domingo, 15 de fevereiro de 2026

MEMÓRIAS DE UMA FILHA E NETA DE METODISTAS: LEONÍDIA RIBEIRO LEITE

"Firme está o meu coração, ó Deus! Cantarei e entoarei louvores de toda a minha alma." (Salmo 108:1)

Leonídia Ribeiro Leite nasceu em Piquete, no dia 15 de fevereiro de 1943. É filha do Sr. Francisco Custódio Alves, ex-operário da Fábrica Presidente Vargas, e da saudosa D. Esmeraldina Ribeiro Alves. Leonídia é irmã de Eliel Custódio Alves, Leontina Ribeiro Alves e Maurisa Ribeiro Alves.

Recebeu o Santo Batismo nesta Igreja, ainda na infância, pelas mãos do Rev. Nelson Lacerda. Aos 13 anos de idade, fez sua pública Profissão de Fé, conduzida pelo Rev. João Inácio da Silva.

Sua família converteu-se ao Protestantismo por influência de seus tios, Garibaldi Clímaco Pereira e Bernardina Ribeiro Pereira, ainda quando a Igreja Metodista funcionava como congregação em um salão alugado na Rua Comendador Custódio Vieira Marques, nº 7.

Desde pequena, Leonídia participou ativamente das atividades da Igreja Metodista em Piquete. Participou da Sociedade Metodista de Crianças, Sociedade Metodista de Jovens, Equipe de Liturgia e Ornamentação, além de colaborar voluntariamente na manutenção e limpeza da Igreja, juntamente com sua inseparável amiga, Neusa Teodoro (in memoriam).

Aos dezesseis anos, passou a integrar o extinto Coral da Igreja no qual cantava no naipe de contraltos. Estudou música, especificamente Órgão Litúrgico, por um breve período, com a professora Heidi Cóppola. Posteriormente, deixou os estudos musicais para dedicar-se ao corte e costura.

Seu casamento ocorreu em 27 de junho de 1964. Alguns anos depois, mudou-se para Lorena, em razão do emprego de seu esposo, Pedro Senne Leite. Transferiu-se, então, como membro, para a Igreja Metodista em Lorena, onde permanece fiel até os dias atuais.

Leonídia tem cinco filhos: Sandra, Flodoaldo, Pedro, Silvana e Alessandro; além de onze netos: Rafael, Bruna, Camila, Luiz Claudio, Jéssica, Lucas, Bianca, Thiago, David (in memoriam), Matheus e Vinícius; e, atualmente, em 2026, doze bisnetos: Ana Lívia, Mirella, Valentina (Da Camila), Pedro Henrique, Joaquim Felipe, Gael, Ravi, Isis, Ana Liz, Laura, Valentina (Do Vinícius) e José.

Leonídia permanece como membro ativa da Escola Dominical, da Sociedade Metodista de Mulheres, do Clube Dorcas e das Reuniões de Oração. É grata a Deus por tudo o que Ele tem realizado em sua vida.

Leonídia é parte da nossa história. Sua trajetória de fé, serviço e dedicação constitui uma preciosa memória da presença metodista em Piquete.

O Senhor seja louvado por meio de sua vida!

[Texto escrito por ocasião do 90º aniversário da Igreja Metodista em Piquete, em 2019, como registro da memória dos primeiros metodistas em Piquete | Texto revisado e publicado em 01 de setembro de 2026]

sábado, 24 de janeiro de 2026

UM DIA DEPOIS DE UMA QUINTA-FEIRA


Por: Rodrigo Falcone 

Levei um ghosting, e isso me doeu profundamente. Não fui intenso; apenas correspondi à altura, acompanhando o fluir das mensagens que trocávamos. No primeiro encontro, tudo pareceu mágico — aquela química rara de início. Foram dias de conversa afiada e intensa, partilha de gostos particulares, mensagens que iam do um simples “bom dia” ao sincero “como foi seu dia?”. Eu era, o tempo todo, resposta para aquilo que ele queria ouvir. Ou talvez eu tenha sentido demais. Ou talvez tenha sido só eu nesse jogo inteiro — um jogo de azar!

Viajei 300 quilômetros para vê-lo. Deixei de encontrar amigos de longa data para colocá-lo como prioridade naquele instante. E, numa quinta-feira despretensiosa, em um jantar simples, regado a bons papos e um vinho de qualidade duvidosa, servido numa taça de espumante — sim, esse foi o nível da cafonice —, trocamos carícias e afetos. Falamos sobre a vida, sobre ancestrais, religiões e destinos. O sexo aconteceu: intenso, carregado de energia e prazer, as vezes romântico, as vezes insano e depravado. Em alguns momentos, o nervosismo tomou conta, e a performance dos dois falhou. Sim, falhou — porque somos feitos de afeto e de cuidado, e nosso erro é criar expectativas demais. Acredito que sentimento até existiu, mas, no turbilhão das emoções humanas, o "Jurandir", se assim posso nomeá-lo, confundiu nos próprios afetos e escolheu a ausência.

A mensagem que eu esperava ao amanhecer não veio. O gesto de carinho, aquele simples perguntar como estava sendo meu dia, também não. Do lado de fora da janela daquele quarto de hotel onde eu estava hospedado, havia apenas chuva e frio. Por volta das 18h20min, chegou uma mensagem em tom gentil, perguntando como havia sido meu dia. Eu soube, naquele instante, que algo havia mudado — e não me refiro apenas à frieza dele, mas à forma como eu mesmo passei a administrar meus sentimentos e compreender que eu não fui de menos nem de mais. Eu apenas fui quem eu sou.

Minutos depois, uma mensagem curta: uma justificativa. O trabalho havia sido puxado, e ele jantaria com o pessoal do serviço. Ali compreendi que alguém tentava colocar sobre mim um peso de responsabilidade emocional que não me pertencia. Coube-me, então, a dignidade e o respeito de reconhecer o lugar que nunca foi meu.

Cheguei a São Paulo numa quinta, que até então era o meu dia preferido, pois foi quando eu nasci. Sofri numa sexta e, ao nascer da aurora de sábado, fiz o caminho de volta à cidade onde nasci — território de afetos, de memórias e de pessoas que me amam. Percebi que essa é a maior riqueza da vida e que, sim, podemos substituir devaneios humanos por sentimentos que realmente importam. Talvez seja por vivências assim que tanta gente deixou de acreditar no amor carnal entre dois seres.

Fiz pelo "Jurandir" o que até então não havia feito por ninguém, porque acreditei naquilo que vivemos. Investi tempo, dinheiro e afeto e, ao final, recebi apenas indiferença. Talvez por isso digam que a indiferença seja o sentido de tudo: ela não frustra, não decepciona — apenas nos devolve à realidade e nos ensina o lugar que nunca foi nosso.

No fim das contas, não permaneci em São Paulo todos os dias combinados, não vivi o que esperava, mas vivi o que era necessário. Com o tempo, compreendemos que algumas presenças não são essenciais; que, um dia, a falta sentida será a sua — e talvez o outro nunca perceba isso. Afinal, você foi você, e quem nasceu para viver no raso jamais compreenderá a imensidão de água que você é.

Hoje dói. Amanhã, provavelmente, também doerá. Mas depois a gente se refaz e continua tentando jogar esse jogo estranho da vida chamado amor.

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

NATAL: POLÍTICA DE CONSUMO OU MÍSTICA DA ESPIRITUALIDADE?

Dizem que o Natal perdeu seu significado, dando lugar ao consumismo exacerbado e à figura emblemática do Papai Noel. O Natal proporciona novos empregos, ainda que temporários, mas que para muitas pessoas serão suficientes para suprir as necessidades de quem vive à margem invisível da indiferença humana, podendo torná-los, assim, mais dignos, confiantes e, sobreamente, "humanos".

É tradição no Brasil e em diversas partes do mundo que as famílias se reúnam para decorar as casas com muitas luzes ou encher a árvore de Natal com presentes caros, onde, no dia 24, as crianças trocarão seus presentes. Cânticos natalinos serão entoados ao acender das velas que remetem à espiritualidade natalina, ou seja, à encarnação do Verbo, Jesus. Na véspera de Natal, há quem não descanse um minuto sequer, preparando os deliciosos pratos que serão servidos na tradicional ceia, tudo para aqueles que amamos, ou que pelo menos acreditamos amar. Todos unidos em volta de uma grande mesa para celebrar o nascimento do Menino Deus, de origem pobre e humilde, envolto em panos simples e depositado em um coxo onde comiam os animais. Tal menino que se fez pequeno e frágil para caber em nosso mundo, a fim de que um dia se entregasse por nós em um madeiro dolorido, sendo perseguido e morto pelo Estado. Um Deus que nunca julgava, acolhia. Um Deus que se tornou Cordeiro Sacrificial, obediente ao Pai, e que sobre si levou todas as nossas dores e enfermidades. Um Deus que busca habitar no mais profundo íntimo humano, bem longe dessa Igreja hegemônica do século XXI que tanto tem envergonhado o nome de Cristo.

Também existem aqueles que celebram o Natal de maneira diferente, seja por professarem outro credo, seja porque preferiram viver uma vida sem a influência de uma religião imposta por homens, mas que, independentemente disso, nessa época do ano se unem em um único laço de amizade. Mas o fato é o seguinte: todos, nessa época, estão "unidos" para renovar os votos de bondade, amor, paz, espiritualidade que costumam aparecer somente em datas festivas como as do mês de dezembro. É até bonito sentir os corações alegres transmitindo o Espírito Natalino. Mas, infelizmente, essa não é a realidade do ano inteiro. Preferimos trocar o amor pela indiferença, a partilha pelo consumo, e a unidade pelo vazio existencial e por todos os tipos de excessos.

Que neste Natal vivamos com verdade e na verdade, que nossa existência neste plano tenha sentido, e ao celebrarmos o Grande Mistério, possamos partilhar um pouco da graça que nos foi entregue por meio do Salvador do mundo. E vivamos Cristo, reconhecendo sua humildade no presépio, dando pão a quem tem fome e água a quem tem sede, respeitando cada um em sua individualidade, sem distinção de credo, orientação sexual, gênero, raça ou condição social. Peçamos a graça para que o Senhor dilate nosso coração a fim de que possamos receber um Deus grande que se faz pequeno para caber dentro de nós. 

Feliz e Santo Natal!

Por Rafael Rosa  
Escrito em 23 de dezembro de 2019.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

TEMPESTADES INTERNAS


Por: Rodrigo Falcone 

A vida é como a imensidão de um infinito oceano, onde as ondas são como as nossas experiências, nos arrastam ora para tempos de calmaria, ora para a tempestade. Em meio ao mar das emoções, encontramos a angústia, uma tempestade interna, um turbilhão de sentimentos que nos impede de navegar com clareza sob o comando do nosso barco. E, assim como as nuvens escuras que prenunciam a chuva, surgem também os momentos angustiantes, aqueles que provocam tempestade em nosso interior. É nesse contexto que nos deparamos com uma grande diferença entre sentir angústia e se sentir angustiado, duas faces de uma mesma moeda de cunho emocional. 

Entre a angústia e o se sentir angustiado/angustiante, há uma grande diferença. A angústia é aquele nó na garganta, aquilo que não foi digerido o suficiente, é a sensação de vazio existencial, de peso e de aperto no peito. Enquanto que "angustiante" é o adjetivo que provoca essa sensação, causado por uma situação, um pensamento ou um evento específico. Tudo isso nos coloca à margem de um demônio desconhecido, que talvez não seja associado ao mundo espiritual, explicado pelo cristianismo, mas sim àquilo que é parte de nós mesmos, fruto de uma vida inteira de sentimentos reprimidos, devidamente organizados em pequenos potes. Uma palavra, uma frase, um gesto, um toque pode ser o ponto de partida para que tudo aquilo que antes estava adormecido salte para fora, gerando somente caos e confusão. Um menino em descoberta daquilo que talvez possa não existir, perdido em seus pensamentos, vivendo enclausurado em seu mundo, numa espécie de peregrinação no deserto, onde a esperança parece não existir e o amor ser apenas uma capacidade psíquica ilusória para que continuemos a acreditar que este mundo é real, mesmo não sendo. 

Por nós passam pessoas de todos os tipos, cada uma ensinando algo seja de bom ou ruim; muitas chegam, fazem as honras e, quando menos esperamos, logo viram saudade. É o abandono da humanidade que sorri diante da efêmera vida; talvez a frieza do espírito humano, a insensatez, o descontentamento ou aquela sensação de que tudo à sua volta continua florido e você parado no tempo e no espaço. Enquanto o rio da vida segue seu curso natural entre nascentes que brotam do improvável e açudes que surgem para gerar fonte de renda e energia, tudo lá fora parece seguir em frente, sendo que aqui dentro tudo continua sem perspectiva, sem força de vontade e aquilo que impulsiona a vida: o viver.

Um poeta desconhecido certa vez escreveu que o choro é a máxima da expressão humana quando não conseguimos expressar mais nada em palavras sobre o que estamos sentindo. Ouso crer que ele estava certo, mas acredito que até as lágrimas têm um momento certo para secar. As minhas estão quase secando e dando lugar à indiferença, não das pessoas que amei ou deixei de amar com o tempo, mas a de mim mesmo, que há muito não vivo, apenas sobrevivo. Considero um reflexo de situações mal trabalhadas e curadas do passado? Talvez, assim como também considero certos traumas herdados pela ancestralidade.

Como conselho à humanidade futura que eu provavelmente não vou chegar a conhecer: cuidem dos excessos, eles escondem uma falta que merece atenção. Olhem para suas emoções, se expressem, resolvam seus conflitos internos e externos, e levem a vida menos a sério como eu levei, ou vocês podem um dia se encontrar onde estou hoje, que sinceramente, nem eu sei onde estou.

Dizem que a vida pede passagem para ser vivida; a minha cansou de andar, hoje só deseja viver em paz e com sanidade mental para levar uma vida digna. Afinal, creio que a paz que tanto procuro não seja deste mundo!

terça-feira, 25 de novembro de 2025

PROFESSORA HEIDI COPPOLA (BIOGRAFIA)


Nascimento: 3 de novembro de 1939, Guaratinguetá-SP
Falecimento: 6 de novembro de 2001, Guaratinguetá-SP

Nascida em Guaratinguetá, São Paulo, em 03 de novembro de 1939, professora Heidi Coppola passou a maior parte de sua vida na cidade de Lorena. Desde a mais tenra infância, destacou-se pelo talento excepcional na música, iniciando seus estudos ao piano ainda muito jovem. Graduou-se em Educação Artística com habilitação em Música pela Faculdade de Artes Alcântara Machado, em São Paulo, tendo a oportunidade de se especializar com renomados professores de música e arte do país. 
Professora Heidi dedicou sua carreira às artes e à educação musical, lecionando em diversas instituições respeitadas do Vale do Paraíba. Das quais, destacam-se o Colégio Técnico de Guaratinguetá (Cotec); o Colégio Técnico Alfredo de Barros Santos (Guaratinguetá) e o Colégio Maria Amália de Magalhães Turner (Guaratinguetá) em meados de 1975.
Sua paixão pela música a levou a fundar e reger vários corais e grupos musicais formados por estudantes de música. Atuou como regente e organista dos Corais da Prefeitura Municipal de Guaratinguetá; Coral da Igreja Adventista do Sétimo Dia (Lorena-SP) e Coral Charles Wesley da Igreja Metodista (Lorena-SP) em meados de 1960 e 1970. Auxiliou na criação da Orquestra Filarmônica Asafe da Igreja Evangélica Assembleia de Deus (Lorena-SP), durante os anos de 1980 e 1990, sendo também
responsável por formar vários pianistas e organistas da região.
Professora Heidi também atuou como professora de artes e desenho industrial pela Escola Climério Galvão César; Instituto Santa Teresa e Faculdade Teresa D'Ávila, todas em Lorena-SP. Além disso, durante a década de 1990, atuou como professora de piano, percepção e teoria musical pela Escola de Música, Artes Plásticas e Cênicas Maestro Fêgo Camargo, em Taubaté-SP, incentivando seus vários alunos do fundo do vale a buscar formação técnica profissionalizante.
Durante seu período de formação acadêmica, recebeu orientação de vários 
mestres, tais como se destacam o saudoso maestro lorenense João Evangelista e a pianista e concertista Lídia Alimonda (São Paulo).
Quem teve a oportunidade de conviver com a professora Heidi, sabe que sua casa em Lorena se tornou um verdadeiro reduto musical, acolhendo jovens músicos em busca de aprendizado. Professora Heidi foi fundamental para a promoção e o desenvolvimento da música de câmara e de concerto na cidade de Lorena, em uma época em que as oportunidades eram escassas.
Heidi Coppola nos deixou no dia 6 de novembro de 2001, falecendo aos 62 anos no hospital da Escola de Especialistas Aeronáutica, em Guaratinguetá, vítima de um câncer. Seus restos mortais descansam no Cemitério Municipal no Pedregulho, em Guaratinguetá-SP.
Seu legado nas artes e na educação musical, assim como sua contribuição à cultura local e a performance artística, permanecem vivos na memória de muitos de seus ex-alunos.
Em sua homenagem, foi criada a Camerata de Cordas Profª. Heidi Coppola, por iniciativa do professor, musico e regente Rafael Victor Ribeiro Rosa, com o objetivo de desenvolver a técnica de repertório, a performance artística, a prática de conjunto e o cultivo e a formação de público ouvinte e apreciador de boa música.


(Registros fotográficos gentilmente cedidos por seu viúvo Sr. João Lídio).

segunda-feira, 15 de setembro de 2025

O DIÁLOGO ECUMÊNICO E INTER-RELIGIOSO HOJE: UM CHAMADO À UNIDADE


O DIÁLOGO ECUMÊNICO E INTER-RELIGIOSO HOJE: UM CHAMADO À UNIDADE.

A prática do diálogo ecumênico exige, em nossos dias, uma ressignificação profunda. Não podemos mais conceber o diálogo cristão isoladamente, sem integrá-lo à dimensão inter-religiosa, pois a atitude de fé é, em sua essência, uma questão existencial que nos convida a formar a nossa interioridade, levando a um novo modo de pensar. Ser verdadeiramente ecumênico é ir além, é sentir o coração do outro com o próprio coração, é desejar a unidade não apenas como um ideal, mas como a manifestação plena da Igreja e da comunhão da graça.

O ecumenismo, portanto, nos inspira a um novo modo de pensar e de viver a fé. Ele nos impele a redimensionar o sentido do ser cristão e o ser Igreja em um mundo tão plural e diverso. Nesse sentido, considera-se o ser "anti-ecumênico" uma desobediência ao magistério eclesial da Igreja Católica, como bem definiu o Papa Francisco: "A cultura do encontro", modo de ser indispensável, parte de novas cristologias e novas hermenêuticas bíblicas. É a ideia de que devemos sair da nossa própria bolha e ir ao encontro do outro, reconhecendo sua dignidade e seu valor, mesmo que haja diferenças de pensamento e de religião. A cultura do encontro se manifesta por meio do diálogo sincero e da escuta ativa, da empatia e da solidariedade.

Unitatis Redintegratio propõe: "Guardando a unidade nas coisas necessárias, todos na Igreja, segundo o múnus dado a cada um, conservem a devida liberdade tanto nas várias formas de vida espiritual e de disciplina, como na diversidade de ritos litúrgicos e até mesmo na elaboração teológica da verdade revelada. Mas em tudo cultivem a caridade."

Este ensinamento nos convoca a uma incessante busca pela unidade, que é o desejo de Cristo para sua Igreja.

Assim, o diálogo ecumênico se torna uma ferramenta vital para a edificação da Igreja e a promoção do amor e da compreensão entre todos os povos, sejam eles cristãos ou não cristãos.

"Mas as iniciativas locais e individuais já não bastam. A situação atual do mundo exige uma ação de conjunto a partir de uma visão clara de todos os aspectos econômicos, sociais, culturais e espirituais. Conhecedora da humanidade, a Igreja, sem pretender de modo algum imiscuir-se na política dos Estados, tem apenas um fim em vista: continuar, sob o impulso do Espírito consolador, a obra própria de Cristo, vindo ao mundo para dar testemunho da verdade, para salvar, não para condenar, para servir, não para ser servido." [Papa Paulo VI, Populorum Progressio, n° 13].



Registros fotográficos do Encontro Nacional de Formação e Convivência Ecumênica da CNBB, nos dias 12, 13 e 14 de setembro, em Jundiaí-SP. 

terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

SACRAMENTO DO AMOR


Sacramento do Amor

Por: Rosa, R. Rafael. 

Hoje, 11 de fevereiro, solenidade em honra a Nossa Senhora de Lourdes, testemunhei um momento que ficará gravado em minha memória e no meu coração. Estava na casa de uma família de paróquianos, participando da Santa Missa, todos envolvidos diante de uma atmosfera de fé, religiosidade e sagrada devoção que permeava o ambiente. Na melodia suave e harmoniosa dos cânticos acompanhados pelo violão, e sobre a mesa singela onde Jesus Eucarístico seria entregue a todos pelas mãos do Santo Sacerdote, o cheiro suave das flores misturava-se ao som das orações feitas pelos fiéis, que subiam ao céu como oferta agradável a Deus, enquanto as vozes se uniam em louvor. Mas foi durante a comunhão que a verdadeira essência do Mistério se revelou a nós.

Uma travesti se aproximou da Mesa Sagrada. A figura dela, que poderia facilmente ser ignorada ou marginalizada por parte da sociedade, ali representada, trouxe consigo uma presença marcante e um grande anseio por Jesus Eucarístico. Ao vê-la se aproximar, meu coração acelerou, e meus olhos não se conteram. O sacerdote transbordava misericórdia e amor, sem expressar qualquer julgamento; com um sorriso no rosto, entregou-lhe Jesus Sacramentado e, com um gesto sutil e reconfortante de acolhimento, disse mais do que as palavras que proferira durante sua homilia. Ali, naquele instante, enquanto todos contemplávamos o grande Mistério da Paixão e Morte do Senhor, pude ver na pessoa do sacerdote o próprio Cristo se fazendo presente. Ele não estava apenas na hóstia e no Cálice consagrado; Ele estava na sacralidade do amor diante daquela mulher que desafiava todos os tipos de estereótipos e preconceitos existentes.

Enquanto eu adorava Jesus no Sacramento da Comunhão, observava a cena e fui agraciado com uma visão profética: percebi que muitos dos presentes, ainda que em reverência, não se "ajoelhavam" diante da Eucaristia. Alguns o faziam em respeito ao rito, mas era visível que a verdade lhes faltava. Mas, aquela travesti, com um gesto de entrega e humildade, foi a única a se ajoelhar de fato diante do Senhor. Ajoelhou-se de corpo e de coração; seu ato simples e profundo ecoou como um hino de fé em um mundo cercado pela indiferença, pela arrogância e altivez; onde tantas vezes nos esquecemos da compaixão e do senso de humanidade. 

Naquele momento, durante a comunhão, lembrei-me das palavras do profeta Jeremias: "As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos!" E pude compreender que é muito fácil nos perdermos nas nossas próprias certezas, com meias verdades, vontades e interesses cheios de intolerância e separações de Deus e do nosso próximo. Ali estava uma lição viva do amor real manifestado e presente. Todos somos dignos da graça e da misericórdia do Senhor; todos são dignos de receber também o amor maternal da Virgem Maria Santíssima, entendendo que não há lugar melhor para estar do que na casa da mãe.

Com um sorriso no rosto, a travesti iluminou o ambiente e contagiou a todos com tamanha alegria ao receber em seu íntimo, a grandeza de um Deus que partilha conosco. Foi como se a esperança e a aceitação ressurgissem em sua vida.

A celebração continuou, mas algo dentro de mim já havia mudado. A cena daquela travesti ajoelhada diante do Sacerdote que ministrava Jesus me fez refletir sobre o verdadeiro significado da comunidade cristã: um espaço onde todas as pessoas devem ser bem-vindas sem exceções; onde o amor transcende as barreiras sociais e nos lembra da humanidade que compartilhamos.

Na noite de hoje, aprendi que a misericórdia divina não tem limites nem fronteiras e que cada encontro com Jesus é uma oportunidade de vivenciá-la plenamente.

Desejo que possamos sempre nos lembrar de abrir nossos corações para receber um Deus Grande que se faz pequeno para morar dentro de nós.

Graças e louvores se dêem a todo momento: ao Santíssimo e Diviníssimo Sacramento, o Sacramento do Amor! 

Arte: Cláudio Pastro | Imagem retirada da internet.