sábado, 10 de outubro de 2026

UM IRMÃO QUE A VIDA ME DEU


UM IRMÃO QUE A VIDA ME DEU
POR: RAFAEL VICTOR RIBEIRO

Um dia, a vida me presenteou
com um irmão.

Entre dois mundos,
culturas um pouco distantes
e idades diferentes,
nosso encontro nasceu
do mais profundo da alma,
bem perto do coração.

Ele veio de uma linhagem bastante antiga,
entre brasões, sobrenomes
e memórias de uma longínqua Itália;
eu vim do trabalho de mãos camponesas portuguesas,
de raízes ancestrais indígenas dos Kaingangs,
do suor e da dor dos escravizados,
de histórias e memórias
que não se foi capaz de registrar.

Ele, carioca da gema, criado e educado
na Zona Sul do Rio de Janeiro;
eu, cria do interior de São Paulo,
criado entre as ruas de terra do bairro São Roque
e a pracinha da Rua Getúlio Vargas.

Ele herdou a persuasão, a mansidão
e a arte da diplomacia;
eu herdei a resistência e a persistência
de quem faz da própria vida
um gesto político de sobrevivência.

Ele, apesar de uma vida agitada
no Rio de Janeiro,
escolheu a simplicidade, o silêncio
e o despojamento dos excessos;
eu nasci no caos e na incompreensão de quem sou,
mas fiz do requinte
minha identidade e sofisticação.

Ele é repertoriado, entende de leis,
de esportes e de saúde,
de tudo o que envolve
um corpo em movimento.

Eu entendo de cores,
de sons, de formas e texturas, de textos e,
tudo aquilo que atravessa
o território invisível das remanescências das nossas emoções.

Ele tem uma inteligência
que surpreende;
eu tenho o esforço
que persiste.

Ele inventa,
eu reinvento;
e, entre uma ideia e outra,
nossa criatividade floresce
onde parece não existir nada.

Ele é magro.
Eu sou fordo — concepção etimológica da palavra que significa forte com gordo.

Ele anda de lambreta motorizada;
eu tenho a arte e a façanha
de me descolar entre uma carona e outra. 

Ele é carinho,
humanidade e acolhimento;
eu sou o deboche,
a incompreensão
e o caos disfarçado
de sofisticação equilibrada.

Ele observa
e faz suas leituras em silêncio;
eu expresso demais,
transbordo nas emoções e nas palavras
e, às vezes,
nem percebo o que revelo.

Cada qual com seu jeitinho único
de existir,
a vida tem um senso de humor
bastante peculiar
quando resolve unir
dois irmãos de mundos tão diferentes.

Conhecemo-nos no serviço,
entre tarefas e obrigações,
deslocamentos, compromissos
e horários a cumprir.

Entre encontros, risos
e despedidas,
tornamo-nos confidentes,
companheiros de luta, com sonhos e projetos em mente,
com a mesma fé comum por: justiça social.

Nós dois somos guardiões de segredos,
cúmplices do riso
que torna a vida mais leve,
dois amigos-irmãos que, sem perceber,
transformaram dias comuns
em histórias para guardar,
diante da finitude
que se apresenta aos nossos olhos.

Quando um falta no serviço,
o outro não fica incompleto, porque cada um é parte de si mesmo;
mas o riso não surge com a mesma facilidade,
e o olhar sente a ausência
na paisagem do dia.

Quando a vida pesa
e o mundo parece estreito,
sem passagem, sem saída,
ele aparece com seu jeito
brincalhão e despojado de si.

Arranca-me um riso improvável
e, com afeto,
devolve-me à roda da vida e,
eu caio na dança.

Capone herdou
a maior de todas as riquezas:
a nobreza da alma,
a mão que ampara,
o coração que acolhe
e a presença
que não se mede.

Ribeiro, por sua vez, herdou a arte do encontro,
que talvez seja próprio
de seu requinte e sofisticação
reconhecer, nas coisas mais simples
da existência humana,
os tesouros generosos
que a vida oferece.

Diferentes na origem,
no corpo, no jeito de ser
e na estrada da vida;
porém, quando o assunto é irmandade,
não existe linhagem
que pese mais que o afeto.

Dois sujeitos,
um universo,
duas histórias
e uma amizade.

É a sabedoria da vida
que, sem pedir licença,
decidiu entrelaçá-las, provando que encontros acontecem e, quando a gente menos espera, nasce um amigo, nasce um irmão.

Ele, um presente
Divino colocado no meu caminho.
Eu, talvez, um presente
que a vida lhe quis dar para ensinar o que é paciência.

Na nossa liberdade, somos irmãos
sem precisarmos compartilhar
o mesmo sangue ancestral, sem precisar se falar todos os dias, que cada qual honra à sua maneira de ser.

A família também acontece assim:
sem vínculo de sangue e, principalmente,
sem obrigação ou exigências.

Confesso que a vida é bastante generosa,
já me deu outros "Andrés" com a mesma intensidade,
irmãos que não nasceram
do mesmo ventre,
mas que o afeto escolheu
para caminhar comigo.

No entanto, cada um é único
e ocupa seu lugar no mundo,
com endereços impressos na alma.

Capone é piadista por natureza, ri de tudo e de todos;
Ribeiro, um debochado, nobre sonhador e causador
de coisas boas, claro. 

No vai e vem da vida,
permanece uma certeza:
no mais profundo do coração,
nasce um irmão
a quem carinhosamente chamamos de amigo.

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