sábado, 12 de setembro de 2026

A CULTURA NÃO É FEITA DE PALHAÇADA

 


As Mulheres de Argel (1955), de Pablo Picasso - Cubismo

A Cultura não é feita de palhaçada
Por: Rafael Victor Ribeiro

A cultura é feita de encontros, de histórias e de raízes ancestrais. São hábitos, costumes e tradições herdadas de um povo que se perpetuam de geração à geração. A cultura interfere diretamente na forma como enxergamos o mundo e como somos enxergados.

Mário de Andrade defendia que o primitivismo cultural brasileiro, ou seja, a cultura nos primeiros séculos de história do país, não era de ordem estética, mas social, o qual procurou confrontar a produção artística do país com a realidade nacional existente em meados da década de 1920, dando então origem a um nacionalismo que se voltava para a própria identidade brasileira e rompia com a submissão aos modelos europeus impostos que foram nossa base referencial por décadas.

Peter Burke, importante historiador, por sua vez, reconhecia a existência de uma dicotomia entre culturas tidas como hegemônicas e subalternas, estando uma historicamente submetida à conjuntura da outra. E, nesse sentido, o autor rompe com o paradigma de uma cultura única, homogênea e hierarquizada, reconhecendo a existência de múltiplas culturas dentro de uma, em constante diálogo, conflito e processos de transformação.

Cultura, portanto, não é aquilo que simplesmente diverte e entretém. Cultura é aquilo que nos constitui enquanto povo vivo. É memória, identidade, pertencimento, resistência e continuidade. Cultura é a maneira pela qual um povo preserva aquilo que recebeu de seus antepassados e, ao mesmo tempo, transforma aquilo que deixará para as próximas gerações.

Clifford Geertz exemplifica a cultura como uma teia de significados na qual os seres humanos interpretam e organizam suas experiências. O autor defende a ideia de que a cultura é uma condição da existência humana. Se considerarmos o pensamento do autor no que diz respeito à forma como o ser humano interpreta a própria vida, reduzi-la à mera “palhaçada” é reduzir a experiência humana a uma vertente caricata.

Podemos considerar que a cultura não está somente atrelada aos museus, às galerias de arte e aos grandes teatros. O conceito de cultura se transforma à medida que as relações humanas vivenciam experiências sociais, políticas, econômicas e religiosas. A cultura está longe de ser um privilégio da elite que sempre dominou o mundo, tampouco é mero sinônimo de lazer e entretenimento. A cultura recorda, transmite, pensa e sobrevive. Funciona como uma espécie de código pelo qual determinado grupo interpreta, modifica, resignifica e decodifica o mundo a partir de si próprio e do meio.

Ressaltamos, então, que a cultura não é feita de palhaçada. A cultura pode nos fazer rir, dançar e celebrar, mas, por trás dessas manifestações chamadas de manifestações poéticas, existem símbolos, pessoas, memórias, identidades e relações de poder.
Essa reflexão pessoal diz respeito à crítica intelectual diante da banalização do conceito de cultura, devido à sua mercantilização, ao privilégio das elites, à polarização política que transformou a cultura em campo de disputa e à perda da dimensão histórica. É importante reconhecer a existência de diferentes formas de expressão cultural, sem retirar delas a sua importância, compreendendo como cada grupo social produz, preserva e transforma suas próprias maneiras de recordar e interpretar uma realidade. 

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