sexta-feira, 4 de setembro de 2026

UMA VILA DE NOME TRAVESSA DOS CASTROS

UMA VILA DE NOME TRAVESSA DOS CASTROS
POR: Rodrigo Falcone 

Numa vila de nome Travessa dos Castros, na cidade de Santa Cruz dos Andes, havia várias casas, todas padronizadas sob o mesmo estilo: varandinhas, janelas e portas pra rua. A vila era fechada por dois portões que davam acesso a duas ruas: a rua principal, de nome Princesa Pompeia, e a rua de fundo, chamada Esperança, que dava acesso a uma estação de trem antiga e a um parque centenário com muitos animais silvestres. Nessa vila, localizada no centro da cidade, moravam cinco idosas, que tinham suas manias e seus costumes esquisitos, daqueles de se esperar de senhorinhas que já passaram dos setenta anos. A estética da vizinhança era a mesma padrão: muitas estampas, crochê, plantas, namoradeiras na janela, móbiles, jardineiras na varanda etc. O cheiro também era bem peculiar: pela manhã, cheirava café e amaciante; ao meio-dia, um delicioso cozido de carne com legumes; e, à tarde, café com bolo fresquinho; e, de noite, cheirinho de sopa. E, assim, na tranquilidade de uma quase metrópole, viviam essas cinco senhorinhas de nome Lourdes, Balbina, Tereza, Cristina e Alzira. Todas tinham algo em comum: o amor pelas plantas e por tecidos estampados.

Dona Lourdes era a mais carola e religiosa de todas, vivia atormentando o Vigário Amoroso, sistemática que só. Quando não estava na Igreja, estava dentro de casa. E, da vila, pontualmente, às 15h e às 18h, era possível ouvir sua televisão nas maiores alturas, sempre ligada na TV Aparecida, onde passavam as récitas do Santo Terço com o Pe. José Marivaldo. Dona Lourdes era meio emburrada, não dava conversa pra qualquer pessoa, e não se pode dizer se seu coração também era fechado para os mistérios da caridade e do amor, prerrogativas da Igreja Católica.

Balbina era irmã de dona Lourdes; cada uma das irmãs morava em casas localizadas nas pontas dessa vila. Ao contrário de dona Lourdes, dona Balbina não era religiosa. Ia às missas em datas comemorativas, principalmente em Missas de Sétimo Dia. Sua "fezinha" era feita no seu querido jogo do bicho aos domingos. Balbina também era dotada de saberes culinários, fazia todos os tipos de quitutes que se possa imaginar, dos mais gostosos possíveis, daqueles que se comem rezando. E, claro, não dava nada pra ninguém, apenas vendia por um preço quase nada acessível.

Tereza e Cristina eram irmãs, moravam juntas, mas Cristina tinha uma casa de campo, então, vez ou outra, ficava na sua residência própria para cuidar de seus cavalos. As duas eram uns amores, muito cuidadosas com todos. Não eram nenhum pouco religiosas, tinham um lado espiritual independente de religiões, e, vez ou outra, como crianças, brigavam feio entre si. Mas uma não vivia longe da outra. Dona Tereza era mais tímida, falava manso e somente o necessário. Tinha olhos verdes feito gramado reluzente dos Alpes suíços. Cristina era mais espontânea, comunicativa e parecia ser uma jovem de uns 30 anos. Também tinha olhos verdes e expressivos, adorava um batonzinho vermelho-cereja, dizia que uma mulher que se preze não poderia se dar ao desleixo de sair à rua sem maquiagem.

Alzira era cheia de manias e costumes ritualísticos. Levantava pontualmente às 05h da matina, alimentava os canarinhos que tinha de estimação, abria a casa, passeava com o cachorro de nome Boby e voltava sempre por volta das 07h com um pãozinho fresquinho da padaria do Sr. Antero Clemente Inocente. Alzira era religiosa, a enfermidade a fez ser forte e a se aproximar de Deus ou da espiritualidade quântica. Às vezes, passava dias na capital em tratamento, e outras em casa. Era uma mulher forte, pois não se deixava abater por nada.

No meio dessas senhorinhas, havia também uma família, muito discreta, que só interagia com dona Cristina, que era quem conseguia conversar com todos da vizinhança. Era possível encontrar a família, ritualisticamente, sempre às terças, quintas e domingos, por volta das 18h, que era o horário em que saíam todos muito bem trajados para o Culto do Pastor Raposo Anacleto. Dona Cristina, metodicamente, fazia o mesmo comentário de sempre:

— Tá na hora, né? Por favor, rezem por nós!

No meio desse cenário poético, cheio de texturas, cores, sabores e de humanidades nas efemeridades da vida, havia um jovem estudante de música clássica. De nome Alan, que alugou a casa dos pais falecidos do Sr. Constantino Quirino. Alan tocava piano, trabalhava como professor de música e cursava o Bacharelado em Música na Universidade de Santa Cruz dos Andes, no período noturno. Quase não o via na vila, pois seus horários eram bem padronizados. Era mais comum vê-lo aos finais de semana, quando parava em casa. Alan tinha uma mania: adorava limpar sua casa de madrugada, mas fazia isso com todo cuidado, evitando acordar seus vizinhos. Alan passou por algumas dificuldades e, numa espécie de providência divina, viu a mão de Deus se estender sobre ele. Por vezes, era presenteado com bolos, tortas, pratos de comida, utensílios de casa, eletrodomésticos e tantas outras coisas naturais da vida. Aquelas senhorinhas, mesmo as mais rabugentas, o pajeavam, cuidavam dele. E sempre buscavam saber se estava tudo bem com ele. Os anos passaram, Alan se formou e teve de se mudar pra uma outra cidade onde já havia garantido um emprego concursado. E, com isso, sua antiga vida ficou pra trás.

12 anos se passaram, e Alan resolveu voltar à vila de nome Travessa dos Castros, a fim de reencontrar aquelas que um dia foram suas amigas. Algumas fachadas idênticas, outras foram reconstruídas, e a estética já não era mais a mesma. Ao chegar à vila, Alan não encontrou o mesmo cheiro, as mesmas plantas e as mesmas pessoas. Alan quis reencontrar as amigas que um dia tanto lhe fizeram bem, mas se deparou com outras pessoas, outras vidas e realidades. E pôde perceber como a vida é formada por ciclos, encerramentos e novos recomeços. Alan nunca soube do paradeiro de Lourdes, Balbina, Tereza, Cristina e Alzira. Devido à idade, cogitou que muitas se fizeram poemas em reminiscências no tempo e no espaço. Ali, Alan se deu conta do quanto a finitude da vida é real, e de que a vida é estranha demais: pessoas vêm, vão, mas suas histórias continuam eternizadas na memória e no coração, ainda que seja impossível saber o destino de cada um de nós.

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