A Graça de Envelhecer
Por: Rafael Victor Ribeiro
Viver é um dom gratuito de Deus, principalmente quando se vive com intensidade e com qualidade de vida, aproveitando tudo aquilo que ela tem de bom a oferecer.
Considero-me um "sujeito de sorte", bem como definiu o poeta brasileiro Belchior em sua música, pois nasci e cresci nesta terra — lugar das goiabeiras e de Nossa Senhora da Piedade — que, popularmente, também é afeiçoada por esta gente como "terra das palmeiras imperiais" (Lorena). Mas é certo também dizer que cresci entre a serra de Piquete e o bosque de Cruzeiro, que acreditava ser encantado, o que me fez naturalmente, crescer com uma imaginação fértil.
Recebi boa educação, extremamente rigorosa em que o estudo era parte essencial na nossa criação. Não tínhamos luxo, éramos crianças simples, tínhamos o básico para viver sem excessos, de modo que pudéssemos aprender a valorizar o pouco e com sabedoria. Sou o primeiro neto por parte da família materna e o quinto neto por parte da família paterna. E isso me deu certas vantagens, das quais não pretendo entrar em detalhes. rsrs
Mamãe era exigente e perfeccionista com os meus estudos e, principalmente, no cuidado da casa. Nossa diversão eram os desenhos e programas da TV Cultura, que aguçaram minha sensibilidade artística. Aos domingos, frequentávamos a Igreja, e eu cantava no coralitoh; à tarde, passeávamos na praça; eu adorava tomar o sorvete que o vovô comprava da tradicional "Sorveteria Dallas". Vez ou outra, nosso destino eram os passeios na feira da barganha, e ainda posso me lembrar da minha avó (Laura) negociando suas bugigangas.
Nas raras exceções: se merecesse, papai nos levava, eu e meu irmão, para um passeio de charrete com pônei na praça Arnolfo de Azevedo. Papai sempre foi bem rígido e sistemático com tudo, e nos corrigia sempre com o que tivesse em mãos, se fosse necessário. Seu lema era: Organizar e disciplinar! O fato é: ninguém apanhava a troco de nada, e eu sempre fui bem afrontoso e desafiador, importante ressaltar. Não é à toa que meu apelido, entre a "boca miúda" da prefeitura, é "Rafael, o causador!". Sem dúvidas, assumo esse título não como alguém que naturalmente arranja confusão a troco de qualquer coisa, mas como alguém que não aceita qualquer coisa, que é crítico, irreverente e meio sem filtro pra gente sem noção. Gosto de pensar que eu não tenho paciência pra quem tá começando, como bem gosta de dizer a atriz Susana Vieira. É aquele ditado: "Fala o que não quer, escuta o que não quer." Sou daqueles que mando de volta o constrangimento sem dó nem piedade. Mas é preciso dizer que nem sempre fui assim; durante muitos anos, engolia a seco. Em casa era fácil ser irreverente, afrontoso e desafiador; na rua era difícil. Por vezes, sofria calado, e anos de terapia ainda não resolveram meus problemas 100%, mas seguimos nos tratando. Com o tempo, a gente vai aprendendo a se impor e se fazer ser respeitado e temido por onde passa.
De certo modo, sempre fui muito privilegiado. Estudei música e teatro durante a infância e adolescência. Tive excelentes professores e, naturalmente, tenho bons amigos. A escrita sempre foi um dos meus grandes hobbies, e o papai ainda deve guardar algumas de minhas produções autorais da época da 3ª série do Ensino Fundamental. Naquele tempo, eu tinha tantos sonhos, tantos projetos... Alguns se cumpriram, outros desapareceram, e há aqueles que ainda estou a descobrir.
Nosso destino nas férias dos anos 90 era Ubatuba, cidade que, após a morte do vovô Pedro, em 2008, ficou difícil frequentar. E, recentemente, após muitos anos, visitei Ubatuba e, confesso, não me senti bem. Daí me lembrei de um poeta que disse que, se fomos felizes em um determinado lugar, era para nunca mais voltar àquele lugar, justamente para preservar todo sentimento bom que um dia existiu ali.
Meus pais me instruíram na fé protestante, da qual eu recebi toda a minha base teológica e histórica através da influência de minha avó materna, Leonídia, pela Igreja Metodista, já que meus pais passearam por algumas denominações até descobrirem um lado espiritual independente de religiões. A vivência ecumênica sempre foi prerrogativa principal na minha vida, até porque os desafios da unidade cristã sempre estiveram presentes no seio da minha origem familiar, que, religiosamente falando, era bem diversa: Protestantes Tradicionais, Protestantes Pentecostais, Católicos, Espíritas, Umbandistas, ateus, espiritualistas entre outros crenças. E, assim, como Irmão Roger, da Comunidade de Taizé, vivi minha vida toda "cruzando certas barreiras confessionais", o que ele também gostava de chamar de processo de "enriquecimento gradual da fé", ou seja, o ministério da unidade encarnada. Em 2024, me desliguei da Igreja Metodista e, desde então, em determinado momento do mesmo ano, fui acolhido na Igreja Católica, onde tenho procurado viver sob um outro ponto de vista, além de me nutrir do sacramento da Sagrada Eucaristia e da confissão mensal. Isso não quer dizer que joguei no "lixo" tudo o que aprendi das minhas raízes protestantes metodistas, até porque as familiaridades com o catolicismo são muitas, e um querido pastor protestante metodista, amigo de longa caminhada cristã ecumênica, certa vez me disse que a Igreja Metodista é filha da Igreja da Inglaterra, irmã das Igrejas protestantes da Suiça e da Alemanha e, naturalmente, neta da Igreja de Roma. Ou seja, isso tudo é pra dizer que ainda levo comigo muitos ensinamentos que me moldaram enquanto ser humano, um deles, ao qual não abri mão: o ecumenismo e a ação social: "Ora et labora" (Reza e trabalha). Com relação ao tema da Unidade dos Cristãos, a Igreja Metodista é pioneira nessa discussão, e a Igreja Católica, somente após o Concílio do Vaticano II, estabeleceu aproximação com outras ramificações do cristianismo, tornando notavelmente uma Igreja Ecumênica.
O Credo Social da Igreja Metodista no Brasil estabelece:
"A Igreja Metodista participa dos propósitos de unidade cristã e serviço mundial, do CMI (Conselho Mundial de Igrejas), do Ciemal (Conselho de Igrejas Evangélicas Metodistas da América Latina e Caribe), do Clai (Conselho Latino-Americano de Igrejas) e do Conic (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs); Cremos que a comunidade cristã universal é serva do Senhor, sua missão nasce sempre dentro da missão do seu único Senhor."
IGREJA METODISTA, 2018, p. 50, cap. III, seção II, item 1.
Hoje, no entanto, sigo em outro ritmo, por um caminho distinto, sob outra ótica, o que me faz crer que sou bem privilegiado diante de tantas experiências que moldaram minhas experiências de fé.
Os anos passam, pessoas vêm e vão. Algumas encerram sua trajetória para esta vida, outras simplesmente seguem um caminhar diferente do nosso, ou por opção, ou por distanciamento, ou qualquer que seja a questão em si. Mas a nossa história não deixa de ser contada, e ninguém aparece e desaparece do nada; cada qual cumpre exatamente o tempo que deveria cumprir em nossa jornada de peregrinação nesse mundão de meu Deus.
Confesso que ainda não me acostumei a estar na casa dos 30+, caminhando para os 40, mas envelhecer é de qualquer forma um dom gratuito de Deus: viver com saúde, ter um bom emprego, claro, apesar das falhas de um sistema de educação falido e, principalmente, dos muitos conflitos existentes na esfera pública, tenho a graça de formar seres pensantes, como dizia Paulo Freire, e é nesse coletivo de cidadãos críticos, criativos e atuantes em sociedade que volto meu olhar para a esperança que não decepciona. Novamente, percebo que, em toda a minha trajetória, tenho cumprido o leva de vida a mim destinado: "Lord, don't let me live in vain", oração do clérigo anglicano John Wesley, que diz: "Senhor, não me permita ter uma vida em vão!"
Desse modo, concluo que minha trajetória é louvável e foi unicamente sonhada e está sob os cuidados e a misericórdia do Deus Altíssimo, ou seja, dom precioso dEle. Claro que nem tudo são flores; as pedras e os vendavais tempestuosos sempre vêm e vão; de certo modo, eles também são movimento, é a vida seguindo seu curso natural e exigindo passagem. Mas, uma vez que depositamos nossa confiança em Cristo, sob o cuidado maternal de Maria Santíssima, da qual fomos gerados espiritualmente, uma vez que guardamos os mandamentos de Deus e de sua semente fomos gerados como seus remanescentes, tudo vai bem. É nos momentos de caos que a gente chega à conclusão de que os turbilhões muitas vezes vêm até nós para que possamos reconfigurar a rota ou simplesmente crescer e evoluir em algumas áreas que Deus sonha para cada um.
Nos últimos dias, descobri alguns dons que nasceram do silêncio e do claustro. Confesso que nunca imaginei que seria possível, e ainda estou me familiarizando com esse novo despertar, que é uma novidade que ainda me assusta. Pode ser que seja passageiro, pode ser que não, e aquilo que nasce no coração do homem é dom precioso de Deus. De uma coisa tenho certeza: em tudo, em todos os meus passos, em todas as minhas escolhas e em quaisquer que sejam os meus devaneios humanos, a presença de Deus sempre está comigo. Desse modo, todas as minhas faltas são supridas conforme Deus acha necessário, e, apesar dos meus excessos de vaidade, que não se pode negar enquanto "libriano" do primeiro decanato (rsrs), sou um homem simples, que sempre foge dos holofotes.
Eu nasci em 27 de setembro, numa quinta-feira, às 06h55min da manhã. E o dia 27, para mim, se tornou especial porque é também o dia em que a Igreja recorda a memória de São Vicente de Paulo, um santo francês, de origem humilde, que abdicou da vida para ajudar os necessitados, pessoas que viviam nos vilarejos rurais e que provavelmente não tinham perspectiva de vida. E acredito que é por isso que tenho forte essa ligação com a natureza e com grande parte de atividades de natureza social. Esse é um legado que carrego comigo, uma força presente diante da história de tantos homens e mulheres fortes, que cresci vendo se doarem aos necessitados.
Envelhecer, portanto, não é apenas contar os anos que se passaram, mas reconhecer tudo aquilo que somos e tudo aquilo que Deus nos permitiu viver, aprender, perder, construir, reconstruir e transformar-se ao longo do caminho mediante a graça Divina. A idade carrega consigo o peso de uma história e, em cada lembrança, a marca de uma vida em plenitude. Cada encontro deixa alguma coisa de nós e leva consigo algo que já não faz mais sentido.
Aos 36 anos, olho para o passado com gratidão e para frente com esperança e fé no que há de vir. Ainda há muito a aprender, muito a sonhar, muito a desejar e muito a percorrer. Ainda há de encontrar pessoas, ainda há de realizar sonhos, adquirir experiências e viver. Se a vida é um dom gratuito de Deus, envelhecer também é graça perene: é a graça de continuar caminhando, aprendendo, servindo e descobrindo, pouco a pouco, o que Deus ainda sonha realizar em nós.
E assim, pela estrada da vida, caminhando e cantando, vou vivendo minha vida, minha música, minha arte e, principalmente, minha fé, além de tantos outros caminhos que a vida ainda haverá de revelar e que, certamente, reserva pra mim. Mesmo sem que saibamos onde cada estrada terminará, confiando que, onde houver vida, haverá também esperança e, a cada novo amanhecer, um motivo para sorrir e agradecer.
Gracias a la vida!