sábado, 2 de maio de 2026

CICLOS DE ABRIL


Abril, para mim, é um mês de travessias. Carrega o peso de encerramentos, mas também a coragem silenciosa dos novos recomeços. É um tempo em que a vida parece apertar o coração para lembrar que nada permanece igual — e talvez seja justamente aí que mora o sentido de tudo.
Foi em abril que vivi uma das minhas mais dolorosas perdas: a partida da minha amada avó paterna, Laura. E, como se a vida insistisse em equilibrar ausências com movimentos, também foi no mês de abril que iniciei meu primeiro emprego, há exatos quinze anos. Neste abril, entre despedidas e recomeços, fui sendo atravessado por memórias, revisitando meu passado e reencontrando histórias guardadas no coração — algumas doloridas, mas que hoje me ajudam a compreender o sentido das coisas.
Abril também já me apresentou pessoas especiais, ao mesmo tempo em que me revelou verdades difíceis — verdades que não foram sustentadas por quem não fez questão de ficar. Tirei algumas pessoas da minha vida e agreguei outras, reconheci e enfrentei turbulências, especialmente no campo profissional. Não foi leve, e acredito que nem precisava ser. Por isso, tenho me permitido sentir o cansaço, acolher o desgaste, porque, antes do Rafael educador/multiartista, existe o Rafael humano, com sonhos, desejos, falhas e frustrações. Em abril, tive coragem de olhar para dentro de mim. Visitei minha criança interior, tão marcada por algumas pressões e inseguranças. Não foi um encontro fácil, e não tem sido fácil, mas foi — e está sendo — necessário me reconhecer nessas outras vertentes que desconhecia. Abril me ensina que não é preciso ser forte o tempo todo. Que chorar, se frustrar e até se desesperar não são sinais de fraqueza são partes legítimas de quem eu sou. E que também é preciso se abraçar quando necessário.
Quatro meses de um ano que ainda nem chegou à metade, e já carrega tantas histórias, lutas, livramentos, perdas, amores e novos desafios. A vida, esse jogo imprevisível e imediato, nos testa a todo instante, e a sorte nos é lançada. No fim de tudo, o que a gente espera é simples: que as coisas encontrem seu lugar, que a paz reine, depois de tanta tempestade, e que o amor encontre seu lugar, que é dentro da gente.

quinta-feira, 30 de abril de 2026

A FORÇA, A PRESENÇA, A RESISTÊNCIA E O NOME DE UMA MULHER: LAURA ROSA DA SILVA

 

"A força e a dignidade são os seus vestidos, e ela sorri para o futuro." 

(Provérbios 31:25) 

Laura Rosa da Silva nasceu em 17 de outubro de 1935. Sua história começou marcada pela dor, mas também pela extraordinária capacidade de sobreviver e de resistir ao sistema que lhe fora imposto. Ainda criança, enfrentou perdas que transformariam significamente sua trajetória: perdeu o pai aos oito anos de idade e, quatro anos depois, a mãe. Órfã muito cedo, foi criada pelos irmãos e irmãs mais velhos, passando de uma casa para outra, aprendendo desde menina que a vida exigia resistência e adaptação. Segundo a tradição preservada por sua família, Laura era descendente legítima de indígenas da etnia Kaingang, os assim pejorativamente chamaos de "Bugres". Seus pais haviam migrado da região de Curitiba-PR para o interior paulista em busca de trabalho, estabelecendo-se na região de Piquete-SP, onde encontraram sustento nas oportunidades oferecidas pelo processo de industrialização da época da Fábrica Presidente Vargas. 

Ainda que muitas dessas raízes não tenham sido registradas oficialmente, elas permaneceram vivas na forma como Laura compreendia o mundo, a natureza e o mundo espiritual. Muito jovem, aos quatorze anos, começou a trabalhar como empregada doméstica, cuidando de uma criança e dos afazeres de uma casa na cidade de Cruzeiro. Teve pouca oportunidade de frequentar a escola, mas desenvolveu uma inteligência prática admirável, aprendendo a enfrentar as dificuldades com coragem, criatividade e uma irreverência que a acompanharia por toda a vida. Foi mãe de seis filhos — Neuza, Márcio, Luiz Cláudio, Rose, Marcelo e Marcelino. Embora cada um tivesse sua própria história de origem, foi Antônio Rosa quem assumiu a paternidade de todos, registrando-os como seus filhos e oferecendo à família estabilidade, dignidade e um sobrenome que Laura valorizava profundamente. Mesmo sem instrução formal, fazia questão de ensinar aos filhos um princípio que considerava inegociável: a preservação do próprio nome. Repetia que a honestidade valia mais do que qualquer riqueza e insistia para que seus filhos fossem pessoas corretas, que não devessem nada a ninguém e construíssem uma reputação baseada na palavra, na ação e no caráter. 

Laura viveu intensamente. Teve excessos, enfrentou dificuldades e conheceu de perto a dependência do álcool. Contudo, sua história não foi definida por essas fragilidades. Em 1994, com o nascimento da primeira bisneta, Thamires, tomou uma decisão que surpreendeu a todos: abandonou definitivamente a bebida. Foi uma mudança profunda, mantida até o fim de sua vida, tornando-se um dos maiores testemunhos de sua força de vontade.

 Laura era uma mulher inquieta e dificilmente permanecia parada. Nos fins de semana, seguia para Guaratinguetá e Lorena levando mercadorias para vender nas tradicionais feiras da Barganha. Gostava do movimento, das conversas e da convivência com as pessoas. O comércio era menos um meio de enriquecer e mais uma forma de sentir-se viva, ocupada e inserida na comunidade. Seu temperamento era forte. Impaciente em muitos momentos, também era uma excelente contadora de histórias e valorizava profundamente sua memória ancestral além dos seus costumes, crenças e tradições. Quem se sentava ao seu lado dificilmente saía sem ouvir algum relato curioso, uma lembrança da juventude ou alguma narrativa carregada de mistério e encantamento. Sua espiritualidade talvez tenha sido um dos aspectos mais singulares de sua personalidade. Embora se declarasse católica durante toda a vida, jamais abandonou elementos que, segundo acreditava, faziam parte de sua herança ancestral. Acreditava em Deus, em Nossa Senhora Aparecida, nas histórias sobre seres encantados da floresta, e na demonstração e respeito por diferentes tradições religiosas, como o budismo e o hinduísmo, além das religiões de matriz-africana. Muito antes de conceitos como diálogo inter-religioso e ecumenismo se tornarem comuns, Laura já vivia uma espiritualidade profundamente plural, construída a partir da própria experiência de vida e sem preocupação com convenções ou julgamentos. Essa maneira livre de viver sua fé nem sempre foi compreendida. Em alguns momentos, afastou-se da prática religiosa institucional, mas jamais perdeu a convicção de que Deus caminhava com ela. Sua religiosidade era espontânea, intuitiva e profundamente marcada pelo respeito ao Sagrado presente em diferentes tradições. Nos últimos anos enfrentou uma dura batalha contra problemas hematológicos que evoluíram para um quadro de leucemia. Após uma vida marcada por lutas, perdas, recomeços e incontáveis histórias, Laura Rosa da Silva faleceu em 30 de abril de 2017, às 05h55min, deixando filhos, netos, bisnetos e trinetos que continuam preservando sua memória. 

Dona Laura nunca foi uma mulher comum. Viveu sem se encaixar facilmente em padrões, enfrentou a pobreza, a orfandade, os preconceitos e as próprias limitações sem perder a autenticidade do seu ser. Foi imperfeita, intensa, generosa e profundamente humana. Carregava em si a força das mulheres que aprenderam sobreviver antes mesmo de aprenderem sonhar. Sua história permanece viva não apenas na descendência que deixou, mas também na coragem de quem transformou sofrimento em resistência, fez da liberdade sua forma de existir e ensinou, à sua maneira, que a dignidade não depende da origem de uma pessoa, mas da honestidade com que ela escolhe viver.

Dona Laura, PRESENTE!

Autoria: Rafael Victor Ribeiro da Silva Rosa (seu neto)


domingo, 15 de fevereiro de 2026

MEMÓRIAS DE UMA FILHA E NETA DE METODISTAS: LEONÍDIA RIBEIRO LEITE

"Firme está o meu coração, ó Deus! Cantarei e entoarei louvores de toda a minha alma." (Salmo 108:1)

Leonídia Ribeiro Leite nasceu em Piquete, no dia 15 de fevereiro de 1943. É filha do Sr. Francisco Custódio Alves, ex-operário da Fábrica Presidente Vargas, e da saudosa D. Esmeraldina Ribeiro Alves. Leonídia é irmã de Eliel Custódio Alves, Leontina Ribeiro Alves e Maurisa Ribeiro Alves.

Recebeu o Santo Batismo nesta Igreja, ainda na infância, pelas mãos do Rev. Nelson Lacerda. Aos 13 anos de idade, fez sua pública Profissão de Fé, conduzida pelo Rev. João Inácio da Silva.

Sua família converteu-se ao Protestantismo por influência de seus tios, Garibaldi Clímaco Pereira e Bernardina Ribeiro Pereira, ainda quando a Igreja Metodista funcionava como congregação em um salão alugado na Rua Comendador Custódio Vieira Marques, nº 7.

Desde pequena, Leonídia participou ativamente das atividades da Igreja Metodista em Piquete. Participou da Sociedade Metodista de Crianças, Sociedade Metodista de Jovens, Equipe de Liturgia e Ornamentação, além de colaborar voluntariamente na manutenção e limpeza da Igreja, juntamente com sua inseparável amiga, Neusa Teodoro (in memoriam).

Aos dezesseis anos, passou a integrar o extinto Coral da Igreja no qual cantava no naipe de contraltos. Estudou música, especificamente Órgão Litúrgico, por um breve período, com a professora Heidi Cóppola. Posteriormente, deixou os estudos musicais para dedicar-se ao corte e costura.

Seu casamento ocorreu em 27 de junho de 1964. Alguns anos depois, mudou-se para Lorena, em razão do emprego de seu esposo, Pedro Senne Leite. Transferiu-se, então, como membro, para a Igreja Metodista em Lorena, onde permanece fiel até os dias atuais.

Leonídia tem cinco filhos: Sandra, Flodoaldo, Pedro, Silvana e Alessandro; além de onze netos: Rafael, Bruna, Camila, Luiz Claudio, Jéssica, Lucas, Bianca, Thiago, David (in memoriam), Matheus e Vinícius; e, atualmente, em 2026, doze bisnetos: Ana Lívia, Mirella, Valentina (Da Camila), Pedro Henrique, Joaquim Felipe, Gael, Ravi, Isis, Ana Liz, Laura, Valentina (Do Vinícius) e José.

Leonídia permanece como membro ativa da Escola Dominical, da Sociedade Metodista de Mulheres, do Clube Dorcas e das Reuniões de Oração. É grata a Deus por tudo o que Ele tem realizado em sua vida.

Leonídia é parte da nossa história. Sua trajetória de fé, serviço e dedicação constitui uma preciosa memória da presença metodista em Piquete.

O Senhor seja louvado por meio de sua vida!

[Texto escrito por ocasião do 90º aniversário da Igreja Metodista em Piquete, em 2019, como registro da memória dos primeiros metodistas em Piquete | Texto revisado e publicado em 01 de setembro de 2026]

sábado, 24 de janeiro de 2026

UM DIA DEPOIS DE UMA QUINTA-FEIRA


Por: Rodrigo Falcone 

Levei um ghosting, e isso me doeu profundamente. Não fui intenso; apenas correspondi à altura, acompanhando o fluir das mensagens que trocávamos. No primeiro encontro, tudo pareceu mágico — aquela química rara de início. Foram dias de conversa afiada e intensa, partilha de gostos particulares, mensagens que iam do um simples “bom dia” ao sincero “como foi seu dia?”. Eu era, o tempo todo, resposta para aquilo que ele queria ouvir. Ou talvez eu tenha sentido demais. Ou talvez tenha sido só eu nesse jogo inteiro — um jogo de azar!

Viajei 300 quilômetros para vê-lo. Deixei de encontrar amigos de longa data para colocá-lo como prioridade naquele instante. E, numa quinta-feira despretensiosa, em um jantar simples, regado a bons papos e um vinho de qualidade duvidosa, servido numa taça de espumante — sim, esse foi o nível da cafonice —, trocamos carícias e afetos. Falamos sobre a vida, sobre ancestrais, religiões e destinos. O sexo aconteceu: intenso, carregado de energia e prazer, as vezes romântico, as vezes insano e depravado. Em alguns momentos, o nervosismo tomou conta, e a performance dos dois falhou. Sim, falhou — porque somos feitos de afeto e de cuidado, e nosso erro é criar expectativas demais. Acredito que sentimento até existiu, mas, no turbilhão das emoções humanas, o "Jurandir", se assim posso nomeá-lo, confundiu nos próprios afetos e escolheu a ausência.

A mensagem que eu esperava ao amanhecer não veio. O gesto de carinho, aquele simples perguntar como estava sendo meu dia, também não. Do lado de fora da janela daquele quarto de hotel onde eu estava hospedado, havia apenas chuva e frio. Por volta das 18h20min, chegou uma mensagem em tom gentil, perguntando como havia sido meu dia. Eu soube, naquele instante, que algo havia mudado — e não me refiro apenas à frieza dele, mas à forma como eu mesmo passei a administrar meus sentimentos e compreender que eu não fui de menos nem de mais. Eu apenas fui quem eu sou.

Minutos depois, uma mensagem curta: uma justificativa. O trabalho havia sido puxado, e ele jantaria com o pessoal do serviço. Ali compreendi que alguém tentava colocar sobre mim um peso de responsabilidade emocional que não me pertencia. Coube-me, então, a dignidade e o respeito de reconhecer o lugar que nunca foi meu.

Cheguei a São Paulo numa quinta, que até então era o meu dia preferido, pois foi quando eu nasci. Sofri numa sexta e, ao nascer da aurora de sábado, fiz o caminho de volta à cidade onde nasci — território de afetos, de memórias e de pessoas que me amam. Percebi que essa é a maior riqueza da vida e que, sim, podemos substituir devaneios humanos por sentimentos que realmente importam. Talvez seja por vivências assim que tanta gente deixou de acreditar no amor carnal entre dois seres.

Fiz pelo "Jurandir" o que até então não havia feito por ninguém, porque acreditei naquilo que vivemos. Investi tempo, dinheiro e afeto e, ao final, recebi apenas indiferença. Talvez por isso digam que a indiferença seja o sentido de tudo: ela não frustra, não decepciona — apenas nos devolve à realidade e nos ensina o lugar que nunca foi nosso.

No fim das contas, não permaneci em São Paulo todos os dias combinados, não vivi o que esperava, mas vivi o que era necessário. Com o tempo, compreendemos que algumas presenças não são essenciais; que, um dia, a falta sentida será a sua — e talvez o outro nunca perceba isso. Afinal, você foi você, e quem nasceu para viver no raso jamais compreenderá a imensidão de água que você é.

Hoje dói. Amanhã, provavelmente, também doerá. Mas depois a gente se refaz e continua tentando jogar esse jogo estranho da vida chamado amor.

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

NATAL: POLÍTICA DE CONSUMO OU MÍSTICA DA ESPIRITUALIDADE?

Dizem que o Natal perdeu seu significado, dando lugar ao consumismo exacerbado e à figura emblemática do Papai Noel. O Natal proporciona novos empregos, ainda que temporários, mas que para muitas pessoas serão suficientes para suprir as necessidades de quem vive à margem invisível da indiferença humana, podendo torná-los, assim, mais dignos, confiantes e, sobreamente, "humanos".

É tradição no Brasil e em diversas partes do mundo que as famílias se reúnam para decorar as casas com muitas luzes ou encher a árvore de Natal com presentes caros, onde, no dia 24, as crianças trocarão seus presentes. Cânticos natalinos serão entoados ao acender das velas que remetem à espiritualidade natalina, ou seja, à encarnação do Verbo, Jesus. Na véspera de Natal, há quem não descanse um minuto sequer, preparando os deliciosos pratos que serão servidos na tradicional ceia, tudo para aqueles que amamos, ou que pelo menos acreditamos amar. Todos unidos em volta de uma grande mesa para celebrar o nascimento do Menino Deus, de origem pobre e humilde, envolto em panos simples e depositado em um coxo onde comiam os animais. Tal menino que se fez pequeno e frágil para caber em nosso mundo, a fim de que um dia se entregasse por nós em um madeiro dolorido, sendo perseguido e morto pelo Estado. Um Deus que nunca julgava, acolhia. Um Deus que se tornou Cordeiro Sacrificial, obediente ao Pai, e que sobre si levou todas as nossas dores e enfermidades. Um Deus que busca habitar no mais profundo íntimo humano, bem longe dessa Igreja hegemônica do século XXI que tanto tem envergonhado o nome de Cristo.

Também existem aqueles que celebram o Natal de maneira diferente, seja por professarem outro credo, seja porque preferiram viver uma vida sem a influência de uma religião imposta por homens, mas que, independentemente disso, nessa época do ano se unem em um único laço de amizade. Mas o fato é o seguinte: todos, nessa época, estão "unidos" para renovar os votos de bondade, amor, paz, espiritualidade que costumam aparecer somente em datas festivas como as do mês de dezembro. É até bonito sentir os corações alegres transmitindo o Espírito Natalino. Mas, infelizmente, essa não é a realidade do ano inteiro. Preferimos trocar o amor pela indiferença, a partilha pelo consumo, e a unidade pelo vazio existencial e por todos os tipos de excessos.

Que neste Natal vivamos com verdade e na verdade, que nossa existência neste plano tenha sentido, e ao celebrarmos o Grande Mistério, possamos partilhar um pouco da graça que nos foi entregue por meio do Salvador do mundo. E vivamos Cristo, reconhecendo sua humildade no presépio, dando pão a quem tem fome e água a quem tem sede, respeitando cada um em sua individualidade, sem distinção de credo, orientação sexual, gênero, raça ou condição social. Peçamos a graça para que o Senhor dilate nosso coração a fim de que possamos receber um Deus grande que se faz pequeno para caber dentro de nós. 

Feliz e Santo Natal!

Por Rafael Rosa  
Escrito em 23 de dezembro de 2019.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

TEMPESTADES INTERNAS


Por: Rodrigo Falcone 

A vida é como a imensidão de um infinito oceano, onde as ondas são como as nossas experiências, nos arrastam ora para tempos de calmaria, ora para a tempestade. Em meio ao mar das emoções, encontramos a angústia, uma tempestade interna, um turbilhão de sentimentos que nos impede de navegar com clareza sob o comando do nosso barco. E, assim como as nuvens escuras que prenunciam a chuva, surgem também os momentos angustiantes, aqueles que provocam tempestade em nosso interior. É nesse contexto que nos deparamos com uma grande diferença entre sentir angústia e se sentir angustiado, duas faces de uma mesma moeda de cunho emocional. 

Entre a angústia e o se sentir angustiado/angustiante, há uma grande diferença. A angústia é aquele nó na garganta, aquilo que não foi digerido o suficiente, é a sensação de vazio existencial, de peso e de aperto no peito. Enquanto que "angustiante" é o adjetivo que provoca essa sensação, causado por uma situação, um pensamento ou um evento específico. Tudo isso nos coloca à margem de um demônio desconhecido, que talvez não seja associado ao mundo espiritual, explicado pelo cristianismo, mas sim àquilo que é parte de nós mesmos, fruto de uma vida inteira de sentimentos reprimidos, devidamente organizados em pequenos potes. Uma palavra, uma frase, um gesto, um toque pode ser o ponto de partida para que tudo aquilo que antes estava adormecido salte para fora, gerando somente caos e confusão. Um menino em descoberta daquilo que talvez possa não existir, perdido em seus pensamentos, vivendo enclausurado em seu mundo, numa espécie de peregrinação no deserto, onde a esperança parece não existir e o amor ser apenas uma capacidade psíquica ilusória para que continuemos a acreditar que este mundo é real, mesmo não sendo. 

Por nós passam pessoas de todos os tipos, cada uma ensinando algo seja de bom ou ruim; muitas chegam, fazem as honras e, quando menos esperamos, logo viram saudade. É o abandono da humanidade que sorri diante da efêmera vida; talvez a frieza do espírito humano, a insensatez, o descontentamento ou aquela sensação de que tudo à sua volta continua florido e você parado no tempo e no espaço. Enquanto o rio da vida segue seu curso natural entre nascentes que brotam do improvável e açudes que surgem para gerar fonte de renda e energia, tudo lá fora parece seguir em frente, sendo que aqui dentro tudo continua sem perspectiva, sem força de vontade e aquilo que impulsiona a vida: o viver.

Um poeta desconhecido certa vez escreveu que o choro é a máxima da expressão humana quando não conseguimos expressar mais nada em palavras sobre o que estamos sentindo. Ouso crer que ele estava certo, mas acredito que até as lágrimas têm um momento certo para secar. As minhas estão quase secando e dando lugar à indiferença, não das pessoas que amei ou deixei de amar com o tempo, mas a de mim mesmo, que há muito não vivo, apenas sobrevivo. Considero um reflexo de situações mal trabalhadas e curadas do passado? Talvez, assim como também considero certos traumas herdados pela ancestralidade.

Como conselho à humanidade futura que eu provavelmente não vou chegar a conhecer: cuidem dos excessos, eles escondem uma falta que merece atenção. Olhem para suas emoções, se expressem, resolvam seus conflitos internos e externos, e levem a vida menos a sério como eu levei, ou vocês podem um dia se encontrar onde estou hoje, que sinceramente, nem eu sei onde estou.

Dizem que a vida pede passagem para ser vivida; a minha cansou de andar, hoje só deseja viver em paz e com sanidade mental para levar uma vida digna. Afinal, creio que a paz que tanto procuro não seja deste mundo!