - Homenagem póstuma ao amigo Carlos Guimarães Neto

 

O RESSOAR DO ÚLTIMO ACORDE

Por: Rafael Victor Ribeiro


 Falecido em 20 de Junho de 2026

[Imagem gerada por inteligência artificial inspirada nas produções artísticas de Romero Brito]

            Há pessoas que passam pela nossa vida fazendo barulho, já outras passam em silêncio, mas deixam uma presença tão profunda e marcante que quando partem, caímos em si do tamanho do espaço que ocupavam em nós.

            Neto era assim. Homem de poucas palavras, reservado, silencioso, exigente consigo e com os outros, zeloso com tudo o que fazia e quase sempre obstinado a buscar perfeição das coisas. Mas, bastava um pouco mais de intimidade para perceber que, por trás daquele semblante sério e intimidador, havia um homem de coração imenso. Neto não fazia parte oficialmente do Coral Regina Caeli – muito embora o regente não se cansasse de convidá-lo – mas, de alguma forma, Neto pertencia a este coral.

            Pertencia porque acreditava no grupo, porque apoiava, porque servia... Era ele quem preparava deliciosos jantares para os aniversariantes, quem abria as portas do seu sítio para receber os paroquianos, quem se alegrava quando a casa estava cheia. Neto gostava de ver gente, de ver alegria, de ver pessoas reunidas celebrando a vida. E, quando demorávamos a aparecer, ele cobrava:

            – “Você está sumido, não aparece mais, não senta pra tomar café, não almoça mais com a gente!” Esse era o jeito dele dizer: “Vocês fazem falta aqui!”

            Hoje entendemos melhor o significado daquela cobrança, era a despedida que não aconteceu.

            Seu sítio no bairro Santa Lucrécia era mais do que um lugar para o Neto, era a extensão da sua alma. Ali estavam sua sensibilidade, seu gosto pela beleza, seu cuidado em cada detalhe, sua paixão pela natureza, pela decoração e pela boa mesa posta e farta. Ali ele cozinhava, organizava, recebia, cuidava. Ali ele servia.

            E, talvez essa seja uma das palavras que melhor definiram sua vida: Serviço e cuidado.

Neto cuidou dos pais até o fim. Cuidou dos amigos de longa data. Cuidou dos espaços. Cuidou dos encontros. Cuidou daquilo que amava. Era também um homem de fé, devoto de Santa Edwiges, quis que sua própria casa no campo tivesse uma capela dedicada a ela. E aquele espaço, que poderia ter sido apenas seu, tornou-se lugar de encontro, de orações, de partilha e espiritualidade que uniu tantas pessoas.

            Seu sítio tornou-se, de certa maneira, uma casa aberta. E talvez seja justamente isso que mais doa agora: saber que aquela porta continua existindo, mas que quem tantas vezes a abriu não está ali para nos receber.

            Neto cumpriu sua Páscoa no dia 20 de junho, e nós, seus amigos do Coral Regina Caeli, carregamos também uma pequena dor: por circunstâncias da vida, muitos de nós não conseguiram estar presentes na sua despedida para lhe prestar a homenagem que gostaríamos.

            Por isso estamos aqui. porque existem despedidas que não acontecem no momento exato em que a morte chega, algumas precisam de tempo. Precisam que a saudade amadureça. Precisam que o silêncio encontre um lugar para repousar para que, finalmente, encontremos palavras capazes de dizer aquilo que a ausência ensinou.

            Rubem Alves, certa vez escreveu que: “a saudade só floresce na ausência”, e talvez seja o que estamos experimentando. A ausência do Neto fez florescer a saudade. Saudade da mesa cheia, saudade das cobranças, saudade daquela presença discreta, silenciosa, saudade daquele último olhar...

            As Sagradas Escrituras nos recordam, que: “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu: tempo de nascer e tempo de morrer [Eclesiastes 3,1-2].

            Nós sabemos disso, sabemos racionalmente. Sabemos que a vida tem um começo e que, um dia, inevitavelmente, encontrará seu fim. Sabemos que somos peregrinos em terra estrangeira, e que o coração não aprende a finitude da vida como do mesmo ponto de vista da razão. Por outro lado, a fé nos ensina que a morte não é a última palavra. E São Paulo nos recorda por meio da sua carta aos I Coríntios 13,8 que o “amor jamais acaba”, o amor venceu a dor, e a própria morte foi vencida.

            Rubem Alves, refletindo sobre a morte, escreveu: “A morte é o último acorde que diz está completo!” Talvez nossa vida seja mesmo como uma grande composição musical: Há notas que muitas vezes não entendemos enquanto tocadas, não compreendemos sua harmonia complexa; há pausas; momentos de tensão e outros de relaxamento, e um dia, daqueles em que não espera o óbvio, o último acorde chega. Mas é porque a música termina que cada nota ganha sua importância dentro da estrutura harmônica chamada vida.

            Neto foi assim, compôs a própria vida no seu ritmo, com suas particularidades, fazendo da arte de reunir pessoas uma maneira de harmonizar a própria alma.  

            No ano passado, durante um dos ensaios preparatórios do recital do Coral, Neto interceptou nosso regente, Rafael, e comentou sobre uma música que havia acabado de ouvir. Era o “Ave Maria”, de Julio Caccini. Neto disse que aquela música o transportava aos céus. Contou que nunca havia escutado uma melodia tão linda antes. Talvez ele não soubesse, que naquele momento estava deixando para nós uma espécie de última mensagem. Porque hoje somos nós que ouvimos essa música e nos lembramos dele.

            Nesta noite, queremos fazer dessa canção, uma oração por um amigo que encontrou beleza na vida através do seu amor pela natureza, pela mesa cheia, pela amizade fraterna, pela fé e, sobretudo, pela presença das pessoas.

            Gostamos de pensar que a música que tanto o emocionou seja justamente uma oração dirigida a Maria, que a tradição cristã invoca como Mãe da misericórdia. Aquela que esteve junto à cruz, que conheceu de perto a dor da perda, aquela que aprendeu que amar é, muitas vezes, permanecer diante de um mistério sem ter todas as respostas.

            Neto não foi perfeito, ele foi humano. Com suas virtudes e seus limites, com suas exigências e convicções e sua maneira de demonstrar afeto. Mas foi também alguém que, dentro de sua humanidade, procurou oferecer o melhor aqueles que amava, e isso basta. Neto fez isso muitas vezes: servindo, recebendo, cozinhando, cuidando.

            Hoje, nos queremos dizer obrigado. Obrigado, Neto, por cada porta aberta. Por cada refeição preparada, por cada encontro, por cada gesto de carinho e cuidado. Por cada cobrança que hoje virou saudade. Obrigado por ter acreditado no nosso coral, mesmo sem jamais ter vestido oficialmente nossas cores.

            Que Santa Edwiges, a quem você dedicou um lugar tão especial nesta terra, interceda por você diante daquele que venceu a morte e que é a própria Vida: Jesus.

Ave Maria, cheia de graça...

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

SOBRE A GRAÇA DE ENCONTRAR UMA IRMÃ PELO CAMINHO

Lorena, 03 de agosto de 2026. 
À Ritinha, querida.

Bem, dizem que as boas amizades começam quando um não gosta do outro de cara. E falo isso nem por mim, porque, logo que você chegou à Igreja Metodista, eu não tinha absolutamente nada contra você. Na verdade, você me conhecia de vista, mas, até então, você era praticamente invisível para muáh. (kkkk)
Mas me recordo do dia em que cheguei ao rol de entrada da Igreja para participar de uma celebração dominical, e você falou comigo pela primeira vez dizendo que eu estava sumido dos cultos. Acredito que foi ali que nasceu a nossa amizade. Desde então, passamos a dividir o mesmo neurônio em muitas etapas da vida.
Só pra constar: como um bom ex-metodista que sou, estou escrevendo este texto quatorze dias antes do seu aniversário. Ultimamente, minha terapeuta tem me feito pensar sobre a importância que algumas pessoas têm na minha vida, e você é aquela espécie de irmã mais velha meio "descabeçada, atrapalhada" que a vida resolveu me dar. E, apesar de todos esses anos de amizade, não temos praticamente nenhum registro fotográfico juntos. Talvez porque eu acredite que os melhores momentos são aqueles que a gente eterniza na memória e no coração, sem se preocupar com flashes... apesar de você não ser nada low profile, eu diria que uma das melhores blogueiras que sigo.  Provavelmente coisa do seu jeitinho leonino exibido de ser (jeitinho que eu amo!). kkkkk
Ritinha, era pra ser uma mensagem simples de aniversário, mas senti que, neste ano, eu precisava fazer diferente. Por isso estou aqui, caçando palavras para falar de você, como nos tempos dos depoimentos do finado Orkut.
Pensar na sua importância pra mim é, acima de tudo, pensar que a nossa conexão vai muito além desta vida... ou de outras, caso elas existam. Você é aquela amiga-irmã que Deus, na infinita sabedoria d'Ele, fez questão de colocar alguns anos à minha frente. Porque não ia prestar se a gente tivesse a mesma idade ou se tivesse se conhecido na adolescência.
Escrevo este texto com um profundo sentimento de pertencimento, como se eu tivesse licença para falar de você e até para defendê-la de certos falatórios, assim como seu lado leonino já me defendeu tantas vezes da maldade de gente "boa."
Quando penso em você, penso em serviço. Penso em alguém cujo coração é tão grande que encontra espaço até para ajudar quem não merece, mesmo que a vontade de mandar certas pessoas para o Hades nas mãos de Caronte e sem direito a moedinha, seja gigantesca. (KKKkk)
Muitas vezes, ao longo dessa efêmera existência, vamos perdendo um pouco do brilho de ser e nos esquecendo da grandeza que carregamos. E essa verdadeira "Convenção de Genebra" que estou escrevendo aqui serve justamente para lembrar da mulher gigante que você é. E não estou falando do seu peso — porque sei que, assim como eu, você também não é exatamente levinha. Kkkkk
Falo da grandeza da sua história. Do quanto você me edifica. Do quanto você ilumina a minha vida e a de tantas outras pessoas. Do quanto Deus contempla o seu esforço em tudo o que faz: na sua arte, na dedicação à sua casa, no cuidado com os seus filhos, com o seu sobrinho, com o marido, com os amigos e com qualquer pessoa que precise de um pouco do amor que transborda do seu coração.
Ritinha, o aniversário é seu, mas quem ganha o presente sou eu: a sua vida!
Tenho a graça de ter você por perto todos os dias, mesmo que a gente não se encontre com tanta frequência. Afinal, todos os dias a gente se fala, nem que seja para trocar memes, fazer nossas críticas existenciais ou falar mal daquele povo quadrado, sem graça e sem sal.
Em 2017, quando perdi minha avó paterna, Laura, você esteve ao meu lado. E nunca me esqueci do que você me disse durante a exéquias dela:
"É, meu amigo... Agora você ganhou uma ancestral. É hora de honrar a memória dela."
Acho que foi ali que começou, sem que eu percebesse, esse caminho de valorização da minha identidade, da minha história e da memória dos que vieram antes de mim.
Vivemos muitas coisas juntos. Você me ajudava nos almoços que eu coordenava na Igreja, me ajudava nas festas da EBF das crianças, nas celebrações ecumênicas, nos aniversários da Igreja, nas homenagens aos membros e clérigos... Enfim, você sempre esteve presente. Sempre.
E, no meio de tudo isso, percebi que nem consigo me lembrar exatamente de como "saí do armário" para você. Acho que foi tudo tão natural que sequer precisou de um grande ritual e de uma convenção. E olha que nós dois adoramos uma boa ritualística, não é? Convenhamos... um DNA de bruxinha a gente tem. E, por falar em "bruxinha", adorei o seu jardim suspenso com cara de altar da deusa Hécate. Se foi intencional, eu não sei; só sei que amei. E, já que estamos falando de bruxinhas, fama disso eu tenho de sobra... e tenho certeza de que você já me livrou de várias fogueiras do povo evangê. Kkkkk
Rita, neste novo ciclo que se inicia, quero desejar que você nunca perca aquilo que faz de você quem é. Que a vida continue sendo generosa com os seus sonhos, que Deus fortaleça os seus passos e que, todas as manhãs, quando a luz do sol atravessar a sua janela, ela também atravesse o seu coração, lembrando que sempre existe um novo motivo para recomeçar.
Que você nunca deixe de acreditar na beleza da vida, mesmo quando ela parecer pesada demais. Que jamais lhe falte esperança, pessoas sinceras ao seu redor, boas risadas, mesas fartas, café passado na hora, abraços demorados e motivos para continuar servindo ao mundo com esse coração imenso que você tem.
E, quando o cansaço tentar convencer você de que fez pouco, lembre-se de que há pessoas — como eu — que são fruto do amor que você espalhou sem nem perceber.
Obrigado por existir. Obrigado por permanecer. Obrigado por ser abrigo, conselho, gargalhada, acolhimento e presença.
Se um dia me perguntarem o que é uma amizade verdadeira, talvez eu não saiba explicar. Mas certamente vou saber apontar para você.
Feliz aniversário, Ritinha.
Que Deus continue escrevendo a sua história com a mesma delicadeza com que moldou seu coração. E que, quando os anos passarem e as nossas memórias forem maiores do que os nossos dias, a gente possa olhar para trás com a alegria de quem viveu uma amizade bonita, rara e daquelas que o tempo jamais consegue diminuir.
Amo você. Feliz vida. 

terça-feira, 28 de julho de 2026

BENDITA SEJA, REGINA!

 

[Mamãe Sandra Regina Ribeiro em momentos diversos]

Bendito seja o teu ventre, que me gerou. Bendita seja a tua essência e a tua história, que me fizeram existir. Benditos sejam o teu cuidado, o teu colo e o teu amor de mãe: o amor mais puro e genuíno, que acolhe, abraça, às vezes sufoca, mas que aceita as nossas melhores e piores versões.

Bendita sejas tu, filha e neta zelosa, que carrega em teu íntimo a presença de tantas mulheres, das quais aprendi a honrar a nossa memória e a manter viva a nossa ancestralidade que pulsa.

Bendita seja a tua capacidade cognitiva para tantos temas e assuntos, a tua diplomacia e elegancia, a tua admirável organização sistemática e estética, além da habilidade de discordar e argumentar com inteligência qualquer que seja o assunto.

Bendita seja a tua essência feminina, o teu toque sutil para as artes, para a docência e para gerir com tanta sabedoria, um lar que abriga tantas histórias.

Bendita sejas tu e a tua música, que me inspirou ao longo da minha caminhada. Bendita sejas tu, mulher forte, sábia e corajosa. Mulher que se faz presente e presença, que se faz ser vista e admirada e que, nos bons e nos maus momentos, permanece ao nosso lado. 

Bendita seja a tua prece, que nos mantém de pé e a tua capacidade de não medir esforços para que teus filhos, que nasceram de tuas entranhas, tenham sempre o melhor de ti, talvez aquilo que nunca tivesses antes. 

Bendita sejas tu, que me ensinaste com o teu próprio exemplo o valor da honestidade, da ética, da fé, da perseverança e da paixão pela vida, preceitos da efêmera dignidade humana. 

Bendita sejas tu, mamãe, de nome Sandra Regina, de origem grega e latina, que significa: "Aquela que protege" e "Rainha". Bendita sejas tu por cada renúncia silenciosa, por cada lágrima escondida e por cada oração feita ao tempo.

Que a Divina Ruah te conceda todas as alegrias desta vida, renovando sempre a tua saúde, concedendo-te uma vida próspera, longa e repleta de paz ao lado dos seus, para que possamos continuar escrevendo juntos a história deste estranho e maravilhoso jogo chamado vida.

Parabéns, mamãe. Nós te amamos e damos graças pela sua preciosa existência.

 


terça-feira, 14 de julho de 2026

DOZE ANOS DE MAGISTÉRIO EM LORENA-SP [14 DE JULHO DE 2026]

 


Hoje completo 12 anos de pleno exercício efetivo como professor Arte-Educador na Rede Municipal de Ensino de Lorena, e só tenho a agradecer a Deus por tudo o que fez por mim.

Ao longo desses anos, vivi muitas alegrias e alguns dissabores. Por muitas vezes pensei em desistir; só não o fiz porque Deus não permitiu. Entre erros e acertos — afinal, faz parte da nossa humanidade errar — ajudei a construir sonhos e a dar esperança a alguns futuros incertos.

Tive muitas perdas ao longo dessa história, além de algumas perseguições. Aprendi a lidar com a falta dos recursos necessários para uma educação de qualidade, que sempre vive à mercê dessa politicagem suja, a qual, no discurso, diz que tudo é em prol das crianças, mas, na prática, a realidade é  outra.

Nessa profissão, conheci o melhor e o pior do ser humano e fiz-me respeitado tão somente por minha competência profissional, já que nunca precisei ser "lambe-botas" de ninguém para galgar posições elevadas na educação. Tudo o que conquistei foi fruto do meu mérito, do meu trabalho e claro, da graça de Deus.

Os anos passam, e minha prece continua sendo a mesma do clérigo anglicano John Wesley: "Lord, don't let me live in vain"  ("Senhor, não permitas que eu viva em vão!").

E assim vamos vivendo, aprendendo com os erros e os acertos. Se a vida por vezes azeda, ela também exige de nós a força necessária e a oportunidade de fazer diferente.

Ao Dono da minha vida, aos meus pais e avós, aos meus muitos alunos, aos colegas de profissão e aos amigos que caminharam comigo ao longo dessa jornada, minha eterna gratidão!


sábado, 2 de maio de 2026

CICLOS DE ABRIL


Abril, para mim, é um mês de travessias. Carrega o peso de encerramentos, mas também a coragem silenciosa dos novos recomeços. É um tempo em que a vida parece apertar o coração para lembrar que nada permanece igual — e talvez seja justamente aí que mora o sentido de tudo.
Foi em abril que vivi uma das minhas mais dolorosas perdas: a partida da minha amada avó paterna, Laura. E, como se a vida insistisse em equilibrar ausências com movimentos, também foi no mês de abril que iniciei meu primeiro emprego, há exatos quinze anos. Neste abril, entre despedidas e recomeços, fui sendo atravessado por memórias, revisitando meu passado e reencontrando histórias guardadas no coração — algumas doloridas, mas que hoje me ajudam a compreender o sentido das coisas.
Abril também já me apresentou pessoas especiais, ao mesmo tempo em que me revelou verdades difíceis — verdades que não foram sustentadas por quem não fez questão de ficar. Tirei algumas pessoas da minha vida e agreguei outras, reconheci e enfrentei turbulências, especialmente no campo profissional. Não foi leve, e acredito que nem precisava ser. Por isso, tenho me permitido sentir o cansaço, acolher o desgaste, porque, antes do Rafael educador/multiartista, existe o Rafael humano, com sonhos, desejos, falhas e frustrações. Em abril, tive coragem de olhar para dentro de mim. Visitei minha criança interior, tão marcada por algumas pressões e inseguranças. Não foi um encontro fácil, e não tem sido fácil, mas foi — e está sendo — necessário me reconhecer nessas outras vertentes que desconhecia. Abril me ensina que não é preciso ser forte o tempo todo. Que chorar, se frustrar e até se desesperar não são sinais de fraqueza são partes legítimas de quem eu sou. E que também é preciso se abraçar quando necessário.
Quatro meses de um ano que ainda nem chegou à metade, e já carrega tantas histórias, lutas, livramentos, perdas, amores e novos desafios. A vida, esse jogo imprevisível e imediato, nos testa a todo instante, e a sorte nos é lançada. No fim de tudo, o que a gente espera é simples: que as coisas encontrem seu lugar, que a paz reine, depois de tanta tempestade, e que o amor encontre seu lugar, que é dentro da gente.

sábado, 24 de janeiro de 2026

UM DIA DEPOIS DE UMA QUINTA-FEIRA


Por: Rodrigo Falcone 

Levei um ghosting, e isso me doeu profundamente. Não fui intenso; apenas correspondi à altura, acompanhando o fluir das mensagens que trocávamos. No primeiro encontro, tudo pareceu mágico — aquela química rara de início. Foram dias de conversa afiada e intensa, partilha de gostos particulares, mensagens que iam do um simples “bom dia” ao sincero “como foi seu dia?”. Eu era, o tempo todo, resposta para aquilo que ele queria ouvir. Ou talvez eu tenha sentido demais. Ou talvez tenha sido só eu nesse jogo inteiro — um jogo de azar!

Viajei 300 quilômetros para vê-lo. Deixei de encontrar amigos de longa data para colocá-lo como prioridade naquele instante. E, numa quinta-feira despretensiosa, em um jantar simples, regado a bons papos e um vinho de qualidade duvidosa, servido numa taça de espumante — sim, esse foi o nível da cafonice —, trocamos carícias e afetos. Falamos sobre a vida, sobre ancestrais, religiões e destinos. O sexo aconteceu: intenso, carregado de energia e prazer, as vezes romântico, as vezes insano e depravado. Em alguns momentos, o nervosismo tomou conta, e a performance dos dois falhou. Sim, falhou — porque somos feitos de afeto e de cuidado, e nosso erro é criar expectativas demais. Acredito que sentimento até existiu, mas, no turbilhão das emoções humanas, o "Jurandir", se assim posso nomeá-lo, confundiu nos próprios afetos e escolheu a ausência.

A mensagem que eu esperava ao amanhecer não veio. O gesto de carinho, aquele simples perguntar como estava sendo meu dia, também não. Do lado de fora da janela daquele quarto de hotel onde eu estava hospedado, havia apenas chuva e frio. Por volta das 18h20min, chegou uma mensagem em tom gentil, perguntando como havia sido meu dia. Eu soube, naquele instante, que algo havia mudado — e não me refiro apenas à frieza dele, mas à forma como eu mesmo passei a administrar meus sentimentos e compreender que eu não fui de menos nem de mais. Eu apenas fui quem eu sou.

Minutos depois, uma mensagem curta: uma justificativa. O trabalho havia sido puxado, e ele jantaria com o pessoal do serviço. Ali compreendi que alguém tentava colocar sobre mim um peso de responsabilidade emocional que não me pertencia. Coube-me, então, a dignidade e o respeito de reconhecer o lugar que nunca foi meu.

Cheguei a São Paulo numa quinta, que até então era o meu dia preferido, pois foi quando eu nasci. Sofri numa sexta e, ao nascer da aurora de sábado, fiz o caminho de volta à cidade onde nasci — território de afetos, de memórias e de pessoas que me amam. Percebi que essa é a maior riqueza da vida e que, sim, podemos substituir devaneios humanos por sentimentos que realmente importam. Talvez seja por vivências assim que tanta gente deixou de acreditar no amor carnal entre dois seres.

Fiz pelo "Jurandir" o que até então não havia feito por ninguém, porque acreditei naquilo que vivemos. Investi tempo, dinheiro e afeto e, ao final, recebi apenas indiferença. Talvez por isso digam que a indiferença seja o sentido de tudo: ela não frustra, não decepciona — apenas nos devolve à realidade e nos ensina o lugar que nunca foi nosso.

No fim das contas, não permaneci em São Paulo todos os dias combinados, não vivi o que esperava, mas vivi o que era necessário. Com o tempo, compreendemos que algumas presenças não são essenciais; que, um dia, a falta sentida será a sua — e talvez o outro nunca perceba isso. Afinal, você foi você, e quem nasceu para viver no raso jamais compreenderá a imensidão de água que você é.

Hoje dói. Amanhã, provavelmente, também doerá. Mas depois a gente se refaz e continua tentando jogar esse jogo estranho da vida chamado amor.

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

NATAL: POLÍTICA DE CONSUMO OU MÍSTICA DA ESPIRITUALIDADE?

Dizem que o Natal perdeu seu significado, dando lugar ao consumismo exacerbado e à figura emblemática do Papai Noel. O Natal proporciona novos empregos, ainda que temporários, mas que para muitas pessoas serão suficientes para suprir as necessidades de quem vive à margem invisível da indiferença humana, podendo torná-los, assim, mais dignos, confiantes e, sobreamente, "humanos".

É tradição no Brasil e em diversas partes do mundo que as famílias se reúnam para decorar as casas com muitas luzes ou encher a árvore de Natal com presentes caros, onde, no dia 24, as crianças trocarão seus presentes. Cânticos natalinos serão entoados ao acender das velas que remetem à espiritualidade natalina, ou seja, à encarnação do Verbo, Jesus. Na véspera de Natal, há quem não descanse um minuto sequer, preparando os deliciosos pratos que serão servidos na tradicional ceia, tudo para aqueles que amamos, ou que pelo menos acreditamos amar. Todos unidos em volta de uma grande mesa para celebrar o nascimento do Menino Deus, de origem pobre e humilde, envolto em panos simples e depositado em um coxo onde comiam os animais. Tal menino que se fez pequeno e frágil para caber em nosso mundo, a fim de que um dia se entregasse por nós em um madeiro dolorido, sendo perseguido e morto pelo Estado. Um Deus que nunca julgava, acolhia. Um Deus que se tornou Cordeiro Sacrificial, obediente ao Pai, e que sobre si levou todas as nossas dores e enfermidades. Um Deus que busca habitar no mais profundo íntimo humano, bem longe dessa Igreja hegemônica do século XXI que tanto tem envergonhado o nome de Cristo.

Também existem aqueles que celebram o Natal de maneira diferente, seja por professarem outro credo, seja porque preferiram viver uma vida sem a influência de uma religião imposta por homens, mas que, independentemente disso, nessa época do ano se unem em um único laço de amizade. Mas o fato é o seguinte: todos, nessa época, estão "unidos" para renovar os votos de bondade, amor, paz, espiritualidade que costumam aparecer somente em datas festivas como as do mês de dezembro. É até bonito sentir os corações alegres transmitindo o Espírito Natalino. Mas, infelizmente, essa não é a realidade do ano inteiro. Preferimos trocar o amor pela indiferença, a partilha pelo consumo, e a unidade pelo vazio existencial e por todos os tipos de excessos.

Que neste Natal vivamos com verdade e na verdade, que nossa existência neste plano tenha sentido, e ao celebrarmos o Grande Mistério, possamos partilhar um pouco da graça que nos foi entregue por meio do Salvador do mundo. E vivamos Cristo, reconhecendo sua humildade no presépio, dando pão a quem tem fome e água a quem tem sede, respeitando cada um em sua individualidade, sem distinção de credo, orientação sexual, gênero, raça ou condição social. Peçamos a graça para que o Senhor dilate nosso coração a fim de que possamos receber um Deus grande que se faz pequeno para caber dentro de nós. 

Feliz e Santo Natal!

Por Rafael Rosa  
Escrito em 23 de dezembro de 2019.