sábado, 29 de agosto de 2026

TEMPO, CICLO E PESSOAS — REFLEXÕES


"Las dos Fridas" (As Duas Fridas), Frida Kahlo | Óleo sobre tela, 173,5 × 173 cm (1939). 
 Museo de Arte Moderna, Cidade do México, México. 

Aristóteles, em sua obra clássica Ética a Nicômaco, dividiu a amizade em três tipos: a amizade baseada na utilidade, a amizade baseada no prazer e a amizade verdadeira, fundada no bem e na virtude.

Recentemente, comecei a constatar que algumas pessoas do meu ciclo social se aproximavam de mim pensando no que eu poderia oferecer a elas, algo que Aristóteles compreendia como uma amizade baseada na utilidade, na lógica da troca. Já em relação a outras, senti um leve afastamento, quase imperceptível, mas bem visível para quem já aprendeu a ler a vida de outra forma.

Sei que existem amizades que nos conectam com a nossa essência, e o tempo e a distância não rompem as barreiras que um dia foram criadas a partir do laço e do vínculo estabelecidos anteriormente. Nessas horas, você realmente entende o sentido do que é o amor e da constância.

Já em outras relações, a gente entende que a vida é feita de fases e que a energia das pessoas sempre muda. Talvez a minha tenha mudado e, com isso, naturalmente, tenha ocorrido a finalização de um ciclo, e algumas pessoas tenham seguido um curso natural, por caminhos diferentes dos meus.

Mas, nessa reflexão, quero chamar a atenção para aquele tipo de amizade que nasceu de um interesse específico, sustentado pela ideia de utilidade ou de um prazer instável e inconstante.

Nos últimos dias, tenho passado por um processo de metamorfose, e dizem que, a cada cinco anos, ocorre um encerramento de ciclo na vida do homem. E, junto desse encerramento, como a fênix da mitologia grega, nasce uma nova etapa da vida. Ou seja, da morte de um ser para a vida. Ou, como descrito no livro de Eclesiastes: “Há um tempo para todo propósito de Deus debaixo do céu.”

Quando o ciclo de amizades muda, a gente acolhe, respeita, agradece pelo tempo que se passou e deixa ir aquilo que um dia fez total diferença na nossa vida, fosse essa diferença boa ou ruim.

Afinal, ninguém aparece por acaso. A vida, às vezes, exige circunstâncias adversas que são atravessadas por pessoas forjadas na luz e na sombra, para fazer de nós pessoas mais maduras e, de certo modo, mais fortes e resilientes.

Nesse meu processo de mudança estética, de uma nova vida gerada por meio do ingresso em um curso importante, percebi o afastamento de certas pessoas. Talvez porque essas pessoas tenham se aproximado por algum interesse específico, ou porque querem nos ver bem, mas nunca, em hipótese alguma, melhor do que elas.

Esta reflexão não é para fazer alusão à ideia de um lamento em si, mas, sim, uma síntese sobre o quão complexa e incompreendida é a humanidade.

Senti isso, inclusive, na forma como algumas pessoas me tratavam e na maneira como passaram a me tratar. Senti nos boicotes em determinadas situações da vida, no olhar discreto e sutil, nos comentários passivo-agressivos, que são quase imperceptíveis, mas perceptíveis e sensíveis ao olhar daqueles que aprenderam a ler a vida, os gestos e as pessoas.

A gente se chateia um pouco, porque, de alguma parte, sempre houve sinceridade em tudo o que sentíamos, mas a gente não controla as emoções e os sentimentos alheios, e talvez nosso grande defeito enquanto seres humanos seja sentir demasiadamente. 

De uma coisa a gente tira dessa lição toda: a vida passa, as pessoas vêm e vão embora, mas só sobrevivem aqueles que suportam a sua felicidade e as suas conquistas.

Estar ao lado de alguém nos momentos de tristeza e amargura é fácil; permanecer ao lado nos momentos de felicidade extrema é que é bem difícil. Talvez esse seja o maior desafio do ser humano enquanto habita este plano e talvez também seja este um dos grandes desafios da nossa efêmera humanidade, como tão bem expressou o poeta atemporal Gonzaguinha:

“Fé na vida, fé no homem, fé no que virá!”

No fim das contas, é mais sobre a lealdade daqueles que um dia juraram caminhar do seu lado, sobre como resignificamos a vida e as pessoas ao nosso lado, do que sobre a atitude de cada um durante o percurso do nosso caminhar.

Que consigamos viver a nossa frágil e passageira humanidade em sua integralidade, acolhendo os encontros, respeitando os desencontros e compreendendo que cada pessoa deixa em nós aquilo que, de algum modo, precisava deixar.

Vivendo e aprendendo.

Autoria: Rafael Victor Ribeiro

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

O RESSOAR DO ÚLTIMO ACORDE - Homenagem póstuma ao amigo Carlos Guimarães Neto

 

O RESSOAR DO ÚLTIMO ACORDE

Por: Rafael Victor Ribeiro


 Falecido em 20 de Junho de 2026

[Imagem gerada por inteligência artificial inspirada nas produções artísticas de Romero Brito]

            Há pessoas que passam pela nossa vida fazendo barulho, já outras passam em silêncio, mas deixam uma presença tão profunda e marcante que quando partem, caímos em si do tamanho do espaço que ocupavam em nós.

            Neto era assim. Homem de poucas palavras, reservado, silencioso, exigente consigo e com os outros, zeloso com tudo o que fazia e quase sempre obstinado a buscar perfeição das coisas. Mas, bastava um pouco mais de intimidade para perceber que, por trás daquele semblante sério e intimidador, havia um homem de coração imenso. Neto não fazia parte oficialmente do Coral Regina Caeli – muito embora o regente não se cansasse de convidá-lo – mas, de alguma forma, Neto pertencia a este coral.

            Pertencia porque acreditava no grupo, porque apoiava, porque servia... Era ele quem preparava deliciosos jantares para os aniversariantes, quem abria as portas do seu sítio para receber os paroquianos, quem se alegrava quando a casa estava cheia. Neto gostava de ver gente, de ver alegria, de ver pessoas reunidas celebrando a vida. E, quando demorávamos a aparecer, ele cobrava:

            – “Você está sumido, não aparece mais, não senta pra tomar café, não almoça mais com a gente!” Esse era o jeito dele dizer: “Vocês fazem falta aqui!”

            Hoje entendemos melhor o significado daquela cobrança, era a despedida que não aconteceu.

            Seu sítio no bairro Santa Lucrécia era mais do que um lugar para o Neto, era a extensão da sua alma. Ali estavam sua sensibilidade, seu gosto pela beleza, seu cuidado em cada detalhe, sua paixão pela natureza, pela decoração e pela boa mesa posta e farta. Ali ele cozinhava, organizava, recebia, cuidava. Ali ele servia.

            E, talvez essa seja uma das palavras que melhor definiram sua vida: Serviço e cuidado.

Neto cuidou dos pais até o fim. Cuidou dos amigos de longa data. Cuidou dos espaços. Cuidou dos encontros. Cuidou daquilo que amava. Era também um homem de fé, devoto de Santa Edwiges, quis que sua própria casa no campo tivesse uma capela dedicada a ela. E aquele espaço, que poderia ter sido apenas seu, tornou-se lugar de encontro, de orações, de partilha e espiritualidade que uniu tantas pessoas.

            Seu sítio tornou-se, de certa maneira, uma casa aberta. E talvez seja justamente isso que mais doa agora: saber que aquela porta continua existindo, mas que quem tantas vezes a abriu não está ali para nos receber.

            Neto cumpriu sua Páscoa no dia 20 de junho, e nós, seus amigos do Coral Regina Caeli, carregamos também uma pequena dor: por circunstâncias da vida, muitos de nós não conseguiram estar presentes na sua despedida para lhe prestar a homenagem que gostaríamos.

            Por isso estamos aqui. porque existem despedidas que não acontecem no momento exato em que a morte chega, algumas precisam de tempo. Precisam que a saudade amadureça. Precisam que o silêncio encontre um lugar para repousar para que, finalmente, encontremos palavras capazes de dizer aquilo que a ausência ensinou.

            Rubem Alves, certa vez escreveu que: “a saudade só floresce na ausência”, e talvez seja o que estamos experimentando. A ausência do Neto fez florescer a saudade. Saudade da mesa cheia, saudade das cobranças, saudade daquela presença discreta, silenciosa, saudade daquele último olhar...

            As Sagradas Escrituras nos recordam, que: “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu: tempo de nascer e tempo de morrer [Eclesiastes 3,1-2].

            Nós sabemos disso, sabemos racionalmente. Sabemos que a vida tem um começo e que, um dia, inevitavelmente, encontrará seu fim. Sabemos que somos peregrinos em terra estrangeira, e que o coração não aprende a finitude da vida como do mesmo ponto de vista da razão. Por outro lado, a fé nos ensina que a morte não é a última palavra. E São Paulo nos recorda por meio da sua carta aos I Coríntios 13,8 que o “amor jamais acaba”, o amor venceu a dor, e a própria morte foi vencida.

            Rubem Alves, refletindo sobre a morte, escreveu: “A morte é o último acorde que diz está completo!” Talvez nossa vida seja mesmo como uma grande composição musical: Há notas que muitas vezes não entendemos enquanto tocadas, não compreendemos sua harmonia complexa; há pausas; momentos de tensão e outros de relaxamento, e um dia, daqueles em que não espera o óbvio, o último acorde chega. Mas é porque a música termina que cada nota ganha sua importância dentro da estrutura harmônica chamada vida.

            Neto foi assim, compôs a própria vida no seu ritmo, com suas particularidades, fazendo da arte de reunir pessoas uma maneira de harmonizar a própria alma.  

            No ano passado, durante um dos ensaios preparatórios do recital do Coral, Neto interceptou nosso regente, Rafael, e comentou sobre uma música que havia acabado de ouvir. Era o “Ave Maria”, de Julio Caccini. Neto disse que aquela música o transportava aos céus. Contou que nunca havia escutado uma melodia tão linda antes. Talvez ele não soubesse, que naquele momento estava deixando para nós uma espécie de última mensagem. Porque hoje somos nós que ouvimos essa música e nos lembramos dele.

            Nesta noite, queremos fazer dessa canção, uma oração por um amigo que encontrou beleza na vida através do seu amor pela natureza, pela mesa cheia, pela amizade fraterna, pela fé e, sobretudo, pela presença das pessoas.

            Gostamos de pensar que a música que tanto o emocionou seja justamente uma oração dirigida a Maria, que a tradição cristã invoca como Mãe da misericórdia. Aquela que esteve junto à cruz, que conheceu de perto a dor da perda, aquela que aprendeu que amar é, muitas vezes, permanecer diante de um mistério sem ter todas as respostas.

            Neto não foi perfeito, ele foi humano. Com suas virtudes e seus limites, com suas exigências e convicções e sua maneira de demonstrar afeto. Mas foi também alguém que, dentro de sua humanidade, procurou oferecer o melhor aqueles que amava, e isso basta. Neto fez isso muitas vezes: servindo, recebendo, cozinhando, cuidando.

            Hoje, nos queremos dizer obrigado. Obrigado, Neto, por cada porta aberta. Por cada refeição preparada, por cada encontro, por cada gesto de carinho e cuidado. Por cada cobrança que hoje virou saudade. Obrigado por ter acreditado no nosso coral, mesmo sem jamais ter vestido oficialmente nossas cores.

            Que Santa Edwiges, a quem você dedicou um lugar tão especial nesta terra, interceda por você diante daquele que venceu a morte e que é a própria Vida: Jesus.

Ave Maria, cheia de graça...

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

SOBRE A GRAÇA DE ENCONTRAR UMA IRMÃ PELO CAMINHO

Lorena, 03 de agosto de 2026. 
À Ritinha, querida.

Bem, dizem que as boas amizades começam quando um não gosta do outro de cara. E falo isso nem por mim, porque, logo que você chegou à Igreja Metodista, eu não tinha absolutamente nada contra você. Na verdade, você me conhecia de vista, mas, até então, você era praticamente invisível para muáh. (kkkk)
Mas me recordo do dia em que cheguei ao rol de entrada da Igreja para participar de uma celebração dominical, e você falou comigo pela primeira vez dizendo que eu estava sumido dos cultos. Acredito que foi ali que nasceu a nossa amizade. Desde então, passamos a dividir o mesmo neurônio em muitas etapas da vida.
Só pra constar: como um bom ex-metodista que sou, estou escrevendo este texto quatorze dias antes do seu aniversário. Ultimamente, minha terapeuta tem me feito pensar sobre a importância que algumas pessoas têm na minha vida, e você é aquela espécie de irmã mais velha meio "descabeçada, atrapalhada" que a vida resolveu me dar. E, apesar de todos esses anos de amizade, não temos praticamente nenhum registro fotográfico juntos. Talvez porque eu acredite que os melhores momentos são aqueles que a gente eterniza na memória e no coração, sem se preocupar com flashes... apesar de você não ser nada low profile, eu diria que uma das melhores blogueiras que sigo.  Provavelmente coisa do seu jeitinho leonino exibido de ser (jeitinho que eu amo!). kkkkk
Ritinha, era pra ser uma mensagem simples de aniversário, mas senti que, neste ano, eu precisava fazer diferente. Por isso estou aqui, caçando palavras para falar de você, como nos tempos dos depoimentos do finado Orkut.
Pensar na sua importância pra mim é, acima de tudo, pensar que a nossa conexão vai muito além desta vida... ou de outras, caso elas existam. Você é aquela amiga-irmã que Deus, na infinita sabedoria d'Ele, fez questão de colocar alguns anos à minha frente. Porque não ia prestar se a gente tivesse a mesma idade ou se tivesse se conhecido na adolescência.
Escrevo este texto com um profundo sentimento de pertencimento, como se eu tivesse licença para falar de você e até para defendê-la de certos falatórios, assim como seu lado leonino já me defendeu tantas vezes da maldade de gente "boa."
Quando penso em você, penso em serviço. Penso em alguém cujo coração é tão grande que encontra espaço até para ajudar quem não merece, mesmo que a vontade de mandar certas pessoas para o Hades nas mãos de Caronte e sem direito a moedinha, seja gigantesca. (KKKkk)
Muitas vezes, ao longo dessa efêmera existência, vamos perdendo um pouco do brilho de ser e nos esquecendo da grandeza que carregamos. E essa verdadeira "Convenção de Genebra" que estou escrevendo aqui serve justamente para lembrar da mulher gigante que você é. E não estou falando do seu peso — porque sei que, assim como eu, você também não é exatamente levinha. Kkkkk
Falo da grandeza da sua história. Do quanto você me edifica. Do quanto você ilumina a minha vida e a de tantas outras pessoas. Do quanto Deus contempla o seu esforço em tudo o que faz: na sua arte, na dedicação à sua casa, no cuidado com os seus filhos, com o seu sobrinho, com o marido, com os amigos e com qualquer pessoa que precise de um pouco do amor que transborda do seu coração.
Ritinha, o aniversário é seu, mas quem ganha o presente sou eu: a sua vida!
Tenho a graça de ter você por perto todos os dias, mesmo que a gente não se encontre com tanta frequência. Afinal, todos os dias a gente se fala, nem que seja para trocar memes, fazer nossas críticas existenciais ou falar mal daquele povo quadrado, sem graça e sem sal.
Em 2017, quando perdi minha avó paterna, Laura, você esteve ao meu lado. E nunca me esqueci do que você me disse durante a exéquias dela:
"É, meu amigo... Agora você ganhou uma ancestral. É hora de honrar a memória dela."
Acho que foi ali que começou, sem que eu percebesse, esse caminho de valorização da minha identidade, da minha história e da memória dos que vieram antes de mim.
Vivemos muitas coisas juntos. Você me ajudava nos almoços que eu coordenava na Igreja, me ajudava nas festas da EBF das crianças, nas celebrações ecumênicas, nos aniversários da Igreja, nas homenagens aos membros e clérigos... Enfim, você sempre esteve presente. Sempre.
E, no meio de tudo isso, percebi que nem consigo me lembrar exatamente de como "saí do armário" para você. Acho que foi tudo tão natural que sequer precisou de um grande ritual e de uma convenção. E olha que nós dois adoramos uma boa ritualística, não é? Convenhamos... um DNA de bruxinha a gente tem. E, por falar em "bruxinha", adorei o seu jardim suspenso com cara de altar da deusa Hécate. Se foi intencional, eu não sei; só sei que amei. E, já que estamos falando de bruxinhas, fama disso eu tenho de sobra... e tenho certeza de que você já me livrou de várias fogueiras do povo evangê. Kkkkk
Rita, neste novo ciclo que se inicia, quero desejar que você nunca perca aquilo que faz de você quem é. Que a vida continue sendo generosa com os seus sonhos, que Deus fortaleça os seus passos e que, todas as manhãs, quando a luz do sol atravessar a sua janela, ela também atravesse o seu coração, lembrando que sempre existe um novo motivo para recomeçar.
Que você nunca deixe de acreditar na beleza da vida, mesmo quando ela parecer pesada demais. Que jamais lhe falte esperança, pessoas sinceras ao seu redor, boas risadas, mesas fartas, café passado na hora, abraços demorados e motivos para continuar servindo ao mundo com esse coração imenso que você tem.
E, quando o cansaço tentar convencer você de que fez pouco, lembre-se de que há pessoas — como eu — que são fruto do amor que você espalhou sem nem perceber.
Obrigado por existir. Obrigado por permanecer. Obrigado por ser abrigo, conselho, gargalhada, acolhimento e presença.
Se um dia me perguntarem o que é uma amizade verdadeira, talvez eu não saiba explicar. Mas certamente vou saber apontar para você.
Feliz aniversário, Ritinha.
Que Deus continue escrevendo a sua história com a mesma delicadeza com que moldou seu coração. E que, quando os anos passarem e as nossas memórias forem maiores do que os nossos dias, a gente possa olhar para trás com a alegria de quem viveu uma amizade bonita, rara e daquelas que o tempo jamais consegue diminuir.
Amo você. Feliz vida. 

quarta-feira, 29 de julho de 2026

ANCESTRAIS - BISAVÓ ESMERALDINA RIBEIRO ALVES

 

"Abre a mão ao aflito; e ainda a estende ao necessitado."

 Provérbios 31:20 

Esmeraldina Ribeiro Alves nasceu em 17 de dezembro de 1917, em Virgínia, Minas Gerais, e faleceu em 29 de julho de 1995, em Lorena, São Paulo. Sua vida foi marcada por profundas dores, mas, sobretudo, por uma fé inabalável, pelo serviço ao próximo e por uma extraordinária capacidade de transformar o sofrimento em amor. Ainda jovem, por volta de 1929, juntamente com sua família, converteu-se ao protestantismo, passando a integrar a Igreja Metodista, comunidade à qual permaneceu fiel até o fim de seus dias. Sua fé não era apenas professada, mas vivida diariamente por meio de atitudes silenciosas e generosas. Era uma mulher de poucas palavras e sem instrução formal, aprendeu a ler e a escrever durante a velhice; possuía uma sabedoria que a vida lhe ensinou. Enfrentou perdas que poucas pessoas conseguiriam suportar. Ao longo da maternidade, viu cinco de seus filhos falecerem ainda pequenos, depois de viverem apenas alguns meses. Mais tarde, sofreu o abandono do marido que sofria esquizofrenia e precisou aprender a enfrentar o preconceito imposto às mulheres desquitadas em uma sociedade marcada por rígidos julgamentos. Mesmo diante de tantas adversidades, criou com dignidade e amor seus quatro filhos sobreviventes: Eliel, Leonídia, Leontina e Maurisa. Com o trabalho humilde de lavadeira, sustentou a família e garantiu que seus filhos tivessem condições de seguir em frente. Sua dedicação à Igreja Metodista foi uma das marcas mais profundas de sua existência. Em Piquete e, posteriormente, em Lorena, serviu durante muitos anos na Ação Social e no ministério de Visitação, levando conforto aos enfermos, visitando orfanatos, asilos e idosos acamados da Igreja. Para ela, servir era uma forma de testemunhar o Evangelho de Jesus. Dotada de grande habilidade manual, dominava com impressionante talento as técnicas de crochê, tricô, bordado e corte e costura. Seus trabalhos não eram apenas fonte de renda, mas também expressão de carinho e instrumento de solidariedade, frequentemente destinados às ações beneficentes da Igreja. Nos últimos anos de vida, enfrentou o câncer por duas vezes. Na primeira, os médicos lhe deram apenas seis meses de vida, porém, viveu mais oito anos. Na segunda vez, a ocorrência foi mais agressiva e acabou por levá-la. Mesmo convivendo com intensas dores, raramente reclamava. Quase nunca falava sobre os sofrimentos do passado. Costumava dizer que o sofrimento de Cristo na cruz era infinitamente maior do que qualquer dor que ela pudesse sentir e, por isso, oferecia suas próprias aflições a Deus como forma de sacrifício de louvor. Em um dos gestos mais simbólicos de sua vida, deixou preparados, antes de falecer, seus últimos trabalhos de artesanato destinados à Ação Social da Igreja Metodista, bem como separado o valor de seu fiel dízimo. Até seus últimos dias, permaneceu servindo a Deus e ao próximo, demonstrando que sua fé não dependia das circunstâncias, mas era o alicerce sobre o qual edificou toda a sua existência. A história de Esmeraldina Ribeiro Alves é a história de uma mulher simples, cuja grandeza jamais esteve nos títulos ou nos bens materiais, mas na coragem de enfrentar as perdas, na força para recomeçar do zero, na dedicação aos filhos, no serviço aos necessitados e na confiança inabalável em Deus. Seu legado permanece vivo na memória de sua família e de sua Igreja, além de todos aqueles que tiveram o privilégio de conhecer sua humildade, sua generosidade e fé. Graças e Louvores sejam dadas a Jesus pela vida de D. Esmeraldina Ribeiro Alves.

Autoria: Rafael Victor Ribeiro [bisneto de dona Esmeraldina].

terça-feira, 28 de julho de 2026

BENDITA SEJA, REGINA!

 

[Mamãe Sandra Regina Ribeiro em momentos diversos]

Bendito seja o teu ventre, que me gerou. Bendita seja a tua essência e a tua história, que me fizeram existir. Benditos sejam o teu cuidado, o teu colo e o teu amor de mãe: o amor mais puro e genuíno, que acolhe, abraça, às vezes sufoca, mas que aceita as nossas melhores e piores versões.

Bendita sejas tu, filha e neta zelosa, que carrega em teu íntimo a presença de tantas mulheres, das quais aprendi a honrar a nossa memória e a manter viva a nossa ancestralidade que pulsa.

Bendita seja a tua capacidade cognitiva para tantos temas e assuntos, a tua diplomacia e elegancia, a tua admirável organização sistemática e estética, além da habilidade de discordar e argumentar com inteligência qualquer que seja o assunto.

Bendita seja a tua essência feminina, o teu toque sutil para as artes, para a docência e para gerir com tanta sabedoria, um lar que abriga tantas histórias.

Bendita sejas tu e a tua música, que me inspirou ao longo da minha caminhada. Bendita sejas tu, mulher forte, sábia e corajosa. Mulher que se faz presente e presença, que se faz ser vista e admirada e que, nos bons e nos maus momentos, permanece ao nosso lado. 

Bendita seja a tua prece, que nos mantém de pé e a tua capacidade de não medir esforços para que teus filhos, que nasceram de tuas entranhas, tenham sempre o melhor de ti, talvez aquilo que nunca tivesses antes. 

Bendita sejas tu, que me ensinaste com o teu próprio exemplo o valor da honestidade, da ética, da fé, da perseverança e da paixão pela vida, preceitos da efêmera dignidade humana. 

Bendita sejas tu, mamãe, de nome Sandra Regina, de origem grega e latina, que significa: "Aquela que protege" e "Rainha". Bendita sejas tu por cada renúncia silenciosa, por cada lágrima escondida e por cada oração feita ao tempo.

Que a Divina Ruah te conceda todas as alegrias desta vida, renovando sempre a tua saúde, concedendo-te uma vida próspera, longa e repleta de paz ao lado dos seus, para que possamos continuar escrevendo juntos a história deste estranho e maravilhoso jogo chamado vida.

Parabéns, mamãe. Nós te amamos e damos graças pela sua preciosa existência.

 


terça-feira, 14 de julho de 2026

DOZE ANOS DE MAGISTÉRIO EM LORENA-SP [14 DE JULHO DE 2026]

 


Hoje completo 12 anos de pleno exercício efetivo como professor Arte-Educador na Rede Municipal de Ensino de Lorena, e só tenho a agradecer a Deus por tudo o que fez por mim.

Ao longo desses anos, vivi muitas alegrias e alguns dissabores. Por muitas vezes pensei em desistir; só não o fiz porque Deus não permitiu. Entre erros e acertos — afinal, faz parte da nossa humanidade errar — ajudei a construir sonhos e a dar esperança a alguns futuros incertos.

Tive muitas perdas ao longo dessa história, além de algumas perseguições. Aprendi a lidar com a falta dos recursos necessários para uma educação de qualidade, que sempre vive à mercê dessa politicagem suja, a qual, no discurso, diz que tudo é em prol das crianças, mas, na prática, a realidade é  outra.

Nessa profissão, conheci o melhor e o pior do ser humano e fiz-me respeitado tão somente por minha competência profissional, já que nunca precisei ser "lambe-botas" de ninguém para galgar posições elevadas na educação. Tudo o que conquistei foi fruto do meu mérito, do meu trabalho e claro, da graça de Deus.

Os anos passam, e minha prece continua sendo a mesma do clérigo anglicano John Wesley: "Lord, don't let me live in vain"  ("Senhor, não permitas que eu viva em vão!").

E assim vamos vivendo, aprendendo com os erros e os acertos. Se a vida por vezes azeda, ela também exige de nós a força necessária e a oportunidade de fazer diferente.

Ao Dono da minha vida, aos meus pais e avós, aos meus muitos alunos, aos colegas de profissão e aos amigos que caminharam comigo ao longo dessa jornada, minha eterna gratidão!


sábado, 2 de maio de 2026

CICLOS DE ABRIL


Abril, para mim, é um mês de travessias. Carrega o peso de encerramentos, mas também a coragem silenciosa dos novos recomeços. É um tempo em que a vida parece apertar o coração para lembrar que nada permanece igual — e talvez seja justamente aí que mora o sentido de tudo.
Foi em abril que vivi uma das minhas mais dolorosas perdas: a partida da minha amada avó paterna, Laura. E, como se a vida insistisse em equilibrar ausências com movimentos, também foi no mês de abril que iniciei meu primeiro emprego, há exatos quinze anos. Neste abril, entre despedidas e recomeços, fui sendo atravessado por memórias, revisitando meu passado e reencontrando histórias guardadas no coração — algumas doloridas, mas que hoje me ajudam a compreender o sentido das coisas.
Abril também já me apresentou pessoas especiais, ao mesmo tempo em que me revelou verdades difíceis — verdades que não foram sustentadas por quem não fez questão de ficar. Tirei algumas pessoas da minha vida e agreguei outras, reconheci e enfrentei turbulências, especialmente no campo profissional. Não foi leve, e acredito que nem precisava ser. Por isso, tenho me permitido sentir o cansaço, acolher o desgaste, porque, antes do Rafael educador/multiartista, existe o Rafael humano, com sonhos, desejos, falhas e frustrações. Em abril, tive coragem de olhar para dentro de mim. Visitei minha criança interior, tão marcada por algumas pressões e inseguranças. Não foi um encontro fácil, e não tem sido fácil, mas foi — e está sendo — necessário me reconhecer nessas outras vertentes que desconhecia. Abril me ensina que não é preciso ser forte o tempo todo. Que chorar, se frustrar e até se desesperar não são sinais de fraqueza são partes legítimas de quem eu sou. E que também é preciso se abraçar quando necessário.
Quatro meses de um ano que ainda nem chegou à metade, e já carrega tantas histórias, lutas, livramentos, perdas, amores e novos desafios. A vida, esse jogo imprevisível e imediato, nos testa a todo instante, e a sorte nos é lançada. No fim de tudo, o que a gente espera é simples: que as coisas encontrem seu lugar, que a paz reine, depois de tanta tempestade, e que o amor encontre seu lugar, que é dentro da gente.