"Las dos Fridas" (As Duas Fridas), Frida Kahlo | Óleo sobre tela, 173,5 × 173 cm (1939).
Museo de Arte Moderna, Cidade do México, México.
Aristóteles, em sua obra clássica Ética a Nicômaco, dividiu a amizade em três tipos: a amizade baseada na utilidade, a amizade baseada no prazer e a amizade verdadeira, fundada no bem e na virtude.
Recentemente, comecei a constatar que algumas pessoas do meu ciclo social se aproximavam de mim pensando no que eu poderia oferecer a elas, algo que Aristóteles compreendia como uma amizade baseada na utilidade, na lógica da troca. Já em relação a outras, senti um leve afastamento, quase imperceptível, mas bem visível para quem já aprendeu a ler a vida de outra forma.
Sei que existem amizades que nos conectam com a nossa essência, e o tempo e a distância não rompem as barreiras que um dia foram criadas a partir do laço e do vínculo estabelecidos anteriormente. Nessas horas, você realmente entende o sentido do que é o amor e da constância.
Já em outras relações, a gente entende que a vida é feita de fases e que a energia das pessoas sempre muda. Talvez a minha tenha mudado e, com isso, naturalmente, tenha ocorrido a finalização de um ciclo, e algumas pessoas tenham seguido um curso natural, por caminhos diferentes dos meus.
Mas, nessa reflexão, quero chamar a atenção para aquele tipo de amizade que nasceu de um interesse específico, sustentado pela ideia de utilidade ou de um prazer instável e inconstante.
Nos últimos dias, tenho passado por um processo de metamorfose, e dizem que, a cada cinco anos, ocorre um encerramento de ciclo na vida do homem. E, junto desse encerramento, como a fênix da mitologia grega, nasce uma nova etapa da vida. Ou seja, da morte de um ser para a vida. Ou, como descrito no livro de Eclesiastes: “Há um tempo para todo propósito de Deus debaixo do céu.”
Quando o ciclo de amizades muda, a gente acolhe, respeita, agradece pelo tempo que se passou e deixa ir aquilo que um dia fez total diferença na nossa vida, fosse essa diferença boa ou ruim.
Afinal, ninguém aparece por acaso. A vida, às vezes, exige circunstâncias adversas que são atravessadas por pessoas forjadas na luz e na sombra, para fazer de nós pessoas mais maduras e, de certo modo, mais fortes e resilientes.
Nesse meu processo de mudança estética, de uma nova vida gerada por meio do ingresso em um curso importante, percebi o afastamento de certas pessoas. Talvez porque essas pessoas tenham se aproximado por algum interesse específico, ou porque querem nos ver bem, mas nunca, em hipótese alguma, melhor do que elas.
Esta reflexão não é para fazer alusão à ideia de um lamento em si, mas, sim, uma síntese sobre o quão complexa e incompreendida é a humanidade.
Senti isso, inclusive, na forma como algumas pessoas me tratavam e na maneira como passaram a me tratar. Senti nos boicotes em determinadas situações da vida, no olhar discreto e sutil, nos comentários passivo-agressivos, que são quase imperceptíveis, mas perceptíveis e sensíveis ao olhar daqueles que aprenderam a ler a vida, os gestos e as pessoas.
A gente se chateia um pouco, porque, de alguma parte, sempre houve sinceridade em tudo o que sentíamos, mas a gente não controla as emoções e os sentimentos alheios, e talvez nosso grande defeito enquanto seres humanos seja sentir demasiadamente.
De uma coisa a gente tira dessa lição toda: a vida passa, as pessoas vêm e vão embora, mas só sobrevivem aqueles que suportam a sua felicidade e as suas conquistas.
Estar ao lado de alguém nos momentos de tristeza e amargura é fácil; permanecer ao lado nos momentos de felicidade extrema é que é bem difícil. Talvez esse seja o maior desafio do ser humano enquanto habita este plano e talvez também seja este um dos grandes desafios da nossa efêmera humanidade, como tão bem expressou o poeta atemporal Gonzaguinha:
“Fé na vida, fé no homem, fé no que virá!”
No fim das contas, é mais sobre a lealdade daqueles que um dia juraram caminhar do seu lado, sobre como resignificamos a vida e as pessoas ao nosso lado, do que sobre a atitude de cada um durante o percurso do nosso caminhar.
Que consigamos viver a nossa frágil e passageira humanidade em sua integralidade, acolhendo os encontros, respeitando os desencontros e compreendendo que cada pessoa deixa em nós aquilo que, de algum modo, precisava deixar.
Vivendo e aprendendo.
Autoria: Rafael Victor Ribeiro
Ninguém passa por nossas vidas em vão. Seu texto também trás uma reflexão a finitude das relações, a amizades que vão e de repente sem vc esperar voltam em momentos oportunos, mas sobre tudo uma reflexão a estar atento a quem realmente nos quer bem. Como voce mesmo diz, todos nós querem ver bem, mas nunca melhor que eles. Amo vc e espero nunca ser apenas uma estação em sua vida, que nossa amizade seja primavera, verão, outono e quando o inverno chegar, a gente possa aquecer nosso coração apoiados por Cristo e nesta amizade que ele abençoou.
ResponderExcluirTambém amo você, amiga-irmã! Obrigado pela leitura e participação nessa postagem! <3
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