"A força e a dignidade são os seus vestidos, e ela sorri para o futuro."
(Provérbios 31:25)
Laura Rosa da Silva nasceu em 17 de outubro de 1935. Sua história começou marcada pela dor, mas também pela extraordinária capacidade de sobreviver e de resistir ao sistema que lhe fora imposto. Ainda criança, enfrentou perdas que transformariam significamente sua trajetória: perdeu o pai aos oito anos de idade e, quatro anos depois, a mãe. Órfã muito cedo, foi criada pelos irmãos e irmãs mais velhos, passando de uma casa para outra, aprendendo desde menina que a vida exigia resistência e adaptação. Segundo a tradição preservada por sua família, Laura era descendente legítima de indígenas da etnia Kaingang, os assim pejorativamente chamaos de "Bugres". Seus pais haviam migrado da região de Curitiba-PR para o interior paulista em busca de trabalho, estabelecendo-se na região de Piquete-SP, onde encontraram sustento nas oportunidades oferecidas pelo processo de industrialização da época da Fábrica Presidente Vargas.
Ainda que muitas dessas raízes não tenham sido registradas oficialmente, elas permaneceram vivas na forma como Laura compreendia o mundo, a natureza e o mundo espiritual. Muito jovem, aos quatorze anos, começou a trabalhar como empregada doméstica, cuidando de uma criança e dos afazeres de uma casa na cidade de Cruzeiro. Teve pouca oportunidade de frequentar a escola, mas desenvolveu uma inteligência prática admirável, aprendendo a enfrentar as dificuldades com coragem, criatividade e uma irreverência que a acompanharia por toda a vida. Foi mãe de seis filhos — Neuza, Márcio, Luiz Cláudio, Rose, Marcelo e Marcelino. Embora cada um tivesse sua própria história de origem, foi Antônio Rosa quem assumiu a paternidade de todos, registrando-os como seus filhos e oferecendo à família estabilidade, dignidade e um sobrenome que Laura valorizava profundamente. Mesmo sem instrução formal, fazia questão de ensinar aos filhos um princípio que considerava inegociável: a preservação do próprio nome. Repetia que a honestidade valia mais do que qualquer riqueza e insistia para que seus filhos fossem pessoas corretas, que não devessem nada a ninguém e construíssem uma reputação baseada na palavra, na ação e no caráter.
Laura viveu intensamente. Teve excessos, enfrentou dificuldades e conheceu de perto a dependência do álcool. Contudo, sua história não foi definida por essas fragilidades. Em 1994, com o nascimento da primeira bisneta, Thamires, tomou uma decisão que surpreendeu a todos: abandonou definitivamente a bebida. Foi uma mudança profunda, mantida até o fim de sua vida, tornando-se um dos maiores testemunhos de sua força de vontade.
Laura era uma mulher inquieta e dificilmente permanecia parada. Nos fins de semana, seguia para Guaratinguetá e Lorena levando mercadorias para vender nas tradicionais feiras da Barganha. Gostava do movimento, das conversas e da convivência com as pessoas. O comércio era menos um meio de enriquecer e mais uma forma de sentir-se viva, ocupada e inserida na comunidade. Seu temperamento era forte. Impaciente em muitos momentos, também era uma excelente contadora de histórias e valorizava profundamente sua memória ancestral além dos seus costumes, crenças e tradições. Quem se sentava ao seu lado dificilmente saía sem ouvir algum relato curioso, uma lembrança da juventude ou alguma narrativa carregada de mistério e encantamento. Sua espiritualidade talvez tenha sido um dos aspectos mais singulares de sua personalidade. Embora se declarasse católica durante toda a vida, jamais abandonou elementos que, segundo acreditava, faziam parte de sua herança ancestral. Acreditava em Deus, em Nossa Senhora Aparecida, nas histórias sobre seres encantados da floresta, e na demonstração e respeito por diferentes tradições religiosas, como o budismo e o hinduísmo, além das religiões de matriz-africana. Muito antes de conceitos como diálogo inter-religioso e ecumenismo se tornarem comuns, Laura já vivia uma espiritualidade profundamente plural, construída a partir da própria experiência de vida e sem preocupação com convenções ou julgamentos. Essa maneira livre de viver sua fé nem sempre foi compreendida. Em alguns momentos, afastou-se da prática religiosa institucional, mas jamais perdeu a convicção de que Deus caminhava com ela. Sua religiosidade era espontânea, intuitiva e profundamente marcada pelo respeito ao Sagrado presente em diferentes tradições. Nos últimos anos enfrentou uma dura batalha contra problemas hematológicos que evoluíram para um quadro de leucemia. Após uma vida marcada por lutas, perdas, recomeços e incontáveis histórias, Laura Rosa da Silva faleceu em 30 de abril de 2017, às 05h55min, deixando filhos, netos, bisnetos e trinetos que continuam preservando sua memória.
Dona Laura nunca foi uma mulher comum. Viveu sem se encaixar facilmente em padrões, enfrentou a pobreza, a orfandade, os preconceitos e as próprias limitações sem perder a autenticidade do seu ser. Foi imperfeita, intensa, generosa e profundamente humana. Carregava em si a força das mulheres que aprenderam sobreviver antes mesmo de aprenderem sonhar. Sua história permanece viva não apenas na descendência que deixou, mas também na coragem de quem transformou sofrimento em resistência, fez da liberdade sua forma de existir e ensinou, à sua maneira, que a dignidade não depende da origem de uma pessoa, mas da honestidade com que ela escolhe viver.
Dona Laura, PRESENTE!
Autoria: Rafael Victor Ribeiro da Silva Rosa (seu neto)
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