quinta-feira, 3 de setembro de 2026

RAÍZES, CAMINHOS E MEMÓRIAS ANCESTRAIS


Da esquerda para direita: (familiar não identificado); Benedito Mira; Esmeraldina Ribeiro (minha bisavó); Maria Ribeiro da Soledade (minha pentavó); Rita Ribeiro da Conceição (minha trisavó); Ana (bebê no colo); Luiz José Mira (meu trisavô); Maria Ribeiro (criança da frente) e Bernardina Ribeiro (criança da frente). 

Fotografia gentilmente cedida pela prima Nilce Pereira Callisaya. 

Raízes, Caminhos e Memórias Ancestrais
Por: Rafael Victor Ribeiro 

Conhecer a própria genealogia é percorrer os caminhos daqueles que nos precederam, cuja história, em algum momento, tornou-se apenas fragmento no tempo e no espaço. Cada nome, cada data, cada costume e curiosidade registrados na história familiar representam um pequeno conjunto de caminhos que, aos poucos, gradativamente, foram formando as nossas gerações, rompendo barreiras de séculos de história. Compreender quem somos vai muito além da história do nosso presente, mas parte da compreensão dos indivíduos todos, que a ciência já comprova que, em nosso DNA, carregamos carga ou memória energética de pelo menos cinco gerações passadas. Ou seja, somos parte de uma história muito maior, construída por pessoas em contextos diversos, com inúmeras histórias que, certamente, na sua humanidade, amaram, trabalharam, sofreram, sonharam, se apaixonaram e deixaram suas marcas em nós e no mundo que habitamos.

Desde a minha juventude, eu tinha o desejo de conhecer um pouco mais sobre as minhas origens ancestrais, e esse desejo só aumentou conforme o tempo foi passando. O tema sobre memória, história e identidade sempre foi, para mim, algo bastante complexo. Era como se eu não encontrasse neste tempo as respostas que precisava, como se algo não encaixasse bem. Como se tudo o que eu tinha conquistado fosse ainda incompleto, porque vivia sempre com um sentimento de falta, com um sentimento de não pertencimento a este tempo e lugar. Foi então que pude compreender que toda essa sensação de falta não dizia respeito a mim, mas às gerações que me precederam.

Diferentemente dos asiáticos e até mesmo das civilizações mais antigas, o povo ocidental não é muito de honrar a memória ancestral, eu diria quase nada. E, quando falo em memória, não digo a memória subjetiva, mas a atemporal, aquela que se constrói e que se consolida no presente, que passa pelo passado e que pode ser possível para alguns reescreverem suas histórias ancestrais pautados em hipóteses, tendo em vista que grande parte dos nossos ancestrais sofreu um grande apagamento histórico devido, inclusive, ao processo de escravidão e de abusos psicológicos, sexuais e de todos os tipos de tortura, violência e invasão que esta terra sangrenta já viveu.

Por sugestão de uma amiga, encontrei um site dos nossos irmãos mórmons chamado “FamilySearch”, e aquilo que, no começo, parecia somente passatempo de um jovem curioso passou a se tornar coisa séria. Comecei construindo minha árvore genealógica de baixo para cima, ou seja, do presente para o passado. Incluí meus pais, meu irmão, meus avós paternos, avós maternos, bisavós, tios e assim sucessivamente. Algumas pesquisas se estagnaram, cheguei somente nos meus bisavós e nada mais. Nenhuma outra informação, infelizmente. Isso se deve ao fato do que já coloquei anteriormente: apagamento histórico. Parte dos meus ancestrais é de origem indígena e africana, e o mais próximo que consegui chegar foi nas histórias que ouvia dos meus avós sobre a infância, a história e a cultura de seus avós. Por vezes, pensei em desistir, mas algo dentro de mim dizia que eu deveria continuar. Mesmo cansado, algo me impulsionava a continuar uma fonte de pesquisas. E assim, como na música do grande e atemporal Tim Maia, me tornei descobridor dos sete mares. Em cada pesquisa ou registro histórico que encontrava pelo caminho, nascia uma possibilidade de poder imaginar e recontar uma história esquecida. A história do meu povo, da minha família, dos meus ancestrais.

Graças a esta foto, cedida por uma prima da minha avó materna (foto que ilustra esta publicação), consegui chegar ao nome da minha pentavó: Maria Ribeiro da Soledade, da qual não tenho registro de nascimento ou falecimento, mas, de acordo com o pensamento do historiador, musicólogo e teórico musical ganês Victor Kofi Agawu, a história não é estática.

De acordo com o autor, a tradição não deve ser compreendida como algo estático ou imutável, pois ela se transforma à medida que as sociedades mudam, incorporando novas experiências, influências, elementos e formas de expressão, sem necessariamente perder sua relação com o passado. E, mediante a esse pensamento filosófico, comecei a pensar que os registros orais, os registros fotográficos e tantos outros documentos, tais quais destaco alguns: certidão de nascimento, de falecimento, de casamento e de batizado, talvez sejam possibilidades que me ajudariam na compreensão das minhas origens ancestrais.

Foi assim que consegui chegar ao registro mais antigo de uma ancestral do século XVII, datado de 1625, de nome Felicia Pátria, oriunda de Portugal e sem informações de cônjuge. O que me fez pensar em como ela vivia, nos abusos que certamente sofrera por se tratar de uma mulher e na forma como compreendia o mundo. Fiquei pensando se suas convicções religiosas eram as mesmas do Ocidente, ou se consigo trazia uma força e um saber ancestral milenar. Felicia teve um filho, de nome Salvador Francisco Ribeiro, nascido em Cortegaça no ano de 1650. Me pus a pensar na infância de Salvador, nos preconceitos que ele também sofrera, nas dificuldades e nos traumas que herdou. Ou nas oportunidades que lhe foram permitidas, nos amores e na história que construiu. E, a partir, pelo menos ao que se sabe, desses dois sobreviventes da minha história ancestral, é que pude, aos poucos, me dando conta das minhas reais origens. Esse site me trouxe muitas verdades, levantou, inclusive, alguns fatos históricos já esquecidos pela minha avó, e que nos fez recordar lembranças bastante amargas, mas que são necessárias vir à tona para que haja uma espécie de acerto de contas com o passado. Afinal, aquilo que não se trata, que não se resolve, vira situação mal resolvida e, anos mais tarde, um problema daqueles difíceis de resolver. Por isso, a necessidade de resolvermos nossas pendências, nos conectando com a energia dos nossos ancestrais.

Francisco deu origem a Agostinho Ribeiro, nascido em 1645 e falecido em 1705, no Mosteiro de Vieira do Minho. Que é pai de João Ribeiro de Carvalho (1671, Braga), que gerou Antônio Ribeiro de Carvalho, nascido em 17 de maio de 1708, no Mosteiro, em Vieira do Minho, Braga, e falecido em 12 de maio de 1766.

Até o início de uma nova trajetória, que mais tarde daria origem à minha geração. Antônio Ribeiro de Carvalho é pai de Antônio José Ribeiro de Carvalho, que nasceu em 18 de agosto de 1732, em Rossas, Vieira do Minho, Braga, Portugal. Mas teve sua história marcada por uma importante mudança geográfica na trajetória familiar. Antônio José veio para o Brasil sem uma possível data. A única informação que temos é que faleceu em 1º de junho de 1803, na cidade de Pouso Alto, Minas Gerais, Brasil. O curioso é pensar que Pouso Alto é relativamente perto de Piquete, onde se dá a origem à geração da minha avó e dos meus pais.

E, desde então, no estado de Minas Gerais, nasceu Alferes Miguel Ribeiro de Carvalho, em 1774, na cidade de Pouso Alto, tendo falecido em 1º de setembro de 1816, em Itajubá. Miguel deu origem a Francisco Ribeiro de Paula, nascido em 1802, em Pouso Alto, onde também faleceu em 17 de dezembro de 1877, até chegar à minha pentavó, D. Maria Ribeiro da Soledade, cuja documentação disponível ainda não permite precisar as datas de nascimento e falecimento, mas que me faz crer que nasceu em Itajubá e por isso seu sobrenome é “Soledade”, uma vez que Nossa Senhora da Soledade é a padroeira de Itajubá-MG, e homenagear um filho com nome e sobrenome de santo era um costume muito peculiar no final do século XIX. 

Maria Ribeiro da Soledade é mãe da minha trisavó ou tataravó (como alguns dizem), chamada Rita Ribeiro da Conceição. Seria ela nascida em Conceição dos Ouros (MG), e, por isso, assim como sua mãe, seu nome é em honra à Virgem, do título Nossa Senhora da Conceição? Perguntas muitas vezes sem respostas. Ao menos, graças a uma certidão de óbito, consegui chegar à data de nascimento e falecimento da minha trisavó Rita. Ela nasceu em 1896 e faleceu em 26 de maio de 1948, em Piquete, no estado de São Paulo. É curioso pensar que minha avó Leonídia, que é sua neta, sempre me contou histórias que aprendeu com a sua avó Rita. Segundo ela, sua avó, apesar da vida sofrida, de ter levado um golpe logo após o falecimento do marido porque era analfabeta, migrou-se para Piquete com os filhos, que por lá já residiam por conta dos avanços significativos da Fábrica Presidente Vargas, que, diga-se de passagem, ceifou muitas vidas. Essa avó era do tipo, a típica, daquelas que brincavam com os netos, que contava histórias escabrosas e que, principalmente, valorizavam o que hoje algumas pessoas perderam de vista: o tempo de qualidade.

Rita Ribeiro da Conceição não teve uma vida longeva, faleceu com apenas 52 anos. Mas, sem dúvidas, soube viver. Ela é mãe da minha bisavó, Esmeraldina Ribeiro Alves, que nasceu em Virgínia, Minas Gerais, em 17 de dezembro de 1917. Mulher forte, cuja história também teve mares turbulentos e muitas tempestades, mas que jamais deixou de perder a fé na vida e no encontro com Jesus. 

De D. Esmeraldina nasceu minha avó, Leonídia Ribeiro Leite, no dia 15 de fevereiro de 1943, em Piquete-SP. Leonídia permanece viva como uma testemunha dessa história e como elo entre as gerações que a precederam e aquelas que vieram depois dela. E é graças à força de tantas mulheres que cheguei a este plano, através da minha mãe Sandra Regina Ribeiro Leite, cujo nome é de origem grega e latina, e significa “aquela que protege” e “rainha”.

Ao olhar para essa sequência de nomes, percebo que uma história genealógica é muito mais do que uma árvore formada por datas e parentescos quaisquer. A genealogia é uma espécie de caminho ou fenda aberta no tempo. Pude perceber que, de certo modo, estive em terras portuguesas, atravessei o Atlântico, encontrei o sul de Minas Gerais e pude chegar ao Vale do Paraíba, à minha doce Lorena.

São quatro séculos de história entre os primeiros nomes conhecidos e a geração atual. Quatro séculos de encontros, partidas, dores, perdas, alegrias, amores e novos recomeços.

Talvez não seja possível conhecer todas as nossas histórias escondidas por trás de cada nome que um dia existiu. Há muitas lacunas, muitos documentos incompletos e outros perdidos, muitos registros sem datas, muitas fotografias que já não existem mais. Mas essas lacunas também fazem parte da nossa genealogia. Elas nos lembram que a memória humana é imperfeita e que cada geração recebe apenas uma pequenina parte da história de gerações que nos precederam para, então, preservá-la e transmiti-la adiante.

Portanto, concluo que minha geração não termina em mim. Sou apenas um elo dessa longa corrente. Carrego em mim nomes que vieram e histórias de longe, pessoas que atravessaram fronteiras e criaram memórias que sobreviveram ao tempo, dando esta oportunidade de transformar e incorporar experiências, influências diversas, sem perder a relação com o passado.

Eu nasci em Lorena, lugar das Goiabeiras e de Nossa Senhora da Piedade, como bem definiu o historiador Azevedo Marques. Mas minha história começou muito antes do meu nascimento. Ela começou nos vilarejos litorâneos e nas aldeias de Portugal, passou pelo sul de Minas até me encontrar.

Sou, de certa maneira, a continuidade de todos eles que um dia aqui estiveram. Agradeço àqueles que vieram antes — porque, mesmo sem conhecê-los, há algo que nos une: o sangue ancestral. 

E, assim, a vida segue seu curso natural, a história continua a ser contada e resignificada.

Gratidão, vida! Gratidão, ancestrais!

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