segunda-feira, 15 de setembro de 2025

O DIÁLOGO ECUMÊNICO E INTER-RELIGIOSO HOJE: UM CHAMADO À UNIDADE


O DIÁLOGO ECUMÊNICO E INTER-RELIGIOSO HOJE: UM CHAMADO À UNIDADE.

A prática do diálogo ecumênico exige, em nossos dias, uma ressignificação profunda. Não podemos mais conceber o diálogo cristão isoladamente, sem integrá-lo à dimensão inter-religiosa, pois a atitude de fé é, em sua essência, uma questão existencial que nos convida a formar a nossa interioridade, levando a um novo modo de pensar. Ser verdadeiramente ecumênico é ir além, é sentir o coração do outro com o próprio coração, é desejar a unidade não apenas como um ideal, mas como a manifestação plena da Igreja e da comunhão da graça.

O ecumenismo, portanto, nos inspira a um novo modo de pensar e de viver a fé. Ele nos impele a redimensionar o sentido do ser cristão e o ser Igreja em um mundo tão plural e diverso. Nesse sentido, considera-se o ser "anti-ecumênico" uma desobediência ao magistério eclesial da Igreja Católica, como bem definiu o Papa Francisco: "A cultura do encontro", modo de ser indispensável, parte de novas cristologias e novas hermenêuticas bíblicas. É a ideia de que devemos sair da nossa própria bolha e ir ao encontro do outro, reconhecendo sua dignidade e seu valor, mesmo que haja diferenças de pensamento e de religião. A cultura do encontro se manifesta por meio do diálogo sincero e da escuta ativa, da empatia e da solidariedade.

Unitatis Redintegratio propõe: "Guardando a unidade nas coisas necessárias, todos na Igreja, segundo o múnus dado a cada um, conservem a devida liberdade tanto nas várias formas de vida espiritual e de disciplina, como na diversidade de ritos litúrgicos e até mesmo na elaboração teológica da verdade revelada. Mas em tudo cultivem a caridade."

Este ensinamento nos convoca a uma incessante busca pela unidade, que é o desejo de Cristo para sua Igreja.

Assim, o diálogo ecumênico se torna uma ferramenta vital para a edificação da Igreja e a promoção do amor e da compreensão entre todos os povos, sejam eles cristãos ou não cristãos.

"Mas as iniciativas locais e individuais já não bastam. A situação atual do mundo exige uma ação de conjunto a partir de uma visão clara de todos os aspectos econômicos, sociais, culturais e espirituais. Conhecedora da humanidade, a Igreja, sem pretender de modo algum imiscuir-se na política dos Estados, tem apenas um fim em vista: continuar, sob o impulso do Espírito consolador, a obra própria de Cristo, vindo ao mundo para dar testemunho da verdade, para salvar, não para condenar, para servir, não para ser servido." [Papa Paulo VI, Populorum Progressio, n° 13].



Registros fotográficos do Encontro Nacional de Formação e Convivência Ecumênica da CNBB, nos dias 12, 13 e 14 de setembro, em Jundiaí-SP. 

terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

SACRAMENTO DO AMOR


Sacramento do Amor

Por: Rosa, R. Rafael. 

Hoje, 11 de fevereiro, solenidade em honra a Nossa Senhora de Lourdes, testemunhei um momento que ficará gravado em minha memória e no meu coração. Estava na casa de uma família de paróquianos, participando da Santa Missa, todos envolvidos diante de uma atmosfera de fé, religiosidade e sagrada devoção que permeava o ambiente. Na melodia suave e harmoniosa dos cânticos acompanhados pelo violão, e sobre a mesa singela onde Jesus Eucarístico seria entregue a todos pelas mãos do Santo Sacerdote, o cheiro suave das flores misturava-se ao som das orações feitas pelos fiéis, que subiam ao céu como oferta agradável a Deus, enquanto as vozes se uniam em louvor. Mas foi durante a comunhão que a verdadeira essência do Mistério se revelou a nós.

Uma travesti se aproximou da Mesa Sagrada. A figura dela, que poderia facilmente ser ignorada ou marginalizada por parte da sociedade, ali representada, trouxe consigo uma presença marcante e um grande anseio por Jesus Eucarístico. Ao vê-la se aproximar, meu coração acelerou, e meus olhos não se conteram. O sacerdote transbordava misericórdia e amor, sem expressar qualquer julgamento; com um sorriso no rosto, entregou-lhe Jesus Sacramentado e, com um gesto sutil e reconfortante de acolhimento, disse mais do que as palavras que proferira durante sua homilia. Ali, naquele instante, enquanto todos contemplávamos o grande Mistério da Paixão e Morte do Senhor, pude ver na pessoa do sacerdote o próprio Cristo se fazendo presente. Ele não estava apenas na hóstia e no Cálice consagrado; Ele estava na sacralidade do amor diante daquela mulher que desafiava todos os tipos de estereótipos e preconceitos existentes.

Enquanto eu adorava Jesus no Sacramento da Comunhão, observava a cena e fui agraciado com uma visão profética: percebi que muitos dos presentes, ainda que em reverência, não se "ajoelhavam" diante da Eucaristia. Alguns o faziam em respeito ao rito, mas era visível que a verdade lhes faltava. Mas, aquela travesti, com um gesto de entrega e humildade, foi a única a se ajoelhar de fato diante do Senhor. Ajoelhou-se de corpo e de coração; seu ato simples e profundo ecoou como um hino de fé em um mundo cercado pela indiferença, pela arrogância e altivez; onde tantas vezes nos esquecemos da compaixão e do senso de humanidade. 

Naquele momento, durante a comunhão, lembrei-me das palavras do profeta Jeremias: "As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos!" E pude compreender que é muito fácil nos perdermos nas nossas próprias certezas, com meias verdades, vontades e interesses cheios de intolerância e separações de Deus e do nosso próximo. Ali estava uma lição viva do amor real manifestado e presente. Todos somos dignos da graça e da misericórdia do Senhor; todos são dignos de receber também o amor maternal da Virgem Maria Santíssima, entendendo que não há lugar melhor para estar do que na casa da mãe.

Com um sorriso no rosto, a travesti iluminou o ambiente e contagiou a todos com tamanha alegria ao receber em seu íntimo, a grandeza de um Deus que partilha conosco. Foi como se a esperança e a aceitação ressurgissem em sua vida.

A celebração continuou, mas algo dentro de mim já havia mudado. A cena daquela travesti ajoelhada diante do Sacerdote que ministrava Jesus me fez refletir sobre o verdadeiro significado da comunidade cristã: um espaço onde todas as pessoas devem ser bem-vindas sem exceções; onde o amor transcende as barreiras sociais e nos lembra da humanidade que compartilhamos.

Na noite de hoje, aprendi que a misericórdia divina não tem limites nem fronteiras e que cada encontro com Jesus é uma oportunidade de vivenciá-la plenamente.

Desejo que possamos sempre nos lembrar de abrir nossos corações para receber um Deus Grande que se faz pequeno para morar dentro de nós.

Graças e louvores se dêem a todo momento: ao Santíssimo e Diviníssimo Sacramento, o Sacramento do Amor! 

Arte: Cláudio Pastro | Imagem retirada da internet. 

sexta-feira, 31 de janeiro de 2025

REINO DAS DESILUSÕES

Por: Rodrigo Falcone 

Num reino nem tão distante das desilusões, as paredes eram forjadas e adornadas com sorrisos forçados, indiferenças e muito desdém. Os corredores ecoavam sussurros disfarçados de amizade; o discurso era que tudo era em prol das crianças camponesas que viviam de pés descalços num frio congelante, onde a esperança parecia não mais existir. Assim, a vida seguia seu curso entre intrigas e estratégias maquiavélicas.

No centro do reino das desilusões, havia um enorme palácio, mais conhecido como o "Palácio do Poder", que era governado por uma mulher que sabia muito bem mascarar seus sentimentos. Ao invés de ser a guardiã da imparcialidade, optou por se tornar rainha adorada pelas corte e seus súditos.

A rainha mãe adorava promover grandes festas da mais alta estirpe, sempre regadas a bons vinhos, canapés franceses, iguarias que só conhecemos de ouvir falar e um toque sutil de boa política. No centro do reino das desilusões, alguns personagens personificavam os desafios diários de quem ao menos se atrevia a sonhar com um ambiente mais justo e dentro dos padrões impostos pela boa sociedade aristocrática do séc. XIX — ou, ao que se sabe, pelo que sobrou dela.

Clara Aduladora era uma figura que não sabia muito sobre as complexidades do reino e seus mistérios; mesmo assim, fazia de tudo para se manter entre os súditos da nobreza. No entanto, seu talento para a política do elogio era inegável. Com um sorriso faceiro sempre no rosto e palavras angelicais na ponta da língua, navegava pelas reuniões e festas do grande palácio como uma sereia encantando marinheiros perdidos ao mar do esquecimento. Suas doces canções eram apenas superficiais, pois não compreendia bem o que realmente acontecia na superfície tranquila do lago.

Valentina Vórtex era uma verdadeira artista que honestamente vivia a vida em busca do seu bom e velho holofote. Sempre buscando brilhar mais que os outros, tornou-se braço direito da rainha e dedicava-se a invalidar qualquer "iniciativa real" que não fosse sua. Seu olhar ansioso por reconhecimento ofuscava as iniciativas de outros membros da realeza. Para ela, o sucesso era uma competição em que apenas um poderia vencer — e ela estava determinada a ser a escolhida; mesmo que precisasse eliminar quem quer que fosse que ousasse entrar em seu caminho, como ocorreu com sua meia-irmã Luna Vórtex, que ousou organizar um grande baile de gala em comemoração ao aniversário do Imperador Eusébio Montanari.

Entre a comitiva real da rainha mãe, havia também a lady Lilith Serpentina. Ao que se sabe, não pertencia ao reino, mas casou-se com um famoso marquês e se estabeleceu nessas bandas. De pouquíssimas palavras e aparência feita flor, mas bem tóxica e de veneno mortal e ambíguo. Com sua aparência meiga e seu comportamento clássico — o que se espera de alguém da mais alta nobreza — enganava bem com sua fachada gentil. Porém, por trás do lindo sorriso e da voz aveludada, traçava estratégias de maneira única para derrubar aqueles que se atrevessem a entrar em seu caminho. Movia-se nas sombras como uma cobra traiçoeira: ágil e perspicaz. Sua grande especialidade era semear desconfiança, discórdia e espalhar boatos nos corredores do palácio, sempre atenta para levar informações à rainha e assim ganhar crédito real e possíveis alianças com seus aliados. 

Havia também alguns lacaios e damas de companhia que não sabiam bem sobre suas funções reais, mas certamente foram cuidadosamente treinados pelo Conselho dos Artífices — na verdade que muitas vezes ditava as ordens para a rainha — tendo sob o grande comando a primeira-ministra Morgana Struty Saviên, mais conhecida entre os vassalos da côrte como "lady Aço."

Neste cenário de alianças (in)questionáveis e rivalidades silenciosas, quem não se forjasse aos moldes das sombras, muitas vezes era posto de lado e silenciado, tendo como destino a forca ou a guilhotina. 

Os sonhos de transformação social e de um idealismo marxista, por vezes eram sufocados sob o peso de muitas intrigas e da falta de imparcialidade entre os clãs. O reino tornava-se cada vez mais um labirinto sem saída onde as vozes dos oprimidos eram por vezes silenciadas.

Mas, apesar dos grandes desafios, havia um pequeno grupo de sonhadores que acreditavam na mudança; valorizavam a coroa e almejavam dias melhores para o reino e o reinado.

E assim, entre as sombras e estratégias contrárias nos corredores do Palácio do Poder, esses sonhadores persistiam em suas esperanças. Eles sabiam que a verdadeira transformação exigiria coragem para desafiar as normas estabelecidas pela monarquia absolutista, lutando contra as correntes da opressão. No coração do Reino das Desilusões, ainda pulsava uma chama de esperança e de solidariedade. A crença em dias melhores à frente de seu tempo, a saber que é ele quem molda o presente.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

ENSAIO REFLEXIVO


"Não se perturbe o vosso coração. Credes em Deus, crede também em mim." 

São João 14:1

Há dias, tenho experimentado um incômodo interno que anseia por mudança de vida. Certo estou de que sempre busquei ter uma trajetória reta segundo a vontade de Deus, exercendo meus atos de piedade e misericórdia, praticando a leitura do Santo Evangelho e buscando manter uma vida de oração, entre outras práticas esperadas de quem vive o cristianismo como estilo de vida. Contudo, quando somos colocados à prova diante das circunstâncias da vida e dos ataques malignos que nos assolam, percebemos que nada do que fazemos é o bastante; somos desafiados a experimentar o novo, entendendo que o processo de santificação requer a reconfiguração das rotas da nossa existência que, por vezes, se mostrou incompleta durante o percurso.

Entendi que a luz de Cristo, daqueles que seguem seu caminho e que buscam a retidão de um coração puro e sincero, como descrito pelo salmista, faz com que a face do Senhor brilhe sobre nós, incomodando quem vive nas trevas. E ouso acreditar que as sombras nos levam a mudar para longe delas, dado o incômodo que elas sentem. Assim como um peregrino forasteiro em terra estranha alça longas e novas jornadas em busca do que tanto procura, sigo também caminhando diante do desconhecido, lançando-me aos cuidados da proteção divina e experimentando o viver do que chamamos de Graça.

Não é necessário ter sempre o controle sobre tudo no que diz respeito à nossa passageira e frágil vida humana neste plano; o destino é um só, e todos sabemos qual é. O percurso a ser seguido nos desafia a experimentar o invisível, pois o duvidoso já nos prova que não é obra divina; muitas vezes nos levando pelas emoções humanas e pelo coração enganoso. Nos trilhos da vida onde um propósito me foi confiado um dia, sigo atualmente me desafiando a experimentar o melhor que Deus tem preparado para mim, sem planos ou muitas expectativas, vivendo um dia de cada vez. Mesmo que o medo, a indiferença e a incompreensão humana me alcancem, desejo me lançar aos cuidados do Divino Pai de misericórdia, confiando-Lhe todas as minhas preocupações e ansiedades e buscando cumprir o propósito que me foi confiado.

Rosa, R. Rafael. 
30/01/2025

quinta-feira, 3 de outubro de 2024

ENSAIO ÀS VESPERAS DE UM ANIVERSÁRIO

"Ensaio"

Entre o já, o agora e o ainda não, descubro que poderia me tornar um astronauta e viajar até a Lua, onde certamente contaria as cem mil estrelas pensando no sorriso dele — sim, aquele que me fez juras de amor, que, vez ou outra, me levava a sério; que me prometeu o mundo e, no final das contas, me deu somente aquilo que eu precisava e que talvez fosse necessário. Mas, quer saber? Hoje pouco importa, já que nessa roda-gigante da efêmera vida, ciclos se fecham para novos se abrirem.

Talvez sejamos consumidos pelo sistema ou pela nossa própria existência insignificante. Quando eu era pequeno, sonhava em ser artista, mas também cogitei ser coletor de lixo. Para mim, era fascinante observar os movimentos sincronizados dos trabalhadores enquanto dançavam e perambulavam pelas ruas de Lorena, com sacolas nas mãos e um ligeiro sorriso no rosto. Arrisco-me a dizer que esses homens de alma grande e gentil eram felizes. E, por falar em felicidade, dor e sofrimento estão intimamente ligados um ao outro. Nesta conflituosa relação, há uma linha tênue entre os dois mundos paralelos pelos quais vagueia a singeleza da existência: o viver. A felicidade, como bem definida por Nietzsche, é uma ilusão da nossa compreensão da realidade existencial. Se ele estava certo ou não, eu não sei; seus estudos contrapõem-se às ideias de Arthur Schopenhauer, autor da corrente teórica do pessimismo filosófico, e confesso ter uma "quedinha" por tais escritos e linhas de pensamento. No entanto, apesar de toda a minha identificação e projeção de personalização com Nietzsche, prefiro ver a vida como uma oportunidade que se abre a nós em cada etapa.

Celebrar a "volta ao sol" me fez lembrar de Gabriel García Márquez em uma de suas obras: "A memória do coração elimina as lembranças ruins e magnifica as boas; graças a esse artifício conseguimos suportar o passado."

Os momentos felizes podem ser poucos, mas se vividos intensamente tornam-se memórias preciosas quando eternizadas. Os anos passam, pessoas vêm e vão e, graças ao artifício da vida, sobrevivemos — forjados na sombra e na luz de nossos ideais — ao passado que é parte de nós mesmos.

ROSA, R. R. S.
25-09-2024

domingo, 29 de setembro de 2024

CONTO AUTORAL: "MEMÓRIAS DE DONA ROSA"

"Memórias de Dona Rosa"

Por: Rafael R. Rosa

Inácia Carolina de Carvalho Albuquerque é uma adolescente curiosa e instigante que vive no interior de Minas Gerais, numa cidadezinha chamada Brocas de Ituá. Criada numa família distinta, daquelas bem típicas da região, Inácia é filha do Coronel Eusébio Albuquerque e de Dona Ana Rosa de Carvalho. Desde pequena, Inácia recebeu princípios elementares da boa educação, o que se espera de uma menina das idades de 1930. Tocava mazurcas, polcas e motetos que foram ensinados pela professora de piano clássico, D. Eslovênia Astrut. Cantava lindas árias de ópera e vivia sonhando em ganhar os palcos de Paris, assim como sua tia Albimira, que usava o pseudônimo parisiense Carmela Clandel e fugiu com o namorado Júlio, um caixeiro viajante viciado em apostas que adorava explorar o mundo.

Inácia também era dotada de notórios saberes que herdou de sua mãe, que herdou de sua avó. Sabia cozinhar, tricotar, bordar, pintar e costurar. Amava copiar os modelos de vestidos das revistas de moda com lindas mulheres esguias de cintura fina, criando godês que somente seus vestidos tinham, fazendo inveja a qualquer moça de Ituá.

Certo dia, Inácia desceu ao porão de sua casa; sabia que lá era um bom lugar para explorar um mundo paralelo que possivelmente seus pais lhe haviam escondido. Dentro de um baú repleto de fotografias e cartas antigas, Inácia descobre um livro velho de capa vermelha contendo um símbolo que remetia à ideia de uma estrela invertida: sim, era um pentagrama. Sem saber ao certo do que se tratava, Inácia abre o livro, que logo no início trazia os dizeres em latim: "Sic Itur Ad Astra" – que significa "Assim se vai aos Astros". Sem entender do que se tratava, Inácia sentiu um calafrio na espinha; algo dentro dela pulsava como se o livro a chamasse... Com um leve tremor nas mãos, Inácia virou as páginas amareladas e encontrou rituais de séculos atrás. Mas a quem poderia pertencer aquele livro? Ao que se sabe, no porão de sua casa estavam os pertences de uma bisavó que não chegou a conhecer, chamada Rosa. Seria este livro um segredo encoberto por seus pais, que todos os domingos frequentavam a missa rezada em latim pelo pároco Amoroso? Ele era manso e gentil apenas no nome, já que odiava crianças e meninas curiosas que lhe fizessem perguntas cabeludas — como aquelas pautadas em anos de estudos de exegese: Qual o sexo dos anjos?

Sem pestanejar, Inácia guarda o livro com medo de ser descoberta e decide que não iria mais tocar nas coisas de sua bisavó; afinal, aquilo que é oculto não lhe era permitido.

Durante a madrugada, uma corrente de ar entrou pelas portas do seu quarto e, junto com uma brisa impetuosa, Inácia sente que deveria ir até o porão e pegar o livro que durante bons anos ficou escondido. Era como se a energia do livro estivesse conectada à sua energia e os dois — a partir daquele momento — fossem um só. Inácia fechou os olhos e como num levitar ligeiro estava no porão de sua casa. O livro mágico pulsava dentro do baú pedindo para que seus escritos antigos fossem lidos. Certamente os dois eram um só e com isso um mundo começaria a ser descoberto.

A partir daquele momento, Inácia percebeu que havia cruzado as fronteiras entre os dois mundos e já não era mais a mesma. Conectada aos seus ancestrais que praticavam magia há séculos, Inácia fora escolhida para receber os poderes daqueles que viveram antes dela. Entre a maravilha e o assombro, Inácia descobre que o livro não era apenas um objeto, mas a chave para o conhecimento perdido e o poder adormecido dentro dela. Decidida a viver o propósito para o qual fora chamada, Inácia escuta ao longe uma voz grave chamando seu nome; a voz era tão intensa que ecoava pelos cômodos da casa. De repente, a voz foi ficando cada vez mais forte e próxima. Inácia abraçada ao livro é acordada pelo pai, Coronel Eusébio; era o dia do teste de proficiência que a habilitaria para lecionar no jardim da infância. Sem entender se o que tinha vivido era ilusão ou realidade, Inácia inicia ali uma longa jornada nos estudos do ocultismo; afinal, um novo propósito lhe fora lançado.

Imagem da internet sem menção de autoria

quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

HOMENAGEM À REVDA. NILCE PEREIRA CALLISAYA [IGREJA METODISTA EM PIQUETE]

Homenagem à Pastora Nilce que Parte para Novos Caminhos

Autoria: Rafael Victor Ribeiro

Com corações repletos de gratidão, por estes oito anos de caminhada e serviço ao Senhor, nos, enquanto Paróquia Metodista em Piquete, viemos à público prestar uma singela homenagear a Revda. Nilce, pelo tempo que esteve a frente de nossa comunidade de fé, pelo serviço social de destaque no Município, com o compromisso e a seriedade não só com seus membros, mas com toda população Piquetense. O qual levantou a bandeira do movimento ecumênico, da promoção do respeito, da diversidade de dons e do amor ao próximo, como parte expressiva da fé protestante Metodista. Fé está pautada segundo os preceitos elementares do Metodismo histórico, o qual se resumem em: Santidade Integral, Santidade Pessoal e Santidade Social — presentes nos documentos da Igreja Metodista no Brasil e no Mundo, o qual destaco: "Plano para a Vida e a Missão da Igreja" e o nosso "Credo Social", herança do movimento wesleyano iniciado na Inglaterra do séc. XVIII.

Pastora Nilce, é em sua máxima, alguém que deixa de vestir para vestir o outro. Alguém que deixa de comer, para dar de comer ao outro. Longe de toda vaidade, de todo luxo e pompa, pastora Nilce é alguém que venceu todas as dificuldades para exercer o santo ministério pastoral. 

E, quem diria, não? Que aquele bebezinho mirrado, desenganado pelos médicos nas primeiras semanas de vida, mandado para morrer em casa nos braços da saudosa mãe Antônia, estaria hoje, nos auge dos seus quase sessenta anos de idade, exercendo há 35 anos o Santo Ministério pastoral na Igreja Metodista do Brasil. 

E, por falar em Igreja Metodista... Foi aqui, nesta comunidade, onde tudo começou. Pastora Nilce, é parte da terceira geração de Metodistas, e eu, Rafael, me orgulho em dizer que pertenço a 5° geração desses metodistas do passado e do presente. 

Foi em meados da década de 1980, que a jovem Nilce, sentiu seu coração "arder em chamas" — assim, como o do patrono John Wesley, que relatou em seus diários a experiência que ficou conhecida entre os metodistas como: "Experiência do Coração Aquecido", datado do dia 24 de maio de 1738. Tal experiência, vivida por Wesley, naquele contexto social crítico, o qual passava a Inglaterra, não se tratava de uma conversão de Wesley, já que ao que se sabe Wesley era da terceira geração de pastores da Igreja da Inglaterra, tinha como convicção Cristo como centro de todas as coisas. Mas, tal experiência o permitiu o despertar de uma nova vida sob uma outra ótica.

Podemos dizer que de igual modo, aquele culto de Missões, realizado na Igreja Metodista em Lorena na década de 1980, serviu para um novo despertar no coração da jovem Nilce. Sua vida cristã, assim como a do patrono Wesley, sempre esteve vinculada a herança e a tradição Metodista, desde a mais tenra infância.

A princípio, a jovem Nilce sentiu seu coração arder por Missões em outros países, mas como os planos de Deus não são os nossos, após o envio e a recomendação da Igreja para a Faculdade de Teologia, foi posta a exercer seu ministério pastoral missionário, nas Igrejas Metodistas da 3° Região Eclesiástica. E, diga-se de passagem, que a evangelização do crente, trata-se de um desafio muito maior e mais complexo. Afinal, todos nós estamos no processo de santificação pessoal, e como seres humanos, corremos o risco de fazer o contrário do que diz a Oração que Jesus nos ensinou: "Seja feita a tua vontade" por "A minha vontade."

A medida em que a jovem Nilce, aceitou e teve a confirmação do seu chamado para o santo ministério pastoral, podemos dizer, que teve de abrir mão de algumas coisas. Uma trajetória de sucesso, para honra e glória do nome do Senhor, sim, sem dúvida. Mas, como diria o pensador contemporâneo Augusto Cury: "Faça dos erros uma oportunidade para crescer, pois na vida, erra quem não sabe lidar com seus fracassos."

Foram muitos erros, mas também muitos acertos, foram muitas lutas, mas também muitas vitórias. Foram muitas alegrias, mas também muitas tristezas.... Esse é o jogo da vida, e é aí que está a graça do viver! São os erros e os acertos que moldam nosso ser, e que transformam a nossa caminhada. 

Como o culto hoje é de gratidão, vamos focar apenas nas coisas boas, entendendo que as dificuldades nos tornaram mais fortes e resistentes ao processo. 

No Evangelho Segundo escreveu S. Mateus 13:57 – Jesus comentava com seus discípulos, sobre o espanto que causava entres os seus: "E ficavam escandalizados por causa dele. Mas, Jesus lhes disse: "Só em sua própria terra e em sua própria casa é que um profeta não tem honra”.... Parafraseando S. Mateus: "Só em sua própria terra, na sua comunidade, entre os seus parentes, é que um profeta/profetiza não tem honra." 

Pastora Nilce, muitos não a honraram como a senhora merecia, muitos lhe viraram as costas, mas, Deus lhe honrou de outras formas, a honrou com um título popular de "pastora da cidade", a honrou com duas moções de aplausos pelos relevantes serviços prestados ao Município. 

A honrou, através dos inúmeros frutos colhidos ao longo desses oito anos de caminhada de fé à frente desta Igreja, destaco alguns: Projeto CAC, Sr. José Alves, D. Cida, Keyla, Landriele e outros... 

Aprendi a amar a ação social, a amar minhas raízes Wesleyanas e o ecumenismo, vendo o seu compromisso e seriedade com o Reino. 

No ano de 2019, ano da comemoração dos nonagésimo aniversário da Igreja Metodista em Piquete, pudemos juntamente com nossos irmãos Católicos, fazer um acordo de paz e reconhecer os dons e ministérios de cada Igreja diante da promoção do perdão, do respeito e da diversidade e pluralidade de ideias entre as duas igrejas, que num passado não muito distante, travaram embates em praça pública. História essa que deve ser sempre lembrada, pra que nós, do presente, não caiamos no mesmo erro dos nossos antepassados. 

Como expressão de amor, de fé e de gratidão, queremos registrar nossa profunda admiração e respeito por toda a sua força e história admirável.

O escritor inglês C.S. Lewis, em um de seus textos, diz que: 
"O pastor é o curador de almas" e nós, podemos dizer que a pastora que agora parte, é uma artista da cura espiritual." Certamente, a Igreja Metodista em Cotia-SP, a receberá de braços fraternos, com melhores condições financeiras e humanitárias, para continuar servindo o Reino de Deus, a fim de espalhar a santidade Bíblica e Social entre homens e mulheres. 

Com sabedoria inspiradora e compaixão ilimitada, pastora Nilce, a senhora deixa uma marca indelével em nossos corações.

 Seus sermões tocaram nossas almas, só não se sentiu tocado, quem aqui nunca esteve. Sua presença calorosa nos momentos de alegria e de tristeza, trouxeram conforto e esperança a muitas pessoas. 

O verdadeiro líder é quem capacita outros a serem líderes. E a senhora sempre exemplificou esse princípio com temor, confiança, graça e humildade. Mas, a Seara é grande, porém, poucos são os trabalhadores. 

Ao longo dos oito anos de seu ministério aqui, a senhora cultivou na comunidade de fé o amor mútuo, a diversidade, a compreensão e o respeito ao próximo. Sua capacidade de unir os corações e as mentes que pensam diferente, fortaleceu nossos laços espirituais desta paróquia, tornando-nos uma família em Cristo. Reitero que quem não concorda, é porque aqui nunca esteve. E discordar é um dos princípios básicos da fé Metodista, mas só é possível discordar quando há pertencimento ao grupo, do contrário, trata-se de pedra de tropeço, mas, essas mesmas pedras, ajudam a moldar o nosso ser, por isso damos graças a Deus por elas também. 

Seu compromisso com obras de caridade e seu amor pelos menos favorecidos, nos inspiraram a seguir o exemplo do Senhor.

Enquanto dizemos um "até logo", nos lembramos que sua partida desta Igreja, marca o início de uma nova etapa em seu ministério. 

Segundo Madre Teresa de Calcutá: "A fé em ação é amor – e o amor em ação é serviço." — assim foi, assim é, e assim sempre será sua vida ministerial e pessoal. 

Que o Deus de amor, de bondade e misericórdia, te guie em sua jornada ministerial e de serviço sacrossanto. 
 
"Que o Senhor te abençoe e te guarde; que o Senhor faça resplandecer o seu rosto sobre ti e te conceda graça." 

— Números 6:24-25

Nossa gratidão, pastora Nilce! Deus abençoe!