Por: Rodrigo Falcone
Num reino nem tão distante das desilusões, as paredes eram forjadas e adornadas com sorrisos forçados, indiferenças e muito desdém. Os corredores ecoavam sussurros disfarçados de amizade; o discurso era que tudo era em prol das crianças camponesas que viviam de pés descalços num frio congelante, onde a esperança parecia não mais existir. Assim, a vida seguia seu curso entre intrigas e estratégias maquiavélicas.
No centro do reino das desilusões, havia um enorme palácio, mais conhecido como o "Palácio do Poder", que era governado por uma mulher que sabia muito bem mascarar seus sentimentos. Ao invés de ser a guardiã da imparcialidade, optou por se tornar rainha adorada pelas corte e seus súditos.
A rainha mãe adorava promover grandes festas da mais alta estirpe, sempre regadas a bons vinhos, canapés franceses, iguarias que só conhecemos de ouvir falar e um toque sutil de boa política. No centro do reino das desilusões, alguns personagens personificavam os desafios diários de quem ao menos se atrevia a sonhar com um ambiente mais justo e dentro dos padrões impostos pela boa sociedade aristocrática do séc. XIX — ou, ao que se sabe, pelo que sobrou dela.
Clara Aduladora era uma figura que não sabia muito sobre as complexidades do reino e seus mistérios; mesmo assim, fazia de tudo para se manter entre os súditos da nobreza. No entanto, seu talento para a política do elogio era inegável. Com um sorriso faceiro sempre no rosto e palavras angelicais na ponta da língua, navegava pelas reuniões e festas do grande palácio como uma sereia encantando marinheiros perdidos ao mar do esquecimento. Suas doces canções eram apenas superficiais, pois não compreendia bem o que realmente acontecia na superfície tranquila do lago.
Valentina Vórtex era uma verdadeira artista que honestamente vivia a vida em busca do seu bom e velho holofote. Sempre buscando brilhar mais que os outros, tornou-se braço direito da rainha e dedicava-se a invalidar qualquer "iniciativa real" que não fosse sua. Seu olhar ansioso por reconhecimento ofuscava as iniciativas de outros membros da realeza. Para ela, o sucesso era uma competição em que apenas um poderia vencer — e ela estava determinada a ser a escolhida; mesmo que precisasse eliminar quem quer que fosse que ousasse entrar em seu caminho, como ocorreu com sua meia-irmã Luna Vórtex, que ousou organizar um grande baile de gala em comemoração ao aniversário do Imperador Eusébio Montanari.
Entre a comitiva real da rainha mãe, havia também a lady Lilith Serpentina. Ao que se sabe, não pertencia ao reino, mas casou-se com um famoso marquês e se estabeleceu nessas bandas. De pouquíssimas palavras e aparência feita flor, mas bem tóxica e de veneno mortal e ambíguo. Com sua aparência meiga e seu comportamento clássico — o que se espera de alguém da mais alta nobreza — enganava bem com sua fachada gentil. Porém, por trás do lindo sorriso e da voz aveludada, traçava estratégias de maneira única para derrubar aqueles que se atrevessem a entrar em seu caminho. Movia-se nas sombras como uma cobra traiçoeira: ágil e perspicaz. Sua grande especialidade era semear desconfiança, discórdia e espalhar boatos nos corredores do palácio, sempre atenta para levar informações à rainha e assim ganhar crédito real e possíveis alianças com seus aliados.
Havia também alguns lacaios e damas de companhia que não sabiam bem sobre suas funções reais, mas certamente foram cuidadosamente treinados pelo Conselho dos Artífices — na verdade que muitas vezes ditava as ordens para a rainha — tendo sob o grande comando a primeira-ministra Morgana Struty Saviên, mais conhecida entre os vassalos da côrte como "lady Aço."
Neste cenário de alianças (in)questionáveis e rivalidades silenciosas, quem não se forjasse aos moldes das sombras, muitas vezes era posto de lado e silenciado, tendo como destino a forca ou a guilhotina.
Os sonhos de transformação social e de um idealismo marxista, por vezes eram sufocados sob o peso de muitas intrigas e da falta de imparcialidade entre os clãs. O reino tornava-se cada vez mais um labirinto sem saída onde as vozes dos oprimidos eram por vezes silenciadas.
Mas, apesar dos grandes desafios, havia um pequeno grupo de sonhadores que acreditavam na mudança; valorizavam a coroa e almejavam dias melhores para o reino e o reinado.
E assim, entre as sombras e estratégias contrárias nos corredores do Palácio do Poder, esses sonhadores persistiam em suas esperanças. Eles sabiam que a verdadeira transformação exigiria coragem para desafiar as normas estabelecidas pela monarquia absolutista, lutando contra as correntes da opressão. No coração do Reino das Desilusões, ainda pulsava uma chama de esperança e de solidariedade. A crença em dias melhores à frente de seu tempo, a saber que é ele quem molda o presente.
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